A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 324

A Virtude do Demônio

— Huh, a criatura mais rápida que já vi em toda minha vida não consegue atingir este demônio simples e jovem? — Eiro questionou com um sorriso na face, mas, por trás desse sorriso, Eiro escondeu seus pensamentos reais e preocupações.

O que ele estava fazendo poderia ser útil, mas ele não aguentaria continuar com isso por muito tempo. Eiro estava controlando partes do seu corpo de formas intrincadas e, algumas vezes, tinha que se mover de maneiras nada naturais. Isso drenava sua estamina muito rápido e ele já conseguia dizer que não conseguiria continuar com isso por muito mais.

Em primeiro lugar, isso só era possível porque o Corvo parecia um completo idiota que não sabia nada sobre táticas ou técnicas. Ele era um bruto que só conseguia se mover rápido e era isso. Embora, pelo que Eiro conseguisse dizer, ele fosse muito adepto a arremessar coisas. As penas que o Corvo arremessou em Eiro se moviam de formas muito específicas, fossem em uma linha reta ou em uma curva, parecia que o Corvo conseguia arremessá-las como quisesse.

Pelo que conseguia dizer, o ferimento no estômago do Orc idoso também veio de uma pena que o Corvo arremessou de forma que perfurou a carne dele e depois saiu. Pelo menos, Eiro viu a pena ensanguentada junto de alguns pedaços de carne escondidos em alguns arbustos.

Agora que estava desviando dos ataques dele e até mesmo recuperou sua adaga, o Corvo parecia levar o Demônio a sério.

— Você é tão lento, mas por que não consigo acertá-lo? Por que não consigo? Por quê? Por quê?! — O Corvo questionou com raiva misturada no estranho senso de excitação escrito em seu rosto. Ele colocou a mão na jaqueta feita de penas negras como breu e retirou uma dúzia delas, que voltaram a crescer de volta na jaqueta.

Neste ponto, Eiro soube que as coisas ficaram sérias. Ele retirou seu Três de Espadas da sua Tesouraria e o ativou. Três anéis apareceram em cada mão dele. O do meio, na mão direita, segurava a adaga oca cheia com algum tipo de veneno e o do meio, na mão esquerda, segurava sua adaga comum. Assim, Eiro conseguiria desconectar as adagas e segurá-las em suas mãos, dependendo do que queria fazer em combate.

Mas isso não era tudo que Eiro preparou.

Ele empurrou seu pé no chão e fez quatro lajes de pedra saltarem do chão, cada uma das quais combinou com uma das lâminas do Três de Espadas. Isso não as transformou apenas em armas extras e grandes, mas como em escudos que seriam úteis para Eiro se defender contra as penas.

 Além disso, Eiro se certificou de ativar a habilidade Pele de Pedra, assim como preparar a Pedra mágica de Gravidade que ainda tinha com ele, inserindo-a em sua boca, onde ficaria segura de cair ou algo do tipo.

Assim, Eiro havia se preparado para o que viria. Por alguma razão, o Corvo pareceu esperar que o Demônio terminasse, como se fosse algum tipo de maníaco de combate que quisesse lutar de frente com ele.

No instante em que terminou de se preparar e o Corvo percebeu esse fato, ele arremessou as penas que segurava. ‘Arremesso’ era, de fato, o complemento perfeito para as habilidades de Corvo. Fossem essas penas fortalecidas em reposta a uma característica adquirida após o treinamento em ‘Arremesso’ e sua posterior evolução, ou uma habilidade que possuía por coincidência, todo corpo de Corvo parecia perfeito para esse tipo de coisa.

Além de Agilidade, o atributo mais alto dele parecia ser Destreza. Esses dois atributos combinados tornavam o corpo dele muito flexível, em particular quando se tratava de ações que requeressem suas mãos ou pés. Portanto, o corpo de Corvo era perfeito para arremessar objetos com uma precisão incrível.

Não só isso, mas devido ao fato de que essas penas eram armas descartáveis, o Corvo não precisava se preocupar em quebrá-las, pois isso não importava. As penas poderiam ir à velocidade máxima sem desacelerar para o impacto, diferente dos ataques físicos do Corvo.

Devido a isso, assim que as penas foram arremessadas em Eiro, ele tentou reagir. Analisou a situação e torceu seu corpo de forma que sofresse o mínimo possível. Neste ponto, era impossível desviar por completo. Entretanto, devido às diferentes precauções que tomou, conseguiu sair do caminho de algumas, mas a maioria delas ainda o atingiu. A maioria arranhou sua pele, dano que não faria muito devido à Pele de Pedra, mas algumas conseguiram ângulos que afundaram um pouco em sua Pele de Pedra, danificando Eiro.

Por sorte, o Demônio havia movido um pouco da Força Vital para longe dessas partes que foram atingidas para minimizar o dano, mas, mesmo assim, desta vez, Eiro não conseguiu evitar de sofrer danos.

Ele ainda conseguia prever tudo isso, mas, no fim, não era por saber que algo estava vindo que significava que era capaz de impedir isso. A única coisa que ele podia fazer era tentar minimizar o dano com o melhor de suas habilidades. Se isso significava impedir, ótimo. Se significava que não conseguiu, pelo menos tentou sem melhor.

Após o dano ser feito, Eiro tentou concentrar um pouco de sua Força Vital ao redor desses ferimentos para acelerar a regeneração deles ainda mais que o normal, se preparar para os próximos ataques. Desta vez, o Corvo não as arremessou de só uma direção. Na verdade, parecia que primeiro ele tentou testar Eiro, começando a atacar de verdade.

O Corvo começou a girar ao redor do Diabrete em círculos, tão rápido que a poeira no chão começou a girar em uma espiral. Felizmente isso funcionou como uma vantagem para Eiro.

De todas as direções, inúmeras penas eram arremessadas em alta velocidade. Isso tornou muito mais difícil desviar de tudo e o Diabrete começou a sofrer danos. Cada ataque não era capaz de machucar muito e a maioria causava um dano de três dígitos, desde que Eiro desviava da grande maioria, mas o fato de que havia tantas penas vindo em sua direção anulou um pouco disso.

Mas, por sorte, Eiro descobriu outra fraqueza das habilidades do Corvo. Por conta da velocidade, era difícil para ele respirar direito. Assim, ele tinha que desacelerar de vez em quando para fazer isso. Sempre respirava fundo durante esse momento. Isso tornava possível que Eiro utilizasse um pequeno truque que vinha planejando o tempo todo.

Ele estava reunindo anestésico em seu ferrão e começou a liberá-lo, usando uma combinação de magia de água e de vento para transformá-lo em um tipo de névoa. Névoa que Eiro conseguia esconder entre a nuvem de poeira e levar em direção ao local que previu que Corvo respiraria a seguir.

Isso foi algo que Eiro fez por um bom tempo até que percebesse que o Corvo desacelerou muito. A precisão das penas começou a diminuir, embora Eiro ainda não conseguisse desviar totalmente delas, pois até ele ficou mais lento, afinal estava ficando bastante exausto neste ponto.

Entretanto, cada vez mais, Eiro conseguiu desviar as penas com suas lâminas ou com as lajes de rocha que combinou com seu Três de Espadas. Logo, o próprio Corvo percebeu que havia desacelerado, embora não tivesse certeza de como isso aconteceu, afinal, Eiro escondeu isso muito bem.

Esse era o momento perfeito para Eiro atacar. O Corvo ainda conseguiu desviar com bastante facilidade, mas, pelo menos, o Demônio conseguiu se aproximar dele, forçando-o a ter um combate corpo a corpo algumas vezes.

— Algo errado? Está se sentindo tonto? — Eiro perguntou com um sorriso. Devido à inteligência muito baixa do Corvo, essa pergunta parecia ter muito impacto, como se ele mal conseguisse perceber que Eiro era o responsável por isso, mas não fosse mentalmente resistente para não se deixar ser afetado.

— O que você fez? O quê? O quê?! — O Corvo questionou com um olhar profundo e o Diabrete deu de ombros com um sorriso na face.

— Eu me pergunto..!

Eiro continuou espalhando anestésico pelo ar para que o Corvo não tivesse outra escolha a não ser respirá-lo. A resistência às toxinas de Eiro era suficiente para que se defendesse contra o pouco que atravessava a barreira de vento, que colocou na frente da sua boca para filtrar o anestésico.

Assim, o Corvo trocou para outra tática. Ele correu até Eiro segurando suas penas nas mãos, arremessando-as no Demônio à queima-roupa, pensando que isso seria suficiente para matá-lo imediatamente, entretanto, não era o caso.

Eiro empurrou sua mão para frente no local em momento certos, conseguindo atingir o braço do Corvo e enviando um pequeno pulso de mana para dentro dele, utilizando seus métodos de tortura. O corpo do Corvo se contraiu e seus movimentos pararam por uma fração de segundo, suficiente para que Eiro balançasse as lajes de pedras nele e o empurrasse contra a parede rochosa mais perto com força total.

Eiro tentou continuar pressionando de imediato, mas, quando pressionou seu braço contra a garganta dele e uma das suas adagas contra o peito, enquanto as quatro lajes de pedra flutuavam ao redor da cabeça do Corvo, Eiro teve um mal pressentimento.

Afinal, essa não era a maneira mais provável que ele imaginou que isso aconteceria. Pelo contrário, era uma das menos prováveis, mas ainda assim provável, algo que Eiro imaginou.

E parecia haver um motivo para isso. O Corvo encarou o horizonte e disse com uma voz sem emoção:

— Ah… Desculpa, não tenho mais tempo para brincar com você… Preciso ir.

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