A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 323

A Virtude do Demônio

O Corvo olhou para Eiro com uma expressão animada, uma que o Demônio não conseguia retribuir. Ele olhou para ele de cima a baixo, depois retirando uma das penas da sua jaqueta. O corvo segurou a pena entre seus dedos, torcendo sua mão para frente.

A velocidade com que esta pena viajou era incomparável à pena antes dessa. Tanto que Eiro foi incapaz de reagir, mas, neste ponto, Eiro percebeu outra coisa

 Enquanto a pena arranhava sua bochecha, fazendo sangue fluir pela sua pele, ele continuou encarando o Corvo com intensidade, até notar um resquício de uma ‘aura’ familiar.

— Você é um portador de carta? Como conseguiu esconder isso de mim? — O Diabrete questionou. O monstro na sua frente pareceu um pouco surpreso.

— Você conseguiu sentir? Pensei que havia suprimido apropriadamente… — O Corvo murmurou, tentando descobrir onde errou.

Enquanto isso, Eiro descobria que esta luta poderia ser mais difícil do que pensava antes. Apesar de ter um físico bastante poderoso, a maioria de suas habilidades era baseada em coisas que aconteciam dentro dele. Memória, raciocínio e até magia. O fato de que o foco de Eiro estava nisso era o que tornava impossível para ele derrotar Corvo de frente.

Considerando que Eiro imaginou que a Carta do Corvo era o Dois de Ouros, fornecendo a ele uma agilidade suprema. Como Agilidade significava velocidade, este Corvo era um dos seres mais rápidos que existiam, pelo menos um dos mais rápidos que Eiro já viu.

Só havia uma coisa que ele poderia fazer. Eito tentou inserir sua mana no anel de novo, mas quando se concentrou no mundo ao seu redor, deparou-se com o Corvo o encarando de perto.

A um centímetro de distância.

Naquela fração de segundo, o Corvo havia aparecido na frente de Eiro sem o Demônio notar.

‘Como isso é possível?’

Eiro não se importava muito por agora, já que tinha que se concentrar em outra coisa. Tinha que usar o resto do tempo que tinha para ter certeza de que conseguia matar este Corvo. Ele retirou sua adaga da bainha na lateral do seu corpo e a esfaqueou fundo no peito do Corvo, ou assim tentou, pois a adaga não atravessou a pele dele, já que ainda era possível que ela se partisse. Eiro tinha que se certificar de esfaquear repetidamente o mesmo lugar o mais rápido possível antes que o tempo voltasse.

Além disso, Eiro tentou outra coisa: Inseriu a mão em sua bolsa e retirou um saquinho. Ela estava cheia de migalhas de Pedras mágicas, restos da mina que já não poderia ser usado para nada em particular.

Eiro queria tentar utilizá-las em alguns experimentos de fusão com magia, mas isso era mais importante. Derramou o conteúdo no saco e as pequenas migalhas começaram a fluir no ar bem na frente do rosto do Corvo.

O Demônio espalhou essas migalhas por toda a cabeça do Corvo, de cima a baixo, na frente ou atrás, onde houvesse espaço. Então, as encheu com o máximo de mana para fazê-las transbordar.

Para ativar algum tipo de reação mágica, Eiro até se certificou de espalhar essas migalhas de modo que formassem um círculo mágico que, com sorte, ajudaria a concentrar o poder na própria cabeça, em vez do lado de fora.

Eiro também tentou puxar o orc idoso para algum lugar seguro junto dos espíritos. Ele não tinha certeza de quão grande o impacto seria, mas parecia que seria bem intenso.

O Diabrete se virou assim que terminou, encarando a notificação dizendo a ele que tinha menos de trinta segundos restantes. Havia desperdiçado muito do tempo restando dentro deste artefato, mas valia a pena se fosse para matar este Corvo… Com a velocidade que ele receberia ao usar o Dois de Ouros, Eiro receberia um benefício imenso.

Assim, enquanto se virava, fez o tempo fluir novamente, mas neste instante, Eiro notou algo que não prestou atenção mais cedo.

A posição dos olhos do Corvo estava diferente.

Assim que o tempo continuou a fluir, uma explosão se desdobrou ao redor da cabeça do Corvo. Era muito maior do que Eiro antecipou, muito maior e muita poeira cobriu o corpo do, presumivelmente morto, Corvo.

Mas, para o horror de Eiro, não havia nada ali. Sem cadáver, ou até mesmo sangue. Ele ficou confuso com o que estava acontecendo, até que sentiu um toque gentil em seu ombro.

— Hm… eu pensei que seria divertido lutar contra você. — A voz do Corvo soou ao lado da cabeça de Eiro. — Claro, você é rápido, mas por causa desse artefato em sua mão. Eu realmente odeio ser enganado assim.

No instante seguinte, Eiro sentiu um golpe forte em suas costas enquanto o ar desaparecia dos seus pulmões, como se tivesse sido forçado a sair. O Diabrete foi empurrado, quase chegando à beira da plataforma.

[-4102 de Vida]

— … Huh…? — Eiro murmurou enquanto começava a respirar de novo.

‘Isso… não foi muito dano. Pelo menos, não tanto quanto esperava.’ Então, percebeu algo. Algo que o permitiria competir contra Corvo em uma luta.

— Você é bem fraco, não é? — O Demônio questionou com um sorriso na face. — Rápido, claro, mas fraco… Seu corpo não aguenta quando você ataca alguém em alta velocidade, pois não é fisicamente forte, então não pode atacar tão rápido… Hah… e falando… Falando sobre ser enganado. — Eiro sorriu e começou a pensar. Ele percebeu que o Corvo poderia ser incapaz de matá-lo por ataques se Eiro congelasse o tempo.

Parecia que ele conseguia utilizar sua velocidade superior para se livrar de qualquer dano que poderia sofrer. Ele segurou a adaga agora, de alguma forma, e conseguiu trocar a posição de algumas das migalhas de pedra mágica e pareceu até mesmo rápido o suficiente para virar a cabeça para conter o dano repentino dos socos de Eiro.

Possivelmente também foi assim que diminuiu o dano dos pedregulhos até certo ponto.

— Eu não preciso ser forte! Com minha velocidade, posso te acertar algumas vezes e você estará morto em um segundo. Ainda tenho sua adaga, lembra? — O Corvo comentou, mas Eiro sorriu.

— Por ora, sim, mas isso irá mudar em alguns instantes.

De imediato, Eiro começou a usar outro truque do qual não tinha certeza. Tentou se ‘recordar’ do que estava acontecendo. Com sua <Memória de um Escolar>, conseguia ver o mundo das suas memórias de inúmeras formas diferentes. Ele poderia desacelerar um único instante para que durasse um ano, enquanto um instante de fato se passava na mente de Eiro.

Se ele se aproveitasse desse fato, tentando se ‘lembrar’ do momento atual enquanto o vivenciava, Eiro conseguiria pensar em uma velocidade superior ao que era capaz no geral. Desse modo, não apenas conseguiria ver o Corvo se aproximando, como conseguia fazer isso como se o tempo tivesse parado de novo. Assim, Eiro poderia usar esta situação de outra forma. Ele analisou tudo, levando em consideração as poucas informações que sabia sobre o Corvo até agora, incluindo que ele tinha que desacelerar para atacar.

Com sua mana, Eiro tentou se preparar o mais rápido que conseguia para tudo, formando uma bola na palma da sua mão direita. Ele girou seu torso o máximo que podia para a esquerda e virou os pés para dentro. Ou pelo menos, estava começando com essas ações. Os espasmos musculares estavam começando a acontecer. Eiro não conseguia alcançar uma velocidade como aquela, mas ele não precisava. O Diabrete sabia quão rápido seu corpo era e como reagia às coisas. Tudo isso foi perfeita planejado.

Assim que permitiu que sua mente voltasse ao normal, o Corvo já estava ao lado dele, mas, devido à pequena indentação que foi formada na lateral do Demônio por conta da inclinação em seu torso, a adaga errou e cortou sua capa. O Demônio transformou toda a mana acumulada em sua palma em magia de vento e empurrou seu corpo para frente.

O Corvo havia continuado se movendo tentando continuar golpeando Eiro, mas não importa o que o Corvo fizesse, Eiro previa tudo aos mínimos detalhes e desviava de cada corte que ele tentava fazer.

Eiro torceu seu corpo, pulou, retirou coisas da sua Tesouraria em locais específicos, guardou outros objetos em sua Tesouraria. Usou magia para ficar mais leve ou mais pesado, dependendo dos movimentos dele e do que precisava que acontecesse. Apesar do fato de o Corvo ser muito mais rápido que Eiro, a criatura era incapaz de acertar um golpe nele.

Isso é, até que ele parou de golpear e, em vez disso, esfaqueou na direção de Eiro, irritado, mas era isso que o Diabrete estava esperando. Usando as partes cortadas da sua capa, Eiro envolveu sua mão com força e a preencheu com magia de gelo. Suas mãos já estavam na direção da lâmina. Era inevitável. O tecido congelante encostou na lâmina especial e os pequenos furos dentro dela se abriram, enquanto o Demônio apertava com força. Quando o tecido estilhaçou em fragmentos congelados devido ao impacto repentino, o Corvo foi atingido por um desses fragmentos. Devido à velocidade do seu próprio corpo, cortou até mesmo o seu braço.

E isso era mais do que o suficiente para Eiro por ora, afinal, o que estava dentro da adaga não era água, mas veneno. Veneno que se espalhou, de certa forma manipulado pela magia que Eiro espalhou no ar de antemão e caiu direto no pequeno corte no braço do Corvo.

Não era suficiente para matá-lo, isso não era o objetivo e Eiro por agora… Em vez disso, seu propósito era o fato de que a atenção do Corvo deslizou junto com a força do seu aperto, quando Eiro conseguiu puxar a adaga para longe dele, de forma que ela pousasse suavemente em sua outra mão.

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