
Volume 4 - Capítulo 321
A Virtude do Demônio
— Então, vamos ouvir, pequeno chefe. O que está acontecendo aqui? — Eiro perguntou curioso. O jovem Orc na sua frente olhou para o chão com uma expressão amarga e sem esperança.
— Há algo nos atacando… Todo dia, assim que anoitece, um dos nosso caí no chão morto. Não sabemos como, ou por quê… Eles não apresentam ferimentos recentes nem nada do tipo.
— Os mortos possuem algo em comum? Idade, gênero, habilidade? Esse tipo de coisa? — O Demônio questionou, mas o Orc balançou a cabeça.
— Eles não têm nada em comum, não… Podem ser crianças ou idosos, homens ou mulheres, guardas ou artesãos… nunca é com base na localização também.
Eiro encarou o Orc de volta. Ele dizia a verdade e não parecia tentar esconder algo do Diabrete.
— Posso dar uma olhada nos cadáveres? Se ainda estiverem por perto? — Ele perguntou. O Orc olhou para ele e balançou a cabeça.
— A maioria já foi enterrada… Exceto aquele que morreu noite passada…
Eiro assentiu e caminhou na direção da porta. — Então, deixe-me dar uma olhada no corpo.
— M-Mas-
— Garoto, eu disse para me deixar dar uma olhada no corpo. Você precisa da minha ajuda e esta é a única forma que posso ajudar. — O Demônio disse para a criança, que parecia ter arrepios ao encarar os olhos de Eiro. Ele assentiu e liderou o caminho para o Demônio. Eiro olhou para a vila no processo, então escolheu fazer mais algumas perguntas. — Então, por que você decidiu atacar a vila dos Kobolds?
A criança virou a cabeça.
— … Foi uma decisão do meu pai. Ele pensou que era por conta do lugar em que vivíamos e precisávamos sair daqui com raízes, mas… Durante o anoitecer daquele dia, aquele que morreu foi meu pai, enquanto estava na vila dos Kobolds. Então, não pareceu importar aonde íamos.
— … É mesmo? — Eiro murmurou para si. Enquanto isso, olhou para o Gondos flutuando ao seu lado e esticou a mão para o Espírito. — Funda-se comigo. — O Diabrete disse e Gondos se aproximou da mão de Eiro.
— Há algo que você queira encontrar de novo?
— Bem, espero que haja algo para ser encontrado. Então, acho que sim. — Eiro respondeu. Parecia que o Golem compreendia onde Eiro queira chegar, então começou a dar uma olhada ao redor do lugar. Todos os Orcs pareciam muito assustados com a transformação súbita dele, mas o Demônio os ignorou.
No entanto, algo chamou a atenção em sua visão. Era uma fina camada de magia cobrindo toda esta área. Era tão fina que Eiro não conseguia senti-la normalmente, mas agora que estava fundido com Gondos, conseguia vê-la com clareza. Eiro percebeu esse fato e os lugares em que essa mana estava mais concentrada.
O Demônio continuou seguindo a criança Orc e logo chegaram ao lugar em que um dos Orcs estava sendo preparado par ao enterro. Para ser honesto, tudo isso fez Eiro se perguntar cada vez mais como esses Orcs conseguiram se tornar tão… civilizados. Isso por si só já era tão misteriosos quanto essas mortes aleatórias.
Eiro se ajoelhou na frente do cadáver e colocou a mão no centro do peito dele. De imediato, descobriu algo bastante incomum. Este corpo não possuía o menor traço de Força Vital dentro dele. Claro, isso poderia não parecer não estranho, considerando que era natural que alguém morresse quando sua Vida chegasse a 0, mas, na verdade, era bastante raro morrer assim, especialmente combinando com o fato de que este Orc não possuía nenhum ferimento externo. Tinha alguns pequenos arranhões em suas mãos e pernas, claro, mas isso era muito natural.
O cemitério ficava perto dali, então Eiro era capaz de sentir parte dos outros cadáveres e de fato parecia que eles não possuíam nada em comum, tanto em termos de corpo ou ferimentos. O Diabrete resmungou baixinho. Ele não queria ter que esperar até o anoitecer para descobrir o que estava ocorrendo.
Em vez disso, fechou seus olhos e refletiu por alguns momentos.
O Demônio chegou a uma conclusão. Quem ou o que quer que seja que fez isso tinha o poder de aniquilar toda esta vila na hora, mas, por algum motivo, não fez. Isso deixou duas únicas conclusões possíveis.
Primeiro, estava fazendo isso por diversão para ver os Orcs entrarem em pânico.
Segundo, queria perseguir os Orcs para fora desta vila. Embora essa segunda opção só fizesse sentido se houvesse algum destino específico onde esse ser queria levá-los. Os Orcs já haviam deixado um lugar uma vez, mas a criatura ainda os matou. Bem, talvez fosse uma combinação de ambos, embora Eiro não quisesse pensar sobre isso.
Mas algo era claro: a magia que estava espalhada nesta caverna era algo que o perpetuador criou.
Depois de contemplar um pouco, Eiro olhou para a criança Orc.
— Só por curiosidade, mas… Como essa habilidade ‘Proficiência Completa em Ferramentas’ dos Orcs das Terras Altas funciona? Quero dizer, qual é a definição para ‘Ferramenta’ neste sentido?
— Ah… — A criança disse. — Em nossa linguagem, essa habilidade é chamada de ‘Marugahaja’. O ‘ja’ no fim significa ‘completo’, o ‘gaha’ uma ‘habilidade recebida pelo arcano’ e o ‘Maru’ significa qualquer coisa que pode ser usado para um objetivo específico… nós conseguimos as habilidades para alcançar esse objetivo, embora não saibamos qual é até que tenhamos alcançado… — A criança explicou. Com isso, Eiro descobriu algumas coisas.
Primeiro, os nomes das habilidades nem sempre eram tão precisos. Segundo, havia um mistério mais profundo a ser explorado com esses Orcs das Terras Altas. Pelo menos… que Eiro poderia estar o caminho para descobrir o que isso significava.
— … Pode me dar alguns exemplos desses objetivos? — Eiro perguntou e o Orc assentiu.
— Embora só conheça dois… Meu pai terminou sua tarefa, que era ‘Matar o Ogro da Colina’ que vivia por perto. Meu primo terminou a tarefa ‘Alcance o Grau Avançado’ para sua habilidade Ferraria…
— Entendo. — O Demônio conseguiu entender algumas das regras básicas deste lugar, assim como algumas coisas específicas.
Tinha certeza de que estes Orcs das Terras Altas eram uma criação similar à Grandeza. Uma espécie de Monstros que foi criado artificialmente com um propósito desconhecido. No caso da Grandeza, poderia ter sido um teste para descobrir se monstros poderiam ser procriados até certo ponto, talvez tenham sido criados como montarias ou bestas de guerra, ou algo do tipo.
E no caso destes Orcs das Terras Altas… Eiro tinha que pensar na única razão viável para sua criação era encontrar uma forma de controlar a maneira como um grupo grande de monstros ou pessoas agia. Era possível que fosse um dos antigos Rei dos Monstros. Isso faria sentido, pelo menos.
Embora a maioria dos Monstros fossem subservientes ao Rei dos Monstros, havia muitos que tentavam não se desentender com ele e faziam o que queriam. A maioria não possuía uma ‘Lealdade’ verdadeiro com o Rei dos Monstros. Talvez um deles quisesse mudar isso. Pelo menos, Eiro achava difícil de acreditar que havia tantos outros seres capazes de criar Orcs dessa forma, ao mesmo tempo que conferia habilidades para eles.
E agora… Por alguma razão… Um desses Orcs poderia ter nascido com a tarefa de ‘Esvazie a Vila.’
— Espera, não… — Eiro murmurou. Isso não faria sentido, já que estes Orcs não conhecem suas tarefas até que as terminem, mas… — Como eles deveriam saber que tipo de rota deveriam adotar…?
Tinha que haver algum tipo de informação sutil plantada na mente dos Orcs que influenciava seus comportamentos de alguma forma.
No fim, Eiro tinha quase certeza de que o criminoso era um dos Orcs da vila.
— Existe algum conjurador de magia aqui? Eles podem ser capazes de me ajudar com a investigação. — Eiro perguntou com uma mentira descarada. A criança virou para ele e assentiu.
— Nós temos três conjuradores de magia, sim. Um é um mago de terra que ajuda a construir nossa vila. Outro um mago de fogo que trabalha com nossos ferreiros. O último possui algum tipo de magia única, eu acho? Ele nos ajuda a encontrar os inimigos ao nosso redor.
— Hm, eu poderia falar com o último desses três, então? — Eiro questionou com um sorriso. A criança acenou com a cabeça e continuou liderando o Demônio através da vila, olhando para o Orc morto que deixaram para trás com uma expressão amarga. Este garoto parecia surpreendente maduro para sua idade, capaz de suportar esse tipo de coisa.
Mas bem, considerado que ele era um monstro, não era certo tratar o estado mental dele como o de outros. Eiro sabia por conta própria que monstros possuíam mentalidades diferentes do que as pessoas tinham em muitas maneiras. Embora ainda fosse surpreendente de várias formas.
De qualquer modo, a criança levou Eiro até os arredores da vila, através de uma saída no outro lado da caverna. Lá, uma escada levava mais acima na montanha ao que parecia ser uma plataforma plana, como um lugar para um vigia ficar, apesar do que um pouco maior do que aquele em que Eiro pousou.
Lá estava sentado um Orc idoso, fraco e frágil, com as pernas cruzadas e olhando para o horizonte. Havia uma alta concentração da mesma magia que Eiro viu pela caverna. Ele sabia que isso não era para aumentar o alcance da percepção de alguém, já que Eiro era o especialista nesse campo. Em vez disso, era algo obvia mais versátil e agressivo, mesmo que também pudesse ter qualidades que aprimorassem a percepção.
— Garoto, deixe-nos sozinho por um tempo, tudo bem? — Eiro perguntou para ele, que ficou um pouco confuso, mas quando o Demônio sorriu, ele compreendeu que isso era importante e desceu as escadas.
Assim que ele saiu, Eiro e Gondos pararam a fusão. Gondos se sentou no tronco que agia como banco.
— Você é um lacaio dos Rei dos Monstros, não é?
O Orc das Terras Altas idoso assentiu a cabeça de imediato.
— Uhum. Imaginei que você veria isso em mim… Desde que também é um dos lacaios dele.