A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 319

A Virtude do Demônio

O demônio olhou para o corpo do grande felino deitado na sua frente. Ele estava movendo água refinada sobre os ferimentos dela e a curando, com a ajuda de Nelli. Eiro se assegurou de ter colado todos os ossos nos lugares certos de antemão, caso contrário, o corpo de Kitsue poderia se curar ao redor deles e causar danos permanentes, assim como infecções possíveis que poderiam matá-la e que não eram facilmente tratáveis com Magia de Cura.

De qualquer forma, agora que o corpo de Kitsue foi curado apropriadamente, Eiro conseguia ver o corpo dela se mudando para sua forma bípede normal. Ele a segurou e a levou até uma laje de pedra, então a deitou e permitiu que dormisse mais um tempo.

— Gobo. — Eiro disse e o Hobgoblin veio até o seu lado.

— Sim, mestre? — Ele perguntou e o Diabrete colocou a mão na cabeça dele com um sorriso.

— Bom trabalho com a luta. Parece que todos os Kobolds agora o respeitam um pouco. — O Demônio explicou. — Mas não os trate tão mal, certo? Trate-os como trataria os goblins.

Gobo olhou para ele com um olhar confuso, que ainda estava cheio de raiva.

— Por que eu preciso cuidar deles também, depois de como trataram meu povo?

— Gobo… — Eiro começou com um suspiro profundo. — Se não se recorda, na primeira vez que nos encontramos, você não os tratava muito diferente. A única razão para você estar bravo com eles é porque eles não são você. Tente compreendê-los e tudo ficará bem. Bem, de qualquer forma, se acontecer de descontar suas raivas nos Kobolds, eu descobrirei mais cedo ou mais tarde. Pode ter certeza de que isso não sairá impune. — Eiro disse com um tom ameaçador que fez arrepios percorrerem todo o corpo de Gobo.

— C-Certo, Mestre… — O Hobgoblin da Montanha gaguejou um pouco. Eiro deu um passo para trás.

— De qualquer maneira, cuida de tudo até que eu esteja de volta. Oh, tenha certeza de auxiliar Armodeus com todas as necessidades dele e não permita que nenhum Goblin ou Kobold encostem um fio de cabelo do corpo dele. Não que tivessem alguma chance, mas ainda não queria ver mortes quando voltar, não importa de que lado sejam. — Eiro explicou enquanto saía da caverna, abrindo as asas e as esticando para se livrar da sensação um pouco tensa que sentia nelas.

— Mestre, aonde você está indo? — Gobo questionou e Eiro olhou para ele.

— Oh, só irei checar a situação com os orcs das Terras Altas. Encontrei a localização da vila deles noite passada e quero saber por que eles foram tão longe para atacar a vila dos Kobolds. Isso deve levar algumas horas, mas estarei de volta antes do anoitecer, não se preocupe.

Gobo assentiu enquanto olhava para baixo. Ariella, o Fogo-Fátuo branco, flutuava ao lado dele, esfregando o braço dele para tentar animá-lo, já que Gobo não parecia estar de bom humor no momento. Feliz por ver que Ariella e Mikey, já tinham se aproximado bastante de Gobo, Eiro se virou e começou a bater suas asas.

Devido ao suporte de sua Magia de Vento, um único bater foi suficiente para que Eiro disparasse para o céu, mas ainda não voou. Em vez disso, usou esse impulso para ir até onde Armodeus aprimorava a carruagem.

Antes que entrasse na caverna feita para que Armodeus conseguisse criar algo com uma oficina, o Anão Ancião o empurrou para longe.

— Ei, não ouse entrar aqui.

— … Por quê? Eu já sei como ela se parece, posso senti-la daqui. — O Demônio apontou e o Armodeus rangeu os dentes irritado.

— Bem, não é o mesmo que vê-la pessoalmente, então cale a boca e saia. Brinque com as outras crianças ou algo do tipo.

— … Ou irei ver os Orcs das Terras Altas. — Eiro suspirou e Armodeus ignorou, já que de fato não estava escutando o Demônio.

— Claro, claro.

Eiro revirou os olhos enquanto retornava. Ele não entendia por que Armodeus não queria mostrar o progresso na carruagem, mas imaginou que isso salvaria um pouco de tempo. Assim, pulou mais uma vez e disparou pelo ar, invocando Gondos, Nelli e Sarius. Eles não eram capazes de acompanhar a velocidade de Eiro, então ele teve de invocá-los para compensar.

— Acho que já consigo ver… — Eiro forçou enquanto estreitava seus olhos. Quando ele e Gondos se fundiram noite passada e tentaram sentir algo irregular nesta montanha, encontraram um lugar que não parecia se adequar com a estrutura natural dela. Pela descrição de onde a Vila dos Kobolds era antes, faria sentido que essa ‘irregularidade’ fosse onde os Orcs das Terras Altas viviam.

Era um pouco mais alto no pico perto desta cadeia de montanhas, então o Demônio voou para olhar mais de perto. Logo conseguiu verificar que de fato havia algum tipo de estrutura artificial ali. Em uma parte dessa estrutura artificial havia uma figura alta com pele azul-claro e gelada.

Ela tinha feições parecidas com javalis, com presas grandes crescendo de suas bocas. Esse era definitiva um orc das Terras Altas. Não era tão grande como orcs normais. No geral, eles eram monstros da Gula que comiam tudo com que se deparavam, até mesmo coisas que não eram comestíveis. Era por isso que a maioria dos orcs comuns tinha a habilidade ‘Estômago de Ferro’, mas esses orcs eram diferentes.

Eles tinham uma constituição naturalmente magra e, embora fossem menores do que orcs comuns, no geral ainda possuíam cerca de dois metros de altura. Eles eram muito mais humanos em suas estruturas do que orcs normais e apesar de seus rostos ainda apresentarem feições parecidas com porcos, não era nada grave neste caso.

Se não fosse por sua pele de cor não natural, uma cor que não era vista nas pessoas, eles poderiam ser confundidos com humanos.  Muito surpreendente, este orc vestia roupas boas e até mesmo carregava uma lâmina decente. Com um sorriso grande, Eiro bateu suas asas e infundiu todo seu corpo com Magia de Vento, voando até o Orc das Terras Altas de guarda em uma velocidade que o Orc mal conseguiu reagir.

Ele conseguiu se encolher e colocar a mão no cabo de sua lâmina, mas antes que conseguisse desembainhá-la ou desviar para o lado, Eiro já havia esticado suas asas para parar seu movimento rápido, chutando o peito do Orc das Terras Altas.

Devido à força que ainda criou através do seu ataque, Eiro conseguiu empurrá-lo de qualquer forma. Com um sorriso grande no rosto enquanto se abaixava em cima do corpo do Orc das Terras Altas, o Diabrete disse:

— Bom dia, caro Orc. Poderia me levar até o seu líder?

O orc encarou fundo nos olhos de Eiro, sentindo a intensidade dele. Não parecia que ele entendeu suas palavras, mas ainda compreendeu suas intenções. Devido ao fato de ter certeza de que Eiro era um ser perigoso, em vez de concordar, ele desembainhou sua lâmina e o golpeou por baixo.

Pelo menos, tentou, mas Eiro recebeu o ataque com seu pé depois de ativar a habilidade Pele de Pedra e infundir seu pé com rochas extras. Parte delas ainda foram lascadas, mas no nível de um corte de papel, então nada sério.

— Hm, isso não foi legal, sabia? — Eiro comentou e chutou com seu pé endurecido no antebraço e canelas do Orc para quebrá-los, para que ele não conseguisse se mover.

Eiro não queria matar estes orcs das Terras Altas logo de cara porque não sabia até que ponto eles seriam úteis para ele. Por algum motivo, a maioria dos monstros que Eiro havia planejado reunir dentro da vila não era útil em combate.

Eles eram bons em escavação, agricultura, produção e esse tipo de coisa. Se Eiro conseguisse mais alguns combatentes para ajudar a proteger a vila e ao mesmo tempo caçarem comida, isso seria mais do que perfeito.

Mas bem, se acontecesse que esses caras não tinham nenhum uso para ele, Eiro não hesitaria em matar todos. Enquanto pousava, já havia conseguido sentir a maioria do layout da Vila Orc. Ela foi construída dentro da própria montanha, com uma quantidade mínima estando exposta. Isso fazia sentido ao considerar que havia um clima severo por aqui. De qualquer modo, sem hesitação, Eiro segurou o Orc das Terras Altas pelo pescoço e o puxou pelo túnel que levava até a vila a partir deste posto de guarda.

Com um sorriso suave no rosto, ele entrou no grande espelho oco cheio com inúmeros Orcs das Terras Altas, jogando o Orc guarda no chão com um sorriso grande.

— Olá, olá! Meu nome é Eiro! Sou um demônio e, a partir de agora, sou o mestre de vocês! Entendido? — Eiro disse.

Ele olhou ao redor para os vários orcs o encarando com confusão e fúria enquanto olhavam para o companheiro deles se contorcendo de dor no chão.

— Oh? Ele? Posso curá-lo mais tarde se for necessário, embora isso dependa se irão me atacar ou não!

O Diabrete analisou as expressões dos Orcs, tentando interpretar qual deles conseguia falar a Linguagem Comum.

Pela janela de um dos blocos de rocha que parecia ser uma casa neste enorme espaço oco, Eiro viu um jovem orc que parecia ter entendido suas palavras, portanto, o demônio caminhou na direção dele.

Mas na frente da entrada da construção estava um orc particularmente grande, segurando um martelo pesado em sua mão e tentando impedir Eiro de chegar até lá. Ele compreendeu o que estava acontecendo.

Com um leve suspiro, Eiro se arrependeu de suas ações e se virou para o orc guarda.

Ele retirou água refinada da garrafa que tinha com ele e começou a curar os ossos dele. Eiro os quebrou da forma mais limpa possível para poder limpá-lo com facilidade, se necessário. Considerando que esses orcs pareciam capazes de mostrar compaixão uns pelos outros, como este orc macho estava tentando proteger sua criança, além de todos esses orcs furiosos pelo bem do companheiro deles, ele sabia que não poderia invadir com agressão.

— Peço desculpas por isso… A maioria dos monstros entende quando confrontados com uma força avassaladora, mas esse não parece ser o caso para todos vocês.

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