A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 304

A Virtude do Demônio

— Eu só ouvi rumores sobre isso, nunca vi por conta própria, nenhum dragão em geral. Vi coisas familiares, mas pode apostar que eu me gabaria por ter um Dragão de verdade! — Armodeus exclamou e Eiro olhou para ele com um leve sorriso.

— Pois, só vi ilustrações ou variações inferiores de dragões. Como Dragões Terrestres e acho que já vi um Wyvern antes. — O Demônio comentou. Armodeus olhou para ele com um pouco de surpresa.

— Um Wyvern? Quando você viu um deles? — Com uma expressão curiosa, o Anão Ancião encarou Eiro, mas ele olhou de volta com um sorriso.

— Eu não sei… Todas as memórias diretas que tenho na minha cabeça agora são sem importância, aquelas nas quais eu nunca pensaria, por isso elas ficaram para trás.

— Bom, pelo menos eram boas o suficiente para manter sua personalidade intacta, certo?

— … Me pergunto sobre isso. Não sei se eu era diferente disso. Eu sei que agora, tudo parece meio… nublado, eu acho. — O Demônio comentou. — Sei que deveria me importar em conseguir minhas memórias de volta e me importo em alguma extensão, mas ao mesmo tempo parece tão… desnecessário. Se minhas memórias não mudarem nada? As crianças estão felizes e isso me deixa feliz, mais feliz do que qualquer coisa que possa pensar, pelo menos. Como eu posso saber que as memórias que recuperarei são realmente mais valiosas do que o tempo que irei desperdiçar enquanto estiver fora?

O Anão Ancião soltou um suspiro profundo.

— Rapaz, você sabe a expectativa de vida normal de um Anão?

— … Acho que talvez 150? Mas podem chegar até 200 anos, certo?

— Sim, isso mesmo, mas eu? Estou com quase 400 anos. Em algum ponto, a única coisa que você terá dos seus entes queridos são memórias, especialmente ao considerar que eu duvido que sua expectativa de vida seja próxima da de suas crianças… Se você não morrer em uma luta, viverá mais do que elas. Esse é um conceito horrível, eu sei, mas, quando a hora chegar, você apreciará qualquer tipo de memória que você puder conseguir. Sete anos de memórias são um tesouro se comparados com algumas semanas, não acha?

— Você tem um ponto. — Eiro respondeu. — Confiarei em você sobre isso, então. Você tem mais experiência do que eu.

— … Uhum. Eiro, pelo jeito que você estava falando agora há pouco… Você é como o filho de um dos meus amigos mais próximos, é como família para mim, mesmo que eu discorde de algumas coisas que fez no passado. Se precisar de um ombro amigo para segurar, sabe onde me encontrar.

O demônio parou, olhou para Armodeus e sorriu.

— Claro que sim, obrigado. Agora, deixe-me desbloquear esta porta em um segundo… — Eiro virou a cabeça em direção à prateleira na sua frente e, embora tenha esquecido deste ponto, conseguiu descobrir como abri-la sem nem mesmo se fundir com um dos Espíritos para ver a magia que escondia essa porta.

Ele a abriu e ambos entraram. O Anão Ancião se aproximou e olhou para a Grandeza empalhada com brilho nos olhos. Ele desceu os degraus e se aproximou da caixa de vidro que mantinha a Grandeza, olhando para ela animado.

Mas foi neste instante que Eiro notou algo acontecer com a expressão de Armodeus enquanto via o reflexo de um dos itens mágicos alinhados na parede deste andar inferior, que na verdade servia como um expositor de troféus. Armodeus ficou distraído e desviou sua atenção daquela visão rara que tanto o empolgara até poucos momentos.

Ele se aproximou do armário que havia ali, olhando para os diferentes itens dentro. Armodeus abriu o armário e esticou a mão em direção a um dos itens. Era um pequeno ovo mecânico decorativo, pelo que Eiro lembrava. Ele sabia que algo deveria acontecer quando ativado com uma frase-chave específica, então era fácil deduzir pelas próprias peças, mas como Eiro não entendia muito da Artificação, era bastante difícil compreender o que aconteceria exatamente. Como não queria quebrar algo que poderia ser perigoso, decidiu que deveria esperar até que ele aprendesse a Habilidade Artificação.

— O terceiro olho de uma cobra, a última pétala do lírio-aranha… — Armodeus sussurrou enquanto girava o ovo, como se tentasse soltar uma parte dele.

Assim que fez isso, o ovo mecânico explodiu em fragmentos, os quais caíram no chão. A princípio, parecia que o pequeno item foi quebrado, mas esse não era o caso.

Antes mesmo que todas essas partes acertassem o chão, Eiro notou que algumas estavam formando algo, uma imagem no chão. Um círculo mágico.

Quando ele foi formado apropriadamente, começou a brilhar e a luz da ativação do feitiço se tornou cada vez mais brilhante, tanto que Eiro quase ficou cego. Claro, com seus sentidos, isso não era tão difícil, mas considerando o quanto Eiro havia praticado para não permitir que seus sentidos o sobrecarregassem desde que recebeu essa habilidade, seria um pouco vergonhoso se ele fosse cegado por algo assim.

Ao mesmo tempo, isso alavancou a força do feitiço. Foi como se um pilar de luz fosse criado e parasse repentinamente a uma altura de dois metros.

Muito ansioso, Eiro se adiantou, mas Armodeus esticou sua mão na luz cegante. De alguma forma, Eiro não conseguia sentir o que estava dentro deste pilar de luz. Absolutamente nada, era como se o som fosse envolvido por ele, como se fosse uma ausência de espaço.

Era um sentimento com o qual Eiro estava bastante familiarizado, considerando que sentia isso sempre que estava nesta mansão. Era Choromacia, magia poderosa do elemento espaço. Embora esta fosse uma sensação diferente de todas as salas secretas.

Na verdade, era mais parecida com a sensação que Eiro sentia em sua bolsa, considerando que também era um item com uma função de magia espacial devido à bolsa espacial que o próprio Armodeus integrou nela.

O Anão Ancião retirou sua mão, segurando um livro grosso de couro. Ele era decorado de uma forma que era tanto sutil quanto intensa. Ele se destacaria entre livros comuns, mas, quando visto entre outros de mesmo tipo, pareceria bastante discreto. Como se conseguisse se misturar entre eles, pelo menos.

— É dele… — Armodeus murmurou e, neste ponto, Eiro suspirou fundo.

— Certo, deixe-me adivinhar, você conhece o antigo dono desta casa, mas não esperava encontrar todas essas coisas aqui?

— … Pode-se dizer isso. Estava incerto se era ele ou não. Claro, Choromantes são raros, mas ainda existem uma dúzia deles no mundo que são poderosos o suficiente para criar algo deste tipo. Como não o vi por talvez… cinquenta anos, não podia ter certeza de que era ele, mas, agora, tenho certeza… Esta era a mansão de Archimedes, um mestre em sua arte. Literalmente. Um dos poucos magos que conseguiu elevar uma habilidade mágica ao grau de mestre, embora tenha a escondido de muitos… Ele não queria receber o título de ‘Arquimago’ desde que era ‘problemático’, segundo ele. Ele queria continuar sua pesquisa, brincar por aí e viver uma vida cheia de aventura. Bem, ele conseguiu isso…

Com uma risada no rosto, Armodeus se virou e olhou para o Grandeza empalhado no centro da sala, olhando de volta para o livro que agora segurava enquanto o pilar de luz desaparecia e os fragmentos de metal se transformavam de volta em duas metades do ovo mecânico.

Armodeus se agachou e segurou essas duas metades, juntando-as de novo, arremessando o ovo para Eiro sem muita hesitação.

— Esse é um item útil. Eu fiz as partes e Archimedes e Johann colaboraram na criação do sistema. Eu deveria saber, estas portas cheiravam àquele bastardo quase imortal. — Armodeus sorriu e começou a explicar a situação para Eiro, antes mesmo que ele perguntasse, cheio de nostalgia. — Quero dizer, a maioria de nós se aventurou na Artificação. Até mesmo Jura naquela época. Johann era o melhor de nós, como havia masterizado esta habilidade, mas Archimedes também não era ruim, afinal, ele foi ensinado por Johann em primeiro lugar e sempre teve uma forma bastante peculiar de lidar com isso.

— Hm… Eles parecem um pouco diferentes dos poucos itens artificiais que vi, eu acho? — Eiro comentou e Armodeus assentiu.

— Sim! Johann nunca se importou com sua própria vida, já que era quase impossível para ele perdê-la em primeiro lugar, então ele podia se dar ao luxo de tomar muitos atalhos em seu trabalho que o ajudaram a longo prazo. Era como se ele tivesse ultrapassado um grande obstáculo no campo da Artificação, que só poderia ser alcançado colocando você e todos ao seu redor em imenso perigo! Mas, depois daquele obstáculo em sua pesquisa, era como se seu trabalho estivesse ainda mais estável do que normalmente deveria ser! É um pouco caótico, mas você sabe como é, afinal, estudou sob a tutela de Jura.

Eiro sorriu enquanto escutava o que o Anão Ancião ao seu lado tinha a dizer. Ele olhou para o ovo mecânico que se recordava de inspecionar tantas vezes antes, mas nunca esperou que ele tivesse esse tipo de poder.

— Hm, tenho quase certeza de que todos nós já tivemos esse tipo de item para proteger algo importante para nós. — Armodeus apontou. — Para mim era uma lembrança do meu antigo mestre, para Archimedes era seu Grimório, e… espera, não, na verdade acho que Jura nunca o utilizou. Ele não era do tipo que mantinha coisas por motivos sentimentais, de qualquer forma.

Eiro escutou, mas estava mais fixado em um detalhe. O que Armodeus acabou de dizer… O livro que ele segurava era o Grimório de um Choromante.

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