
Volume 4 - Capítulo 308
A Virtude do Demônio
Mais uma vez, em sua segunda tentativa, Eiro se ajoelhou na frente das urnas dos aventureiros mortos com uma pequena esfera negra na sua mão. James estava parado ao lado da parede, observando o Demônio e o que ele fazia.
Eiro pressionou a pedra contra seu peito, permitindo que sua mana fluísse por ela e voltasse ao seu coração para que pudesse espalhar por todo o seu corpo. Assim que a Magia de Morte acertou seu coração, ele sentiu uma leve pontada, como sempre sentia antes que seu corpo enfraquecesse e definhasse devido à infusão extrema com um elemento não natural ao seu corpo, o qual deveria rejeitar. Era bastante doloroso em algumas partes.
De qualquer forma Eiro tinha que se concentrar. Ele conseguiu ver duas nuvens se movendo acima das urnas, os espíritos desses dois aventureiros e estendeu lentamente a mão na direção deles, mas não os tocou dessa vez, como se tentasse ganhar a confiança de um animal ao permitir que o cheirasse, ele tentou fazer com que os espíritos se aproximassem primeiro.
Assim, quando os espíritos pareciam ter prestado atenção a ele, Eiro concentrou um pouco de Magia de Morte na sua garganta, tentando repetir o que fez antes. Porém, dessa vez era muito mais difícil.
Primeiro, era difícil falar quando infundido com esta magia. Sua garganta parecia áspera e seca, mesmo que estivesse hidratada. Coçava tanto que Eiro quase pensou que partes dela estavam se desfazendo em pedaços, além disso, o pouco da sua voz que de fato conseguia vocalizar era muito distorcido e muito desagradável para outros escutarem.
Agora, tinha que fortalecer ainda mais essa parte. O Diabrete infundiu sua voz com Magia de Morte. Normalmente fazia algo parecido com Magia de Vento, para fazer sua voz viajar mais longe e fez isso com Magia de Fogo há não muito tempo para fazer sua voz carregar mais força e até mesmo derreter a neve caindo ao seu redor.
Dessa vez, estava infundindo sua voz com Magia de Morte para que fosse capaz de conversar com a morte. Para isso, fez o mesmo com suas orelhas, tentando focar seus sentidos nos dois espíritos na sua frente enquanto tentava ignorar o resto.
Eiro encarou os dois espíritos sem forma e soltou uma voz mansa, desde que era tudo que conseguia vocalizar no momento.
— Eu lhes peço… que pela morte que causei, me perdoem… — O Demônio disse com um tom genuíno, afinal, estava de fato arrependido pelo que fez. Não se importava de matar outras pessoas se merecessem, mas como foi Eiro quem causara aquela situação, ele não achava que esses dois jovens tinham razões para morrer sob suas mãos.
Através do Cavaleiro de Ouros, o <Domínio Supremo da Verdade>, seus sentimentos genuínos foram apropriadamente transmitidos aqueles ao seu redor. Desse modo, ele não precisava de mais palavras do que já disse.
Os dois espíritos se aproximaram da mão de Eiro, se enrolaram ao redor dela como cobras e massas parecidas com névoas deslizaram pelo braço do Demônio. Como se dois pares de mãos estivessem percorrendo seu corpo, com dedos frios que mal o tocavam, ao ponto de que poderia ter sido uma rajada de vento.
Isso fez Eiro se perguntar com que frequência já havia sentido o toque arrepiante da morte e o confundiu com o vento. De qualquer forma, uma coisa era certa… cada vez que sentia esse toque de novo, uma onda de medo o atravessava. Era o conceito que Eiro mais temia de todos os conceitos que existiam: A morte.
Isso o fez querer se afastar, correr para um lugar onde poderia se sentir seguro disso, mas Eiro não poderia ser tão covarde diante daqueles com quem falhou. Ele respirou fundo e tentou se concentrar enquanto os dois espíritos continuavam a deslizar por seu braço e logo alcançaram o seu torso.
Por alguns momentos, foi como se estivessem procurando ao redor do corpo do Demônio, então fizeram a escolha do que fariam a seguir. Como se essas mãos etéreas ficassem mais fortes, os dois pares de mãos começaram a rasgar o Diabrete.
Um dos aventureiros colocou suas mãos ao redor da garganta de Eiro, tentando estrangulá-lo. O outro tentar rasgar o rosto dele, empurrando seus dedos nas bochechas dele para tentar rasgar a mandíbula. As marcas dessas mãos invisíveis poderiam ser vistas por aqueles ao redor do Demônio e até James ficou um pouco preocupado, embora ele fosse o motivo de Eiro estar fazendo tudo isso, em primeiro lugar.
Independente disso, Eiro tinha que continuar, apesar do toque terrível da morte o percorrendo. Ele sentiu o medo quase dominá-lo uma dúzia de vezes, mas esse era o motivo para ter praticado tanto com esse elemento durante os últimos dias.
— Me… desculpe, mas não posso morrer aqui… — Eiro disse com um tom claro e os dois pares de mãos congelantes pararam. — Sei que é egoísta… fui eu quem causou a morte de vocês e agora… estou pedindo que me perdoem pelo que fiz, mas, por favor, acreditem em mim… Me arrependo profundamente do que fiz a vocês dois… — Eiro disse aos dois espíritos e, devagar, um deles soltou Eiro. Pelo menos, ele afrouxou o aperto em sua garganta.
Entretanto, o outro continuava tentando rasgar como uma faca agressiva. Parecia que suas palavras o irritaram ainda mais. Neste ponto, algo que Eiro não antecipava aconteceu, embora devesse ter mantido isso de antemão. Talvez a Magia de Morte estivesse o confundindo um pouco, ao considerar o quanto foi danificado por ela durante as últimas semanas. Talvez… Ele se tornou convencido e pensou que tudo correria bem.
Mas o espírito ganhou mais força. A figura nebulosa foi fortalecia e se tornou mais concentrada. A princípio, foi as mãos do espírito, mas aos poucos foi se solidificando. Era puro rancor, seu ódio e fúria por Eiro, aquele que o matou, fez com que ele se transformasse em um morto-vivo.
Ele se transformou em um Fantasma Vingativo. Depois das mãos, seus braços ficaram sólidos, revestido por uma camada preta como breu enquanto seu corpo era formado. Isso continuou por um tempo e, com cada pedacinho, o Fantasma ganhou mais força. Ele afundou seus dedos na bochecha do Diabrete, tentando rasgar sua carne, mas mesmo que o corpo de Eiro estivesse enfraquecido, ainda tinha uma Resistência acima de 120. Uma Fantasma recém-nascido nunca conseguiria feri-lo.
Eiro continuou falando enquanto este espírito continuava despejando sua fúria nele. Parecia que o outro foi tocado pelas palavras de Eiro e sua fúria começou a desaparecer.
— Por favor, me perdoe. — Eiro disse com a voz baixa, mas o Fantasma, que se desenvolvia cada vez mais, continuou a tentar feri-lo.
Neste ponto, até James começou a ficar ansioso. Durante esses últimos dias, ele viu o quão duro ele trabalhou para receber o perdão pelo que fez, quão sério ele estava, quão ansioso para fazer isso acontecer. Diferente do que James pensara inicialmente, Eiro não estava fazendo isso pelo Elfo da Luz e sim porque queria se desculpar aos dois que foram envolvidos no que fez.
E havia um motivo para Eiro estar tão sério sobre esses dois em particular. Eles não eram as primeiras pessoas inocentes e não merecedoras que massacrou sem pensar. Ele aniquilou a maioria de uma vila antes.
Embora Eiro não tivesse conseguido se desculpar com eles e muito provavelmente nunca conseguiria, ele ainda podia com esses dois. Eles eram os representantes de todos os inocentes que ele matou no passado. Como se fossem uma forma de ele se redimir por isso.
Embora, isso pudesse não parecer tão genuíno de um homem que não hesitaria em matar qualquer um que ficasse em seu caminho.
Mesmo assim, sem dúvidas, Eiro estava sendo genuíno. Ele estava se desculpando de todo coração e não pararia por causa da fúria deste Fantasma, cujo rosto furioso voltava à existência.
— Por favor, me perdoe. — O Demônio repetiu maus uma vez, encarando os olhos do Fantasma.
— Por favor, me perdoe. — Ele disse, sua voz afundando nas orelhas do Fantasma.
— Por favor, me perdoe. — Mas não importava o quanto Eiro dissesse, o Fantasma se tornava mais bravo. Por um bom tempo, pelo menos, mas ele percebeu que apesar de toda sua ira, sua fúria ardente, este Fantasma era incapaz de matar Eiro como esperava. Durante todo esse tempo, ele escutou às palavras de perdão do Diabrete.
O que ele deveria fazer agora? Continuar tentando matar Eiro? Ou desistir?
O Fantasma do jovem mago virou a cabeça ao sentir um toque suave. Eiro também pôde ver o que era: o espírito do outro aventureiro, tentando conversar com o Fantasma.
Ele começou a conseguir uma forma mais fortalecida.
Suas mãos estavam sendo cobertas por uma camada branca, à medida que a forte personalidade do Fantasma também a ajudava a se transformar em um Morto-Vivo, usando a energia necrótica do seu amigo para fazer isso.
Logo, Eiro viu duas figuras na sua frente. Um jovem com uma forma negra como a tinta e uma jovem mulher com uma forma branca como a neve. A mulher, a espadachim, segurou a mão do mago e junto dele, olhou profundamente nos olhos de Eiro.
E com um sorriso suave no rosto dela e uma carranca amarga e triste no rosto dele, os dois Fantasmas deram sua resposta para Eiro juntos.
— Nós nunca esqueceremos o que você fez conosco, mas, por ora, o perdoaremos por isso.