A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 322

A Virtude do Demônio

Eiro continuou olhando para o horizonte, sua mente ficando maluca com a ‘verdade’ da situação. Até então, este orc era o mais velho desta vila. Era meio estranho que ele soubesse Linguagem Comum tão bem, apesar do fato de que a criança tenha dito ser o único que a conhecia.

Como aquela criança dizia a verdade, isso significava que ela não sabia que este orc era capaz de falar essa linguagem. O monstro idoso escondia isso daqueles ao seu redor, mas sentiu-se livre para exibir isso para Eiro sem um momento de hesitação por causa de quem, ou melhor, o que, ele era.

Tais pensamentos e muito, muito mais passaram pela de Eiro chegasse a uma conclusão.

— Então, é você que está matando os outros Orcs.

— Essa é uma conclusão surpreendente de se chegar tão rápido. — O orc disse, embora não tivesse a negado. Eiro assentiu.

— É claro. Já imaginei que o Rei dos Monstros está por trás da criação desta vila em particular, além disso, esse tipo de comportamento civilizado não é algo com que se nasce naturalmente. Portanto, o Rei dos Monstros deve ter deixado algumas pessoas com o propósito de ‘liderar’ esta vila, assim como algumas que deveriam se ‘livrar dela’ assim completasse seu papel. Você deve ser um desses, não é?

— … Você é bastante esperto, devo dizer. Presumo que tenha sido criado pelo Rei mais novo? — O orc questionou e Eiro assentiu.

— Uhum, mas não pense que todos nós somos assim. Sou um caso um pouco especial.

— Entendo… Bem, isso pouco importa. Você está correto. Os primeiros desta vila foram criados pelo Rei dos Monstros que reinou há algumas centenas de anos, com o objetivo de criar um único objeto de poder, mas ele já foi retirado por outro lacaio do Rei atual. Então, como o único que sabe os segredos deste lugar, como o ‘Guardião’, minha tarefa de vida foi ‘renovada’. Eu deveria matar todos nesta vila.

Eiro escutou as palavras do Orc e compreendeu o que ele tentava dizer, mas ainda tinha que ter certeza.

— Você fez isso para encontrar uma maneira de contornar sua tarefa, ou isso já faz parte de um plano para contornar sua tarefa?

Com uma risada baixa, o orc idoso acenou com a cabeça.

— O último dos dois. Veja, a primeira linguagem que uma criatura aprende é sua ‘língua mãe’, é a linguagem na qual o sistema será exibido. Devido a isso, a tarefa também foi traduzida na Linguagem dos Orcs. — Ele explicou. — Então, como a Linguagem Orc envolve muita linguagem situacional e corporal, as palavras não eram suficientes para transmitir o significado pretendido de sua tarefa sem nenhuma alternativa.

— Deixe-me adivinhar. Sua tarefa pode ser vista como ‘Mate todos na vila’, ou ‘Livre-se de todos na vila’. Então, você está tentando se livrar deles de forma que não envolva necessariamente matá-los.

— De fato. — O orc explicou. — Mas algumas regras ainda me restringem, o que se tornou bastante complicado. Meu tempo limite para matá-los é de 24 horas, mas, devido a motivos similares aos da minha tarefa, isso se tornou uma regra que necessita que eu mate pelo menos um deles a cada 24 horas, além disso, não posso compartilhar a tarefa com mais ninguém, mas isso me tornou incapaz de compartilhar essa informação com qualquer outro orc. Por fim… sou incapaz de me matar para parar a tarefa. — O Orc explicou e Eiro assentiu enquanto escutava a voz do Orc. O tom e as emoções que estavam misturados nela.

— Entendo. Então você tentou fazer todos perseguirem a vila mais próxima para que alguém revidasse e encontrasse o assassino, para que pudessem te matar. A própria vila significa muito para você, não é?

Isso era claro mesmo sem uma resposta direta do orc idoso.

— Bem… então, pelo menos me deixa te ajudar com isso, mas, primeiro, há algumas coisas que quero que conte para mim.

— Pergunte à vontade. Não há nada que nos impeça de fazer isso. — O orc disse com um sorriso no rosto, sangue vermelho-escuro começando a fluir dos cantos de sua boca. Parecia que ele próprio ainda não havia percebido, mas isso era pior para o Demônio sentado ao lado dele, que só percebeu o buraco no estômago do Orc quando era tarde demais.

Eiro conseguiu ver a notificação de dano aparecendo de repente nos olhos do Orc, como se até o sistema não estivesse pronto para essa virada súbita de eventos.

— Que incômodo… Agora eu tenho que massacrar todos eles? Pensei que poderia observar isso mais um tempo, mas acho que não… — Uma voz disse.

Veio de um homem que Eiro não havia percebido antes. O demônio voltou sua memória e percebeu o que estava acontecendo.

Este homem também era um monstro e estava observando Eiro na forma de um corvo sentado ao redor de um grupo de outros corvos, embora o Diabrete não soubesse como o Corvo conseguiu passar pela sua percepção.

Sem hesitação, Eiro se levantou do tronco em que estava sentado e se virou na direção do homem que feriu o idoso.

— Nelli. — O Demônio disse de imediato e a Náiade apareceu ao seu lado. Sem Eiro ter que dizer mais nada, ela começou a curar o ferimento do orc.

Claro, se este fosse um orc aleatório, era provável que Eiro o tivesse deixado morrer, mas era a primeira vez que encontrava outro monstro criado artificialmente com quem seria capaz de ter uma conversa apropriada. Havia muito o que Eiro queria… não, que ele tinha que saber.

Na verdade, o monstro na sua frente se parecia mais com uma pessoa. Ele vestia algo parecido com uma jaqueta feita de penas pretas como o breu. Seu cabelo era da mesma cor e as olheiras que tinha eram próximas disso. Tirando isso… ele parecia ter uma constituição física normal, se não abaixo da média para um humano.

— Acho que não há mais motivos para esperar para ver se algo interessante acontecerá. — O Monstro Corvo disse e apontou sua mão para frente. Com uma velocidade que Eiro nunca testemunhou antes, a pena foi disparada no Diabrete. Ele mal conseguiu reagir, mesmo que conseguisse vê-la. Como se seu corpo não conseguisse acompanhar sua mente. Então, só havia uma coisa que Eiro poderia fazer.

O Demônio ativou o anel que usava em seu dedo médio esquerdo, que havia roubado do executivo da organização. Só havia cerca de dois minutos e meio sobrando, mas isso era mais do que suficiente para mudar o rumo da batalha.

Neste instante, a única forma que Eiro conseguiu reagir foi ao liberar a mana que havia acumulado na sua infusão e inseri-la na gema que era importante quando se tratava deste anel.

— Acho que deveria aproveitar esta oportunidade para terminar com isso rapidamente… — Eiro murmurou ao se aproximar do monstro corvo, passando pela pena que ele havia disparado. Era sempre muito estranho e mover-se neste espaço congelado pelo tempo. Eiro parou na frente do monstro corvo e socou sua face algumas dúzias de vezes. Quando fizesse o tempo continuar fluindo, ele acabaria sendo atingido com muito mais força, o que deveria ser suficiente para derrotá-lo.

O Diabrete se afastou por um instante e agarrou alguns pedregulhos do chão e disparou no corvo. Tanto física quanto magicamente, aumentou em muito a velocidade deles. Isso estava a um ou dois centímetros do rosto do corvo.

Para garantir, Eiro se posicionou de forma que conseguisse disparar um feitiço no instante em que o tempo continuasse a fluir, afinal, não conseguia conjurar feitiços agora.

Então, retirou sua mana da gema e o tempo voltou a se mover. Imediatamente, ele tentou conjurar um feitiço que imaginou ser capaz de danificá-lo.

O corvo foi empurrado e caiu no chão, a alguns passos de onde estava. Os pedregulhos também pareciam ter afundado na pele dele e, como ele não se movia, Eiro imaginou que estava morto.

Porém, para se certificar, Eiro retirou seu Três de Espadas e se aproximou do corpo, mas… os cantos da boca dele se contraíram e exibiram um sorriso que um maníaco poderia esboçar.

— Eu não consegui ver… Como? Como eu não consegui ver isso?! Foi muito rápido para mim? Como? Como?! Mostre-me de novo, que quero ver de novo! — O corpo começou a gritar algumas palavras que assustaram muito Eiro. Além do choque de perceber que seus socos quase com força total não fizeram nada com a criatura.

Eiro podia ver os pedregulhos sendo empurrados para fora da pele do corvo e caírem no chão, enquanto ele se levantava como se estivesse em perfeitas condições, mas isso não era verdade. Eiro foi capaz de ver o dano que havia causado a este monstro através dos olhos dele e, na verdade, era um número bastante considerável.

Mesmo assim, o monstro não foi afetado e ficou inalterado. Talvez ele fosse bom em fingir, ou talvez… Fosse forte demais.

Por algum motivo, o coração de Eiro batia forte em seu peito com esse pensamento. E se este monstro fosse muito forte? Tão forte que seria capaz de enfrentar Eiro com facilidade? Claro, ele próprio era forte, mas, no grande esquema das coisas, ainda havia muitos monstros e inúmeras pessoas que conseguiriam derrotar Eiro.

E Eiro ficava animado sempre que tinha que enfrentar um sem muitas consequências.

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