A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 306

A Virtude do Demônio

— Isso realmente é um Grimório? — Armodeus perguntou com uma leve carranca enquanto encarava este livreto. — Nunca vi algo parecido com isso. Não apenas este livro melhora, à medida que mais magia é infundida nele, mas também pode escrever informações por conta própria. Como… isso é possível?

— Gostaria de dar uma olhada? Me sinto meio mal, desde que ele transformou o Grimório do seu amigo em um livro comum. — Eiro explicou e o Rei dos Artesãos olhou para ele, confuso.

— Oi…? — Ele fez o quê…? — O Anão Ancião perguntou e Nelli explicou o que aconteceu.

— Este pequeno Livro absorveu toda a magia dentro do Grimório de Archimedes e não parece que ele pode mais ser utilizado.

Armodeus abriu o livro e folheou suas páginas, tentando descobrir o que ocorreu, mas, de alguma forma, as páginas do livro estavam frágeis, desfazendo-se um pouco ao toque. As páginas de um grimório adequado e de alto nível eram capazes de se defender de cortes de espadas. Armodeus sabia que esse era o caso com este em particular, considerando que foi ele quem criou os aspectos físicos dele.

A base foi criada por ele e Archimedes foi quem o transformou em um grimório. Armodeus encarou os pequenos pedaços de papel que haviam caído no chão com um sorriso. — Como isso é possível? Que tipo de livro é esse?

— … Não sei. — Eiro admitiu. — É como se ele pudesse roubar a magia e torná-la sua. Não tenho ideia do que este livro é, mas, de qualquer modo, é algum tipo de artefato, não é?

— Um artefato? Algo além de uma carta… Eles não foram-

— Em sua maioria, destruídos? Sim, eu sei, mas acho que este livro pode ser uma exceção… Terei que falar com o velho da livraria onde comprei este livro para descobrir de onde ele veio, mas, antes disso, talvez você possa descobrir todas as suas propriedades físicas? Como os materiais e coisas do tipo, talvez eles sejam partes do motivo pelo qual isso funciona dessa forma.

Eiro entregou o livro para Armodeus, que assentiu.

— Sim… farei meu melhor. — Ele admitiu, mas recuou no instante em que segurou o livro, como se tivesse levado um choque.

— Urgh, não poderia ter me dito que já tinha se vinculado a ele? Minhas mãos ficarão doloridas neste ritmo. — O Anão Ancião comentou. Eiro não compreendeu o que isso significava, mas, por sorte, Nelli explicou.

— Certo… ‘Vincular’ é algo que a maioria das pessoas não conhece, mas, para aqueles que conseguem fazê-lo, é algo muito trivial. Portanto, duvido que encontrará muitas informações escritas sobre isso. É algo semelhante ao nosso contrato, ou como Lugo é o seu familiar. Normalmente isso só pode ser feito com itens mágicos poderosos, daí o motivo de ser possível com este livro, se ele for um grimório. Só você pode usar o efeito mágico dele agora e, se fortalecer seu Vínculo com ele, deve ser capaz de invocá-lo de onde quiser. ‘Vínculo’ é uma espécie de termo genérico, já que vínculos podem agir de muitas formas diferentes. Na maioria das vezes, dois vínculos com o mesmo efeito podem ter naturezas diferentes, então é difícil defini-los.

Eiro escutou a explicação de Nelli e assentiu. Isso fazia sentido. Ele conseguia sentir algum tipo de conexão vaga entre ele e o livro, embora não fosse capaz de ver algum fio os conectando, como conseguiu com Nelli, Gondos, Sarius e Lugo.

— Bom, isso parece muito útil. Algum tipo de proteção para meus itens parece algo que só pode ser positivo, na verdade. — Eiro comentou e Armodeus olhou para ele enquanto abria o livro para inspecionar suas páginas adequadamente.

— Claro, mas você já não consegue armazená-lo dentro de você sempre que desejar? — O Anão Ancião perguntou. Eiro deu de ombros enquanto olhava para Armodeus, que suspirou. — Certo, inspecionarei ele um pouco mais e depois te digo o que descobri. — Ele explicou.

Eiro assentiu enquanto encarava o livro que acabou de receber de Armodeus. Ele costumava ser um grimório há alguns minutos, mas, agora, não era nada além de um simples livro sem muitos usos além de transferir a informação para aqueles que se importavam o suficiente.

Eiro olhou todas as páginas do grimório original, tentando recordar as páginas do novo grimório que Eiro havia folheado mais cedo. Pelo que conseguia dizer, dos aspectos puramente físicos, ou seja, as escritas e esboços que havia neste livro, foram copiados quase perfeitamente.

Agora que terminara isso, Eiro se perguntou sobre algo mais. Quando infundiu Magia de vento no livro há alguns minutos, parecia que o livro aceitou sua magia. O Grimório mudou de forma sutil e ganhou mais uma página.

A página que estava relacionada ao que o próprio Eiro já sabia e ele conseguiu chegar a algum tipo de conclusão que parecia ter sentido.

‘Hm, pode ser que ele continue a copiar meu próprio conhecimento para colocá-lo neste livro.’

Era verdade que a magia que foi infundida nele parecia bastante semelhante à magia que Eiro viu devastando tudo lá fora por alguns dias. Era parecida por estar relacionada ao conhecimento, já que o objetivo de Eiro era infundir esse grimório para fazê-lo crescer cada vez melhor.

Se esse grimório acabasse se tornando uma arma poderosa para quem o usasse e aprimorasse o conhecimento de todos que o tinham, então era óbvio que Eiro queria ser aquele a portar esse item.

Assim, para ver o que aconteceria, Eiro prosseguiu infundindo cada vez mais magia de vento neste grimório, pois era uma das coisas mais fáceis de se obter no momento, além de fogo, mas, ao considerar a natureza bruta do item que o Demônio segurava, um livro com páginas de papel relativamente finas, ele não queria arriscar queimar o grimório por falta de atenção.

Usar magia de vento era fácil e rápido e quanto mais ar ele infundia, mais o livro mudava. Suas cores se tornaram cada vez mais vibrantes e algumas das rachaduras que surgiram em sua superfície ao longo dos anos estavam se fechando, como se o tempo deste objeto estivesse sendo revertido. O grimório havia passado ano após ano apodrecendo na posse de outros que não apreciavam seu valor.

E dentro do grimório, Eiro conseguiu ver algo que o surpreendeu bastante, embora já devesse ter esperado isso. Nas páginas perto do fim, vários esboços para diferentes feitiços foram desenhados. Alguns deles eram círculos mágicos comuns, outros eram aspectos falados de feitios que deviam ser usados em conjunto com aquela magia. Alguns deles até tinham uma cadência ou padrão específico escrito sobre ele, com o qual se devia ter cuidado em quando estivesse conjurando o feitiço. Sem tais coisas, mesmo que fossem detalhes, se não prestasse atenção a esses ‘detalhes’, um feitiço poderia dar errado porque foi ‘mal interpretado’ durante sua conjuração, ou o feitiço seria muito enfraquecido.

Como havia vários casos em que as pessoas morreram por meios mágicos, mesmo quando cometiam um erro tão pequeno como esse, Eiro de fato tinha que ser o mais cuidadoso possível. Mesmo em sua vida cotidiana, muitos magos tinham que ter cuidado. Suas vozes eram um dos seus aspectos físicos mais importantes, já que eram necessárias para conjurar muitos feitiços de alto nível.

Bastante curioso, Eiro folheou as páginas, embora logo tenha percebido que não havia nenhum tipo novo de informação dentre deste livro. Na verdade, já sabia da maioria.

Bem, foi isso que pensou a princípio, mas, em algum momento, Eiro notou uma pequena peculiaridade para um feitiço específico perto do fim da seção de Magia de Vento do grimório.

O feitiço havia sido alterado de uma forma que parecia benéfica, mas essa não era uma alteração que ele tentou causar por conta própria. Foi como se tivesse acontecido quando infundiu sua magia no livro. Como se o grimório utilizasse seu próprio conhecimento para arrumar ou melhorar alguns dos feitiços.

Esse feitiço alterado teve sua eficácia e força aprimorados. Esse era um dos feitiços que Eiro conhecia, que eram ‘feitiços de exemplo’, os quais Eiro não se importava de usar em primeiro lugar. Desse modo, fazia sentido que eles pudessem ser aprimorados.

Como Eiro nunca o utilizou em batalha, não sentiu a menor necessidade de aprimorá-lo ou mudar partes sobre ele no calor do momento para se adequar à situação. Portanto, a variação do feitiço que estava no livro parecia bastante antiga e ainda continha muitas partes que poderiam ser consertadas, motivo pelo qual o grimório realizou essa tarefa com facilidade.

— Mas isso é incrível… — Eiro murmurou, enquanto levantava a cabeça para Armodeus. Ele tentava descobrir quais eram os materiais exatos utilizados neste livro, desde que não pareciam comuns, mas, não importava o que fazia, o Anão Ancião parecia sofrer com essa tarefa.

Em grande parte, isso parecia ocorrer devido ao fato de que ele nunca viu esses materiais. Ele conhecia alguns parecidos, mas demoraria um tempo para que analisasse os efeitos dos materiais do grimório através das vagas lembranças que se recordava de momentos em que utilizou materiais assim.

Mas uma coisa era certa… Considerando o fato de que Armodeus tinha dificuldade em descobrir isso, em primeiro lugar, significava que esses materiais eram muito anormais.

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