
Volume 4 - Capítulo 326
A Virtude do Demônio
Eiro olhou para o grupo de orcs enquanto desciam a montanha devagar. A maioria deles estava um pouco amarga por terem perdido o lar assim e com razão, mas, no geral, parecia que conseguiriam superar isso. Eles conseguiram pegar algumas coisas essenciais de que precisavam, ou os objetos que carregavam consigo quando a montanha desmoronou na vila, então não perderam tudo.
Pelo que o Demônio conseguia dizer, o Orc idoso que foi atacado não tinha muito tempo sobrando. Todos aqui sabiam disso, incluindo o próprio orc idoso. Até as crianças estavam cientes disso. Algumas delas lidavam com tais situações ainda melhor do que os adultos.
Muitos orcs iam falar com o orc idoso, despedindo-se apropriadamente dele, como se estivessem usando-o como um intermediário para se despedir de todos que morreram antes, já que não conseguiram prever o que aconteceu com eles. Muitos morreram na hora e nenhum dos orcs conseguiu se despedir dos corpos, mas, se dissessem ao orc idoso, talvez conseguissem passar algumas mensagens para os outros no pós vida. Eiro tinha certeza de que era isso que passava pelas cabeças deles.
Logo, o sol começou a se pôr, mas a Vila Goblin estava à vista. Bem, não seria certo chamá-la mais de ‘Vila Goblin’, afinal, agora haveria Kobolds e Orcs vivendo lá e utilizariam muitas das aranhas para ajudar com seus trabalhos. Era mais correto chamá-la de ‘Vila dos Monstros’ do que se concentrar nos Goblins neste ponto.
Assim que Eiro e os Orcs das Terras Altas chegaram à vila, houve alguns problemas com os Kobolds que reconheceram esses monstros como aqueles que os expulsaram de seu antigo lar, mas, por sorte, Eiro conseguiu utilizar o tradutor dos respectivos grupos, o que significava o Kobold mais inteligente, assim como a criança Orc, para ter certeza de que cada grupo entendia o que estava acontecendo.
Como os Goblins da Montanha não tinham nada contra os Orcs das Terras Altas, em primeiro lugar, não se incomodaram com a presença deles, mesmo que tivessem um pouco de ciúmes da estatura deles. Goblins eram muito baixos, especialmente se comparados aos Orcs de físico alto. Até aqueles que se orgulhavam de sua grande estatura eram mais baixos que os orcs comuns.
Mas um pouco de rivalidade nunca era algo ruim. Eiro trouxe os Orcs até uma parte da vila onde seria fácil escavar e fazer algumas casas para eles que poderiam expandir mais tarde. Eles possuíam um mago de terra com eles, afinal. Ele deveria ser capaz de descobrir algumas coisas.
Então enquanto os Orcs se acomodavam na vila, Eiro levou o Orc idoso até o local que era sua ‘Caverna’, sua casa nesta vila, a caverna abandonada pelo mago e o deitou em uma das lajes de pedra onde ele poderia dormir até a morte mais tarde. Eiro não faria isso por todos eles. A única razão para ter feito isso foi para que pudesse falar em paz com o orc idoso.
Mas, por ora, Eiro também trouxe a criança Orc com ele, já que ele era o representante de todos esses Orcs. Ele o apresentou a Gobo e Kitsue.
— Hm? Ele é o chefe deles? Uma criança? — Gobo questionou, surpreso, olhando para a criança. Eiro assentiu enquanto colocava a mão na cabeça do orc.
— Uhim. Ele é o filho do antigo chefe deles e é bastante inteligente. Consegue falar fluentemente a Linguagem Comum, isso sem ninguém o ensinar. Eu não vi um livro sequer lá.
Ao escutar essas palavras, parecia que Gobo, Bavet e até Armodeus – que havia acabado de retornar de fazer a melhoria na carruagem – ficaram muito surpresos. Apesar de que Kitsue não compreendeu o que isso significava.
— Como isso é possível, rapaz? Tem certeza de que ele não mentiu para você? — Armodeus perguntou com um olhar de suspiro direcionado para a criança nervosa, que se escondeu atrás de Eiro quando encarada com uma expressão tão assustadora.
— É claro. Neste ponto, não há como alguém mentir para mim e se safar. Isso tem relação com a habilidade em que você também estava interessado, Armodeus. Aquela ‘Proficiência Completa em Ferramentas’. Parece que o verdadeiro significado dessa habilidade foi perdido na tradução, de alguma forma. Cada um desses orcs recebeu um objetivo, mesmo que eles próprios não saibam o que ele seja e recebem o conhecimento e habilidades para concluir esse objetivo. Se for para criar uma lâmina de grau específico, então serão capazes de aprender todas as técnicas e habilidades com ferramentais que precisam para fazer essa lâmina, mesmo sem interferência externa. Se o objetivo deles é matar cem javalis, então terão todo o conhecimento que precisam para portar uma arma e como encontrar javalis. — Eiro explicou, olhando para a criança que ainda estava escondida atrás dele.
— Isso está correto, não é? — Ele perguntou. A criança olhou para ele e assentiu.
— I…Isso… — Ela disse. — M-Mas nós recebemos uma ‘ferramenta’ c-central… Como espadas, martelos ou serras… Nós sabemos isso pelo menos… Recebemos o conhecimento para usar essas ferramentas da forma correta para completar nosso objetivo…
— Isso mesmo. No caso desta criança, sua ferramenta é a ‘Caneta’. Portanto, como a Linguagem Orc não possui letras escritas, ele foi obrigado a aprender uma linguagem diferente que possuísse letras. Foi a ‘Comum’.
— … Ele aprendeu toda uma linguagem simples assim? Isso não é meio trapaça? — Bavet questionou com um sorriso irônico em sua forma humanoide. — Lembro que a Linguagem Comum foi incutida em mim por anos a fio antes que conseguisse entendê-la de alguma forma… Como foi para você, Eiro?
— Hm? — O Diabrete respondeu. — Oh, eu conseguia falar fluentemente uma semana após dizer minha primeira palavra.
— … Claro que sim.
— Mas, para ser honesto, a proficiência em minha habilidade de linguagem foi aprimorada, então ela subiu de nível muito mais rápido do que o normal. — Eiro começou e Armodeus encarou o Demônio depois de ouvir algo que não esperava.
— O que você acabou de dizer? Sua habilidade foi aprimorada? Como isso?
— Ah… Você conheceu James, certo? Quando estava ficando na minha mansão? Bem, ele é o mesmo James que se aventurava com Avalin naquela época. Esses dois, com seu outro companheiro, Thomas, compraram de Zaragon um livro de feitiços com magias de uso único inscritas nele. Um desses feitiços especiais era uma habilidade de aprimoramento. Embora eu não tenha ideia de como ele funciona. — Eiro explicou e muitas coisas diferentes foram conectadas na mente de Armodeus.
— Aquele cara era o James que te escravizou…? Sério?… — Armodeus questionou. — Não é de se imaginar que houvesse tal tensão entre vocês dois.
— Ah… Não, essa tensão não foi por isso, na verdade veio de mim… Bem, matando aqueles dois. — Eiro disse, apontando para os dois Fogos-Fátuos flutuando sobre os ombros de Gobo. O branco começou a brilhar suave enquanto a voz gentil de uma mulher vinha dele.
— É… Desculpa? — Ariella disse.
Irritado com o fato de sua amiga reagir daquela forma, Mikey exclamou:
— Ariella, não se desculpe! Foi ele quem nos matou cruelmente!
— Ah, isso é verdade… — O Fogo-Fátuo branco sussurrou. Eiro tentou ignorar esses dois por ora, esperando que os outros fizessem o mesmo.
— De qualquer forma… Ele será um dos líderes da vila, com você, Gobo, liderando todos eles. Entendido?
Gobo, como um adolescente mal-humorado, olhou de volta para Eiro depois de encarar a Kitbold ao seu lado.
— Mestre, você realmente quer que eu lidere esta vila junto com… Ela?
— Eu quero. Sei que não gosta dela, mas é isso que quero que você faça. Certo? Tentem se dar bem. Vocês não precisam se tornar amigos, mas, pelo menos, quero que vocês dois não se matem enquanto eu estiver longe. — Eiro perguntou para o Hobgoblin na sua frente, que fez uma leve careta em resposta.
— … Tudo bem.
Eiro soltou um suspiro.
— Voltarei aqui quando estiver a caminho da capital. Escreverei uma lista do que quero que vocês façam até lá. Se não conseguirem terminar algo, então pelo menos me deem um motivo para isso. — Eiro comentou. Ele já tinha algumas coisas em que seriam bastante benéficas para o crescimento desta vila a longo prazo.
Depois que Eiro conversou com esses três mais um pouco sobre o que precisavam saber sobre a situação e o que aconteceria daqui em diante, dentro da vila e ao redor dela, todos, exceto Bavet, Armodeus e o Orc idoso, saíram da caverna.
O Diabrete coçou a parte de trás de sua cabeça enquanto olhava para Armodeus.
— Presumo que tudo com a carruagem funcione bem? — Eiro perguntou e o Rei dos Artesãos respondeu.
— Sim, é claro que sim, rapaz. Tenho certeza de que ficará feliz com essas melhorias. Agora, conseguiremos chegar ao nosso destino mais rápido, seguros e confortáveis. — O Anão Ancião disse, presunçoso, com um sorriso amplo enquanto pensava sobre sua criação. Com um sorriso, Eiro passou por Armodeus.
— Obrigado. Aprecio muito isso. Então, você pode relaxar pelos próximos dias. Eu dirigirei. — Agora… Velho. Sabe que não tem muito tempo, certo? — Eiro perguntou. Armodeus e Bavet ficaram confusos com o que ele tentava dizer, falando sobre este orc moribundo e senil, que nem falava Linguagem Comum, mas, para surpresa deles, o orc tentou se sentar um pouco.
— Não sou tão sem noção para não saber disso.
Bavet encarou o orc e estreitou os olhos.
O quê…? Como ele com-
— Ele é um orc que foi criado por um dos antigos Reis dos Monstros. Toda aquela vila de orcs foi criada por descendentes dele e dos seus camaradas. Parece que este foi permitido viver por um período muito, muito maior que os outros, certo? — Eiro explicou sem pestanejar. — Mas isso não importa para mim agora. Tenho que lhe perguntar algumas coisas. Há pouco, se não nenhum, conhecimento público sobre o estado do lugar em que o Rei dos Monstros habita. Além disso… quero saber sobre as habilidades do Rei dos Monstros… As habilidades que ele recebeu depois de se tornar o ‘Rei dos Monstros’, o que esse título permite que ele faça.