
Volume 4 - Capítulo 309
A Virtude do Demônio
Os dois Fantasmas permaneceram na frente de Eiro, um cheio de raiva e um cheio de compaixão, mas ambos prontos para perdoá-lo devido à honestidade de suas emoções. Eles haviam ganhado uma nova forma por falar com ele, mas parecia que algo estava estranho. Geralmente fantasmas eram seres incapazes de controlar-se, em sua maioria sendo preenchidos com fortes emoções até o fim.
Talvez por estarem juntos, equilibrando um ao outro com emoções boas ou positivas, parecia que eles conseguiam pensar normalmente, como se ainda estivessem vivos. Por exemplo: o Fantasma Vingativo que tentou matar Eiro há alguns instantes, agora não estava mais tão incomodado.
E, devido ao fato de que não tinha emoções fortes, suas formas que mal se mantinham juntas em primeiro lugar estavam se desfazendo.
— Obrigado. — Eiro disse baixinho e olhou de volta para as faces deles. — Agora que temos essa chance de conversar… se desejarem existir depois disso, tenho uma ideia que gostaria de explicar para vocês.
Os dois Fantasmas olharam um para o outro por um instante e voltaram sua atenção para Eiro em silêncio, mas suas expressões mostravam interesse.
— Não posso trazê-los de volta à vida, pelo menos não ainda, mas posso transformá-los em Mortos-Vivos que podem reter o ego de vocês apropriadamente. Assim que eu conseguir a habilidade de revivê-los, farei isso de imediato.
Parecia que os dois fantasmas ficaram bastante surpresos de ouvir tal oferta. Eles se entreolharam de novo e falaram entre si por um instante, embora Eiro não fosse capaz de escutar o que eles diziam, mas, logo, eles se viraram de novo para Eiro e falaram com ele.
— Ainda temos assuntos inacabados… — O garoto comentou e a garota ao lado dele acenou com a cabeça.
— Então, se você puder… Ainda não gostaríamos de desaparecer.
Eiro assentiu e começou a trabalhar. Em vez de se concentrar em sua garganta e com isso na sua voz, agora ele moveu a Magia de Morte para sua mão direita. Já que era praticamente um cajado, ela seria fortalecida e o Demônio esperava conseguir controlá-la adequada.
Devagar, ele segurou as mãos dos dois fantasmas desaparecendo e se certificou de colocar a outra mão sobre eles para que pudesse segurá-los o mais forte possível. Depois disso, Eiro inseriu o máximo de Magia de Morte neles possível, o que fez com que suas formas ficassem estáveis por mais um tempo, suficiente para que Eiro fizesse o que tinha que fazer.
Como era possível usar Pedras Mágicas para conjurar feitiços para os quais você ainda não tinha a habilidade, já que te dava acesso à magia desse elemento específico, Eiro também conseguiu preencher seu Grimório com alguns feitiços necromânticos após deixar que Magia de Morte fluísse pelo seu corpo e então no livro especial. Com o máximo de esforço possível e alguns livros proibidos de necromancia que Solomon conseguiu para Eiro, o Demônio conseguiu compor um feitiço no qual era possível transformar um espírito em um Morto-Vivo permanente, apesar de não possuir a habilidade de Magia de Morte.
O Diabrete abriu o livro na página certa e começou a mover suas mãos ao redor, primeiro na frente do garoto e depois na frente da garota. Na verdade, desenhar o feitiço demorou um pouco mais do que Eiro esperava, apesar do fato de ter um Grimório acelerando o processo. Ainda eram círculos mágicos complexos, então era óbvio que necessitariam de algum tempo para serem criados.
Parecia que o garoto, que era um mago quando ainda era vivo, percebeu que Eiro estava criando algo assim desse tipo com uma velocidade incrível e observou com admiração, suprimindo sua raiva por alguns instantes.
Eiro terminou os feitiços, ativando-os simultaneamente, embora ainda houvesse algo que devesse avisar aos dois Fantasmas.
— … Ah, mesmo que vocês se transformem em algo que seja um pouco vergonhoso, por favor, tenham paciência. Explicarei a razão depois. — Eiro comentou e, apesar de os dois Fantasmas aparecerem um pouco hesitantes, Eiro ativou o feitiço antes que pudessem pensar sobre isso.
A magia de morte dentro do corpo do demônio fluiu para o feitiço e, em seguida, para as formas temporárias dos fantasmas. De uma forma que poderia parecer um pouco macabra para outros, os corpos dos Fantasmas encolheram e se comprimiram em dois orbes de vidro liso do tamanho de punhos, um branco e um preto, que logo caíram no chão.
Eiro os segurou, desde que provavelmente ainda eram incapazes de controlar seus novos ‘corpos’, mas por enquanto estava tudo bem. Eiro não esperava nada diferente. Por agora, ele se livrou da Magia de Morte que infundiu em seu próprio corpo, caso contrário começaria a danificá-lo logo.
Mas, assim que fez isso, James olhou para Eiro com um sorriso irônico.
— V-Você… Você os enganou ou algo do tipo, certo? O que você fez com eles?
— Hum? — Eiro questionou enquanto se virava confuso para o Elfo da Luz. — Oh, eu os transformei em Fogo-Fátuo.
— Fogos-fátuos…? Mas esses não são o tipo mais fraco de Mortos-Vivos que existem…? — James questionou e o Demônio ao lado dele assentiu de imediato.
— Isso mesmo, o que você esperava? Eu nem possuo a habilidade ainda, fiz o melhor que pude. Aliás, eles são Fogos-Fátuos Variantes, então são muito mais for- — De repente, Eiro foi interrompido por uma onda de eletricidade que fluiu em seu braço pelo Orbe Negro que segurava. — Poderia pelo menos me deixar terminar…? Como pode ver, eles não são fogos-fátuos normais. Esses seriam mais como uma névoa, mas, neste caso, são sólidos. Isso permite que retenham seu ego, ao mesmo tempo que são muito mais fortes em comparação ao que Fogos-Fátuos deveriam ser, além disso, dessa forma será mais fácil dar a eles corpos temporários até que eu consiga revivê-los. — Eiro explicou enquanto a onda de eletricidade em seu braço direito continuava, embora conseguisse ignorá-la muito bem.
— Como você planeja dar a eles um corpo temporário? — James questionou, já que não estava compreendendo o plano do Demônio, que olhou para as duas urnas.
— Irei fundir as cinzas deles com algumas sementes de árvores fortes e pedirei que esses dois as nutram com sua mana. É o mesmo que estou fazendo com você e Charles, mas, em vez de substituir um membro ou dois… Criarei novos corpos para eles e tentarei colocá-los no centro desses corpos. Fogos-fátuos podem possuir objetos, então estou bastante confiante de que isso funcionará muito bem se eu fizer tudo correto e aprimorar minha necromancia até lá.
James encarou Eiro com seus olhos arregalados.
— Você quer dar para eles corpos feitos completamente de madeira? Isso não seria ainda mais torturante do que agora?
— Por que seria? Com esses corpos em algum momento eles serão capazes de sentir as coisas. Eles conseguirão enxergar, escutar, tocar, cheirar e talvez até mesmo degustar. Eles serão capazes de sentir o ar frio em suas peles. Você sabe tão bem quanto eu que consigo fazer esculturas realistas… Não se preocupe, o objetivo das artes que Jura me ensinou é quase como criar vida. Eu posso fazer isso, posso compensá-los. Então, em algum ponto, darei a eles corpos que respiram e estão vivos.
— Você acha que isso está tudo bem…? — James perguntou com um leve suspiro, olhando para os dois orbes que Eiro ainda segurava em suas mãos, um deles começando a brilhar de repente.
— Acho que parece uma ótima ideia! — A garota no orbe branco exclamou e, alguns segundos depois, o garoto no orbe negro também falou.
— Contanto que eu possa chutar a bunda desse demônio logo, não me importo.
— Hm, claro, te deixo dar alguns chutes se quiser. — Eiro respondeu sem rodeios.
— … Isso deveria ser uma piada, sabia? — O garoto apontou. — Mas, sério, ‘vergonhoso’ foi um eufemismo, não foi? Nós somos… orbes de vidro que não podem fazer nada além de flutuar…
— Bem, isso não está certo, vocês conseguem fazer muito mais do que isso, mas testaremos mais tarde, por ora, só quero dizer que estou grato por tudo ter dado certo. Falar não parece ser um problema para vocês dois, mas vocês conseguem enxergar ao redor? Além disso, tentem flutuar um pouco assim que conseguirem, segurarei vocês caso algo dê errado.
O orbe branco pareceu pensar sobre a pergunta por alguns instantes e a garota logo respondeu.
— É estranho… não consigo ver nada, mas é como se estivesse ciente de tudo o que há a alguns passos de mim… eu acho? — Ela explicou e Eiro assentiu a cabeça.
— Entendo, é bom saber disso.
— Espera… Como esses dois já são capazes de falar? E por que você está… bem com o que acabou de acontecer com você? Este cara acabou de tentar te matar, sabia? — James comentou com um sorriso e o garoto no orbe negro zombou em resposta.
— Oh, eu sei disso. Não estou dizendo que gosto dessa forma, mas é melhor do que estar ‘morto’, sabe? E eu odeio esse babaca, mas ele se desculpou, então não me sinto mais tão bravo.
— … Isso é muito estranho. — James ressaltou e Eiro olhou para ele.
— É mesmo?
James acenou a cabeça sem pestanejar em resposta. Eiro continuou olhando para ele por mais alguns segundos, desde que havia mais um assunto que os dois precisavam conversar. E James percebeu o que era, portanto olhou de volta para os dois orbes que conversavam entre si com suas novas vozes estranhas e ecoantes.
— Tudo bem, acho que continuarei no grupo, então.
— Espero que sim… Obrigado.