A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 303

A Virtude do Demônio

Eiro explicou tudo o que recordava para Armodeus, embora brevemente. O Demônio não se recordava o suficiente para detalhar em primeiro lugar, mas contar a ele o que aconteceu foi suficiente.

Suficiente para fazer o Anão Ancião congelar em descrença. Depois que Eiro olhou para ele por mais alguns segundos e começou a ficar um pouco preocupado, Armodeus abriu a boca devagar.

— Um demônio… Com quatro cartas do Arcano Menor… Uma carta do Arcano Maior… Três Espíritos, em breve quatro, três bênçãos, uma Habilidade Lendária e a porra de um Portal Espiritual que absorveu…? Oi, acho que você é louco… — Armodeus disse com um sorriso, como se de repente tivesse ficado preso assim.

— Se você diz dessa forma, tudo parece ridículo. Um Anão com uma Carta do Arcano Menor, que subiu ao auge do artesanato e teve uma expectativa de vida muito maior do que um Anão comum viveria, permitindo que a tão rara evolução racial das pessoas se concretizasse, transformando-se em um Ancião. Coroado Rei de todos os artesãos para que pudesse rivalizar com o poder dos verdadeiros imperadores. Rumores dizem ter feito armas para heróis, armas tão poderosas que nem eles conseguiram masterizá-las. — Eiro disse com um tom sem emoção, enquanto se levantava da cadeira em que estava sentado. — Como isso é mais lógico do que a minha existência? — Eiro perguntou e Armodeus não pôde deixar de olhar surpreso para o Demônio.

— Se você diz isso assim… — O Anão Ancião respondeu, coçando sua bochecha. — A propósito, não é uma evolução, sabia? É como-

— Seu corpo aumenta de tamanho, suas capacidades físicas são muito aprimoradas e sua expectativa de vida aumentou igual. Diga-me, como isso é diferente de uma evolução? — Eiro questionou e Armodeus estreitou os olhos enquanto olhava para suas mãos.

— Você está certo… não é muito diferente… — O Anão comentou, embora, neste instante, Arc também tivesse algo a dizer.

— Certo, ignorando toda essa merda ridícula, como sempre, que nosso pai acabou de nos revelar, que porra é essa de evolução? Quer dizer que sua raça avançou de alguma forma?

— Hm? Sim, ela avançou. — Armodeus disse sem pestanejar. — Ah, mas isso não é algo que a maioria das pessoas pode conseguir. Uma em um milhão, talvez. Você precisa ser reconhecido por um ser superior para isso.

Eiro levantou as sobrancelhas enquanto olhava para o Anão Ancião, que o encarou de volta.

— Sim, sim, já entendi. A condição mais baixa é ter uma habilidade no grau mestre, algo que também é raro o suficiente, além disso você precisa se provar de formas variadas… no meu caso, foi… — Armodeus começou, percebendo quão ridícula a declaração que estava para fazer soava e sua voz se tornou lenta mais baixa. — … que um ser superior gostou de algo que fiz e, em troca, ele patrocinou minha… ‘Evolução’… — O Anão Ancião explicou e Ac olhou para sua katana e wakizashi deitadas na mesa uma em cima da outra.

— Como diabos nós conseguimos pôr as mãos em algo feito por você…? — O jovem questionou com um sorriso . — Uma arma de Grau Mestre não seria um tesouro nacional ou algo do tipo…?

— Sim, mal essas não são armas de grau mestre. Se eu tivesse usado ossos de dragões, talvez, ou materiais de monstros supremos… A peça que me trouxe até aqui foi um martelo de guerra feito de um pedaço de uma das últimas Tartarugas da Montanha.

— Tartarugas da Montanha? Isso é tão legal! — Arc exclamou.

— Você já ouviu falar delas?

— Não! — O jovem respondeu sem hesitar. — Mas, deixe-me adivinhar, elas são tartarugas gigantes, do tamanho de montanhas, certo?

— … Isso.

— Viu? Isso é legal! Eiro, você acha que podemos ver uma dessas?

Eiro olhou para Arc e deu de ombros.

— Provável. Ouvi falar que esses ‘Monstros Supremos’ que Armodeus mencionou são como protetores de certos lugares especiais. Como o monstro no lago na ilha voadora… — Eiro comentou. — Como era chamado? O Deus do Lago? Não me recordo.

— Ah… — Solomon respondeu surpreso. — Você teve a chance de ver esse lugar? Só consegui viajar para lá um pouco antes do incidente.

— Incidente? Que incidente? — Sammy perguntou um pouco surpresa e Eiro olhou para ela enquanto coçava a parte de trás da sua cabeça. Ele não estava certo, mas conseguiu conectar os pontos com o que ainda sabia e os diferentes livros que leu durante os últimos dias.

— Bem, uma certa horda de monstros controlada pelo Rei dos Monstros atacou a cidade na ilha voadora e há alguns anos ela foi designada como uma das Fortalezas do Rei dos Monstros. Na verdade, acho que <O Sol> a lidera esses dias.

— Uhum. — James disse encarando Eiro, que olhou de volta para ele com uma carranca.

— Ei, não me olhe assim. Sabe que não fui parte daquele ataque. Aliás, mesmo que seja difícil para mim me recordar daquela época, pareço me recordar de que foi você quem sugeriu que continuássemos nos movendo em vez de voltar e ajudar.

O Elfo da Luz suspirou em resposta.

— Sim, porque vimos aquela chama gigante de <O Sol> que vinha da cidade, pronto para obliterá-la. O que você esperava que eu fizesse?

— Então, que olhar foi esse agora? Tenho bastante certeza de que não era nem nível 10 naquela época. Um Diabrete Inferior com nível em um dígito singular e minha habilidade de nível mais alto era ‘Entendimento de Linguagem’. Eu mal conseguia ler naquela época. — Eiro respondeu.

— Eu sei, você teria morrido ainda mais rápido, mas, em retrospecto, me pergunto por que você teve que ser forçado a entrar na ilha por conta do Deus do Lago, enquanto todos aqueles monstros entraram sem problema.

— O que está tentando dizer?

— Que talvez fosse um pouco conveniente que eles estivessem viajando pelo mesmo caminho que nós.

— Isso porque eles tinham o mesmo destino que nós. — Eiro quase rosnou, sua fúria se intensificando. James o encarou.

— Um destino que eles chegaram algumas horas depois de nós, por algum motivo.

— Pela Dama do Inverno, está tentando insinuar que eu criei um portal para eles viajarem, quando quase morri alguns dias depois por circular minha própria mana?

Ao escutar que a briga entre os dois estava ficando mais intensa do que qualquer um deles parecia querer, Solomon escolheu intervir.

— Vocês, parem com isso agora! Que vergonha da parte de vocês brigarem assim na frente das crianças! — Ele exclamou. — Compreendo que deve ter sido uma experiência traumática para vocês dois, mas não há razão para brigar por isso.

Eiro e James se olharam por alguns momentos. Armodeus interrompeu.

— P-Pensar que você era parte daquela horda de monstros em particular… Que coincidência…

Como se essa palavra fosse algum tipo de dica, tanto Rudy quanto Clementine abriram a boca para falar ao mesmo tempo. Eles se olharam por um instante, mas Clementine decidiu dar a oportunidade para Rudy falar primeiro.

— Falando em coincidência… É uma coincidência que aqueles monstros sejam chamados de ‘Monstros Supremos’ e Eiro tenha a Habilidade Lendária <Demônio Supremo>?

— Ah, foi isso que eu pensei também! — Clementine exclamou. — Pensei que era um pouco estranho…

Imediatamente todos encararam Eiro, e o Diabrete respirou fundo.

— Vocês só perceberam agora…? Sim, é a mesma coisa. Aqueles não são monstros únicos, são monstros lendários, também chamados de ‘monstros supremos’, mas não se preocupem, já estou preparando algumas precauções para quando isso acontecer. Bavet está me ensinando mais sobre Artes de Selamento para que eu possa selar minha aura depois de evoluir.

— Isso não significaria que você conseguiria tatuagens, como Leon e eu tínhamos? — Sammy perguntou, mas Eiro balançou a cabeça.

— Claro que não. Isso é necessário para selar uma habilidade. A aura que alguém emite pode ser selada com algumas formações. Isso pode me enfraquecer, mas acho que, neste ponto, isso não será um problema… Quando chegar o momento em que eu precisar lutar com minha Aura liberada, acho que haverá outros problemas além de alguns animais e monstros fugindo.

— Como você pode falar isso tão casualmente…? — Armodeus perguntou e Eiro virou a cabeça para ele.

— Você quer começar isso de novo?

— Não vamos… — O Anão Ancião respondeu. Por alguns instantes ficou em silêncio, como se mais ninguém tivesse algo a dizer. Havia muitas coisas que deveriam ser ditas, mas esses tipos de conversas eram sempre muito sufocantes.

Pensando que esse era um bom momento, Eiro caminhou até a porta.

— Armodeus, venha comigo por um tempo. Acho que devemos conversar em particular sobre… você sabe o que. Também há algumas coisas que quero mostrar a você. — O Demônio comentou e Armodeus suspirou fundo.

— Rapaz, acabei de chegar e depois desse tipo de conversa…

— Que pena, então você não quer ver a Grandeza empalhada que temos na biblioteca. — O Diabrete disse enquanto continuava caminhando e, imediatamente, ouviu um barulho atrás dele quando as cadeiras eram empurradas para o lado e passos pesados se aproximavam.

— G-Grandeza, você disse? De verdade? A coisa é real?

— Não vivo, mas empalhado e mantido em condição de pico através de magia. Parece como se tivesse morrido há algumas semanas. — Eiro comentou e Armodeus olhou de volta para ele, incapaz de se conter.

— Rapaz, você é muito bom em negociar… É, eu vou com você. Vamos conversar. — Armodeus disse e os dois atravessaram os corredores, deixando para trás aquela atmosfera sufocante.

Após alguns segundos, o Anão Ancião disse o que era óbvio.

— Você e aquele Elfo possuem uma história, né?

— Pode-se dizer isso. Ele é uma das pessoas que me escravizou quando eu ainda era um Diabrete Inferior. O amigo dele e a garota que ele amava morreram e ele próprio perdia seu braço até o ombro e ficava desfigurado, eu fugi com a adaga dessa garota e vivi uma vida feliz enquanto a aversão e ódio dele por si mesmo só aumentava.

— Rapaz… Um simples ‘sim’ teria sido suficiente…

— Oh… Então, ‘Sim’.

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