
Volume 4 - Capítulo 320
A Virtude do Demônio
Eiro olhou para na sua frente e tentou entender o que eles pensavam sobre as ações do Demônio. Ele havia compreendido errado como os Orcs agiriam. Parecia que era muito mais calmo do que os diferentes livros que Eiro leu sobre eles.
Isso levou Eiro a ter duas conclusões.
Primeiro, ele poderia resolver isso om violência da mesma forma como fez com os Goblins e os Kobolds. Aqueles caras eram selvagens o suficiente para aceitar a força como o valor mais importante que um líder poderia ter e responderam bem com Eiro os assustando. Entretanto, esse não era o caso com estes Orcs das Terras Altas.
Segundo, o motivo pelo qual eles haviam saído era problemático, caso contrário tentariam ficar aqui de qualquer forma. Já que não eram dominados pelo medo como os outros monstros, eles deviam estar enfrentando um oponente assustador.
O Demônio curou os ossos do Orc das Terras Altas e o ajudou a se levantar, parando na frente dele e se desculpando.
— Me desculpe por fazer isso com você. Eu deveria ter sido mais compreensivo. — Eiro disse com uma voz calma e genuína. Embora o Orc na sua frente não aprece entender suas palavras, ele era esperto o suficiente para entender o que o Demônio tentava transmitir através dos maneirismos e tom de voz dele.
Ele parecia um pouco incerto do que deveria sentir. Orcs eram seres que se tornavam muito agressivos com facilidade, mas este Orc olhou para os outros ao redor dele buscando por ajuda. Como se não tivesse o tanto de monstruosidade natural neles que se esperaria.
Eiro respirou fundo enquanto se virava para a cabana de pedra atrás dele, aquela em que a criança Orc das Terras Altas se escondia.
— Garoto, sei que você pode me entender. Saia, há algo que precisamos discutir. — O Diabrete disse e conseguiu escutar a criança dentro da cabana estremecer em surpresa, até mesmo um tanto assustado.
Isso era esperado. Mesmo que os adultos fossem criaturas corajosas o suficiente, isso não significava que uma criança agiria do mesmo modo. Com um sorriso suave, Eiro explicou seu motivo para vir aqui.
— Eu quero ajudar você. Sei que todos vocês estão com problemas e queiro me livrar desse problema.
Imediatamente a criança prestou um pouco mais de atenção, movendo-se na direção da janela.
— Por-Por que você iria querer nos ajudar?
Eiro olhou para a criança, surpreso por quão bem ela conseguia falar.
— Alguns de vocês atacaram uma vila de Kobolds, certo? Aconteceu que eles invadiram a vila que estou tentando cuidar enquanto estive fora. Ouvi falar de vocês por eles, descobri que havia algo errado. Então-
— Não… Por que você iria querer nos ajudar…? Não há motivos para você fazer isso.
Eiro não pôde deixar de sorrir. Esse garoto era bastante esperto.
— Há sim. Eu quero que todos vocês se tornem parte dessa vila que mencionei. Vocês possuem habilidades que serão mais do que úteis para mim. Com todos vocês ao meu alado, conseguiremos desenvolver bastante a vila.
— … Por que alguém tão forte como você iria querer desenvolver uma vila cheia de monstros? — A criança questionou. Isso era algo que os Espíritos flutuando ao lado e Eiro também estavam curiosos. No começo, o Demônio não queria muito com a vila a longo prazo. Só queria conseguir pedras mágicas, mas, em algum ponto, Eiro começou a desenvolver um plano para si.
Um poderia utilizar em sua trama para se tornar tanto o Herói como o Rei dos Monstros, ao mesmo tempo que mudava a natureza do relacionamento que as Pessoas e os Monstros tinham. Eiro não sabia o porquê, mas este tipo de coisa se tornou muito importante para ele. Claro, esse era um plano que Eiro ainda estava desenvolvendo cada vez mais.
Partes estavam mudando e, por exemplo nesta situação, ele conseguiu aprimorar em muito uma parte do seu plano, mas Eiro não poderia dizer a eles que queria se tornar tanto o Rei dos Monstros como o herói. Então, em vez disso, disse algo que era o maior aspecto do que queria de tudo isso.
— Eu quero tornar este mundo um lugar para minhas crianças viverem. — O Demônio disse com um sorriso suave. — E não apenas as minhas crianças, mas as crianças delas também. As crianças das crianças delas. Para cada geração que nascer depois disso, quero que este mundo seja mais seguro para eles.
O Orc olhou para fora da janela de novo, encarando fundo nos olhos de Diabrete.
— E-Então, você quer tornar este mundo um lugar que Demônios possam viver…?
— Oh, certo, esqueci que as pessoas não sabem, disso. Não, não estou falando sobre Demônio. Há alguns anos, adotei algumas crianças que trato como se fossem minhas. Elas são humanas. Bem, a maioria, uma delas é uma criança Homem-besta, mas, para ser honesto, devo dizer que você é bastante inteligente e eloquente… Você possui algum tipo de habilidade especial? — O Demônio perguntou e a criança Orc assentiu.
— Na verdade, é uma habilidade inútil para mim, mas pelo menos consigo utilizá-la em situações como esta…
Pelas palavras dela, Eiro conseguiu a última dica do que ela estava falando e, na realidade, ficou muito animado com isso.
— Deixe-me adivinhar, é sobre a sua habilidade ‘Proficiência Completa em Ferramentas’, certo? Qual é a sua ferramenta?
— … É a ‘Caneta’. — O Orc explicou e, de imediato, Eiro se interessou bastante por isso. A habilidade ‘Proficiência Completa em Ferramentas’ fornecia ao usuário toda a informações que poderiam precisar para utilizá-la adequadamente.
No caso do martelo de um ferreiro, seria o conhecimento sobre diferentes metais, em que temperaturas precisavam ser trabalhados, diferentes técnicas e qualquer coisa que fosse necessário para o martelo de um ferreiro ser usado.
E parecia que no caso da ‘Caneta’, o que era visto como necessário para funcionar com ela era a ‘Linguagem’. Embora isso tenha feito Eiro se perguntar…
— Quais Linguagens você consegue falar? — Ele perguntou e o Orc respondeu lenta.
— … Orc e Comum… Não se pode escrever em Orcês, então acho que é por isso que aprendi a Comum…
Com um sorriso amplo, ele se aproximou da cabana em que a criança estava.
— Entendo. Garoto, se quiser, posso te ensinar a como usar sua habilidade direito. Já li bibliotecas inteiras de livros até agora. — O Diabrete disse com um sorriso. O jovem Orc parecia bem interessado nas palavras de Eiro.
Pensando que as coisas estavam funcionando e que estava ganhando a confiança de pelo menos um dos Orcs, Eiro tentou se aproximar ainda mais da cabana de pedra. Depois deu um passo para o lado e pegou a flecha que foi disparada em sua direção do outro lado desse salão enorme. Era bastante impressionante que alguém conseguisse disparar uma flecha nele com tanta precisão.
— Desculpa, nenhum de vocês conseguiriam me atingir, mesmo que tentassem enquanto eu estivesse distraído. — Eiro sorriu enquanto arremessava a flecha no ar, criando um círculo mágico, o qual ativou assim que a flecha acertou as linhas brilhantes de magia de vento concentrada.
A flecha girou e logo foi coberta por uma fina camada de vento rodopiante. A flecha voou até o outro lado do salão, de onde vou disparada originalmente. Eiro se virou e voltou para o Orc parado na frente dele. Aquele que bloqueava a entrada da cabana de pedra em que esta criança Orc interessante se escondia.
— Não quero machucá-lo. Só preciso da ajuda dele para resolver tudo. Tudo bem? — Eiro perguntou com um pequeno sorriso, mas o Orc continuou o encarando. Ao perceber que havia uma barreira linguística entre Eiro e os outros Orcs, a criança Orc decidiu falar com eles.
— Weegha! Hiohjada ria magaha! Oigho, hama-uh jhioha! — A criança começou a falar enquanto Eiro escutava as primeiras palavras coerentes faladas na Linguagem Orc. Parecia que os outros reunidos aqui compreenderam o que a criança disse e, até mesmo, acreditaram nela sem hesitação. Mesmo assim, parecia que ainda estavam desconfiados de Eiro, ainda que a criança Orc tivesse o ajudado um pouco.
A criança saiu da cabana de rocha e Eiro conseguiu ver todo o corpo dela pela primeira vez. Para sua surpresa, havia algumas tatuagens cobrindo sua pele exposta.
Pelo que Eiro sabia, Orcs recebiam tatuagens de acordo com certos feitos e traços. Aquele parado na frente de Eiro até agora também tinha algumas em seu corpo, mas elas eram diferentes das que a criança possuía. Por um instante, ele olhou ao redor, tentando ver se conseguia encontrar essas tatuagens em algum outro Orc. Assim que analisou pouco mais de uma dúzia deles, foi suficiente para que Eiro definisse certos padrões nelas. No fim, Eiro chegou a uma conclusão.
— Garoto, você é o chefe? — Eiro perguntou e a criança olhou de volta para ele um pouco surpreso.
— … Eu sou… Por quê, é tão incomum?
— Claro que é e você deve saber disso. Essas tatuagens são bastante frescas, então não é o chefe há muito tempo, certo?
— … Você está certo, não sou… — A criança disse com um tom amargo, olhando para o chão.
Se comparasse o físico dessa criança com a das outras e com o que Eiro sabia sobre as velocidades de crescimento dos diferentes tipos de monstros, julgaria que ele tinha cerca de 14, talvez 15 anos. Orcs das Terras Altas deveriam possuir uma expectativa de vida semelhante à dos humanos e envelheciam numa taxa parecida. Isso fez Eiro se perguntar o que aconteceu.
Se esta criança Orc fosse o chef, então ela devia ser o filho do antigo chefe. Era assim que essas tribos funcionavam, pelo menos… isso significava que o inimigo que estava levando os Orcs ao desespero era bem forte.