A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 316

A Virtude do Demônio

— Uhum, foi o que eu disse. — Eiro respondeu sem hesitar. — A vila em que os Kobolds viviam foi atacada por Orcs das Terras Altas, motivo pelo qual estão aqui agora. Acho que pode valer a pena tentar conseguir alguns orcs. Ouvi falar que eles são artesãos bastante impressionantes. Pelo menos, tão impressionante quanto um Artesão Monstro pode ser.

— … Sim… Orcs normais não são nada especiais. São bem fortes, mas são completos idiotas que só lutam por instinto. Se usam armas, elas foram roubadas das pessoas que mataram, ou são galhos grossos. Orcs das Terras Altas são para um Orc normal, o que um Orc é para um Goblin: insanamente superiores em inteligência, mas o mais impressionante deles é que possuem conexões sociais surpreendente fortes… Além disso… — Armodeus murmurou, sorrindo. — Eles são os Anões do Mundo dos Monstros. Muitos têm uma habilidade especial que torna esse fato uma verdade indubitável para qualquer um que a conheça.

Eiro cruzou as pernas enquanto se sentava e contemplava sobre o que Armodeus estava dizendo.

— Proficiência Completa em Ferramentas.

— Exato! Eles são capazes de usar todas as ferramentas em toda sua capacidade! Não apenas armas, mas ferramentas! Não são caçadores incríveis, mas, em troca, são um dos poucos monstros capazes de criar cidades inteiras! — Muito animado, Armodeus começou a falar sobre esses monstros especiais. Eiro compreendia de onde isso vinha, afinal, era algo bastante interessante de se pensar.

Mas o fato de eles conseguirem criar cidades por conta própria não era o que importava para Eiro. Ele só queria utilizar alguns orcs que tivessem essa ‘Proficiência Completa em Ferramentas’. Normalmente essa ‘proficiência’ era restrita a um conjunto específico de ferramentas relacionadas até certo ponto. O comum era ser dividido entre habilidades com base em produção.

Um orc com essa habilidade poderia ser um ferreiro, outro um fazendeiro, mas, não importa o quê, através dessa habilidade, tinham todo o conhecimento que precisavam para utilizar suas ferramentas ao máximo, incluindo técnicas diferentes e conhecimento geral sobre a área em que a habilidade deles o permitia trabalhar.

Mas, ao mesmo tempo, isso tornava tudo ainda mais estranho.

— Por que orcs das Terras Altas atacariam uma vila de kobolds? Eles fizeram algo para irritar os orcs…? — Eiro murmurou. Não era o tipo de coisa que os Orcs das Terras Altas fariam, mas não havia outra possibilidade de quais monstros poderiam ser.

Se tivesse sido um, então Eiro poderia ter concluído que era possível ser um Orc comum e aleatório que se perdeu, ou talvez fosse algum Monstro aleatório que não tivesse seu habitat natural por aqui, então Eiro não saberia muito sobre.

Mas, como era um grupo grande, assim como os poucos detalhes que viu nos Kobolds e na Kitbold, como alguns pelos de Orcs grudados em suas roupas, Eiro estava confiante de que eram essa subespécie especial de Monstro.

— Huh… Isso é verdade. Talvez eles quisessem expandir? Ou algum tipo de problema os afligiu, então estão desesperados para conseguir materiais, provisões ou novos locais para viver? — Armodeus sugeriu. O Diabrete assentiu.

— Pode ser um pouco de tudo isso combinando. provavelmente há algo que torna impossível, ou pelo menos muito difícil, para eles continuarem vivendo da forma como costumavam. Hm… Gondos, você tem uma conexão muito forte com esta cadeia de montanhas, certo?

O Espírito de Terra apareceu ao lado de Eiro com um sorriso na face.

— De fato. Amadureci aqui, através da vida destas montanhas. Há algo que queira de mim?

— Uhum, há sim. Nelli me disse que espíritos são capazes de sentir tudo que está ocorrendo nos seus ‘locais de nascimento’. Consegue sentir o que está acontecendo nesta cadeia de montanhas se tentar?

— Provavelmente sim. Apesar de que não conseguiria sentir coisas que estão muito longe… Exceto se nos fundirmos, é claro. Devemos ser capazes de reter minha habilidade de sentir a vida nas montanhas. — Gondos explicou para Eiro, que assentiu com a mão no queixo.

— Então, vamos fazer isso mais tarde. Por ora, quero que os Goblins reúnam as Pedras Mágicas brutas para mim.

— Hm? — Armodeus respondeu confuso. — Pedras Mágicas brutas? O que você quer dizer?

— Oh, não te contei. — Eiro perguntou. — Isto é uma mina.

— … Foi o que pensei, eu vi a alta concentração de minérios de ferro quando entramos, mas o que isso tem a ver com Pedras Mágicas?

— Oh, certo, este lugar também tem minério de ferro. Isso pode ser ainda melhor se conseguirmos os Orcs das Terras Altas… Com um ferreiro, este lugar se tornaria autossuficiente com facilidade. — O Demônio murmurou, mas Armodeus estava preocupado com algo diferente.

— Eiro, isto é uma mina de Pedras Mágicas?

— É sim. Foi aqui que consegui a Pedra Mágica de Gravidade. — Eiro explicou e Armodeus o encarou com um olhar penetrante.

— Se está tentando me dizer que a magia aqui é tão concentrada a ponto de gerar Pedras Mágicas de Gravidade e você não me contou que tinha uma, irei te socar.

— … Não acho que seja uma boa ideia, você pode se machucar.

— … me mostra uma dessas Pedras Mágicas de Gravidade. — Armodeus resmungou e Eiro a retirou de sua Tesouraria, jogando-a para o Anão Ancião. De repente, os olhos do artesão começaram a mudar. Parecia como se suas íris de repente começassem a girar em círculos e a pupila ficasse pequena enquanto o olho do Anão começava a brilhar.

Imediatamente após isso acontecer, depois que Armodeus usou sua habilidade de ‘Inspeção’ bem treinada e praticada, o Anão Ancião olhou para Eiro com um suspiro profundo.

— Eu juro, você poderia ter me dito mais cedo e teria facilitado muito as coisas. Não sou Johann, mas ainda sei me virar com Artificação. Se esta é uma mina de Pedras Mágicas… Então, deve haver Pedras Mágicas de Terra e talvez algumas de metal também, além dessas Pedras Mágicas de Gravidade, certo?

— Não acho que eles tenham encontrado nenhuma Pedra Mágica de Metal da última vez que estive aqui, então não contaria com elas. Pelo menos, havia muitas Pedras Mágicas de Terra.

— Sim, deve ser suficiente. — Armodeus disse com um sorriso animado. — Planejamos ficar aqui por mais um dia inteiro, certo?

Compreendendo o porquê de Armodeus perguntar isso, Eiro assentiu.

— Sim, mas não podemos ficar mais do que isso, desculpa.

— Não precisa se desculpar. Só preciso de um dia. Você tem mais Pedras Mágicas de Gravidade? — Ele questionou e o Demônio se virou para os Hobgoblins. Os cinco estavam se atualizando na Linguagem Goblin, então Eiro não a entendeu tudo, mas captou a essência. Bem, ele os entendia, apesar de não saber o significado de algumas das palavras que diziam. Seu Cavaleiro de Ouros interagia com a habilidade Entendimento da Linguagem Goblin, que Eiro já possuía, para permitir que compreendesse o que eles diziam.

— Vocês podem pegar as Pedras Mágicas que reuniram desde que estive aqui da última vez?

Lentamente, Vent se aproximou do Demônio e se ajoelhou.

— Podemos pegar as Pedras Mágicas, sim, Mestre, mas é difícil pegar todas. Kobolds pegaram muitas.

— Eu vi isso. E daí? Pegue de volta. Não são deles. — Eiro suspirou. Vent levantou a cabeça e assentiu com um sorriso. Honestamente, o Diabrete ficou um pouco surpreso de ver Vent dessa forma. Entre todos os goblins que já viu, Vent era de longe o mais atraente, no mínimo pelos padrões humanos. Ele não se importava com coisas como beleza, mas ainda conseguia apreciar a beleza nos outros.

E Vent era tão bonito para padrões Goblin que poderia se passar por um humano. Nem um particularmente feio. Abaixo do comum, mas não repulsivo.

— Nós deixaremos o mestre orgulhoso. — Vent disse com um sorriso amplo enquanto se levantava, acenando para os outros três hobgoblins. Clypt, Glat e Sagit, os outros três Hobgoblins da Montanha ‘Generais’ que estavam ao lado de Gobo há algum tempo enquanto o próprio Gobo se sentou no chão, ainda irritado com a forma como aquela Kitbold, Kitsue, tratou todos na vila.

O Demônio entendia o sentimento dele. Ver pessoas com quem você se importa sendo tratadas dessa forma pode machucar ainda mais do que se você fosse tratado assim. Para ser honesto, Gobo era um líder nato. Ele se conectou aos outros goblins em um nível profundo. Antes que Eiro viesse até esta vila, Gobo confundiu essas emoções com fome ou ganância, fazendo com que começasse aqueles duelos em que o vencedor se alimentava do coração do perdedor, tentando saciar essa fome invejosa de todas as formas possíveis.

Mas, agora, por meio da orientação de Eiro, isso se transformou na compaixão de um líder por aqueles que o seguiam. Não havia como Gobo permitir que seu povo fosse tratado daquela forma por alguém como Kitsue sem motivo.

Eiro sorriu para Gobo, feliz de ver que ele havia começado a pensar desse modo, embora ainda fosse um pouco estranho pensar que um Hobgoblin tão idiota e fraco se tornou um jovem guerreiro tão talentoso. O Diabrete se sentia muito orgulhoso, se tivesse que ser honesto.

Agora que seu humor foi melhorado um pouco de novo, depois que seu encontro com Kitsue o arruinou, Eiro se levantou da laje de pedra em que estava sentado. Ele parou no centro do cômodo e acenou com as mãos ao redor enquanto começava sua prática de magia.

Eiro tentava seu melhor para descobrir como utilizar seu Grimório e tentava criar feitiços com a ajuda dele, usando aspectos peculiares de outros sistemas de magia que Eiro nunca pensou antes. Havia um motivo em particular para isso. Primeiro, não custava nada se aprimorar dessa forma, especialmente se fosse se encontrar com um Dragão de verdade muito em breve.

E segundo… Assim que Eiro voltasse para a cidade, ele massacraria cada membro da Organização, então tinha que aprender novos ataques de longo alcance… Possivelmente os Orcs das Terras Altas poderiam ser bons alvos para praticar.

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