
Volume 4 - Capítulo 302
A Virtude do Demônio
Respirando fundo, Eiro começou a permitir que este novo tipo de magia fluísse pelo seu corpo.
Bem, não era direta ‘novo’, era desconhecido para ele. Assim que a Magia de Morte fluiu através dele, ele pôde sentir todo seu corpo definhar lenta. Como se apodrecesse, ou mumificasse, na verdade. Ao longo dos seus chifres e ossos das asas, camadas grossas de ossos se formaram.
Como se seus olhos desaparecessem e tivesse olheiras escuras ao redor deles, como se suas órbitas oculares estivessem completa vazias. A temperatura do seu corpo caiu muito e seus batimentos eram quase imperceptíveis. Certa, essa era uma forma perfeita de se fingir de morto se necessário em algum ponto, mas, por ora, era horrível.
Primeiro, como essa não era o tipo de transformação que parecia ruim, mas forte, seu corpo físico ficou muito fraco. Era desconfortável e parecia que seus ossos poderiam se quebrar com alguns passos.
Esse não era o caso, Eiro não se sentia tão frágil com tanta frequência. Depois de respirar fundo mais uma vez, como costumava fazer para controlar seu corpo, sem ter certeza se estava entrando em colapso ou não, o Diabrete olhou para frente.
Ele notou o provável benefício mais importante de se fundir com este tipo de magia: que ele era capaz de sentir algo novo ao seu redor. Agora conseguia sentir a Força Vital, já que era a força oposta ao que estava dentro do seu corpo no momento.
Eiro podia ver o fluxo de Força Vital através do corpo das pessoas na sua frente, das plantas crescendo lá fora e dos vermes rastejando sob a mansão.
Além disso, Eiro notou algum tipo de distorção a alguns passos dele. Estavam acima das urnas cheias com as cinzas dos dois aventureiros que Eiro matou e começou há não muito tempo. O Demônio encarou as distorções e estendeu a mão na direção delas. Assim que as pontas dos seus dedos ossudos tocaram uma dessas distorções, notou algo mudar.
Como se uma mão fina se estendesse na sua direção, envolvendo seus dedos ao redor do pulso do Demônio para puxá-lo. Neste instante, os instintos de Eiro o dominaram. Ele puxou sua mão e dissipou toda a mágoa que havia infundido em seu corpo, pulando para trás.
Seu coração, que estivera tão fraco há alguns meses, batia tão alto que parecia que todos os outros conseguiriam escutá-lo. O mundo ao redor de Eiro girava e tudo o que sentia era náusea.
Se ele não tivesse um controle tão grande sobre seu próprio corpo, Eiro teria vomitado no chão.
— Eiro, está tudo bem? Tem certeza de que quer continuar com isso…? Muitos daqueles que possuem a habilidade de se infundir com os elementos tentaram o mesmo com Magia de Morte, mas isso sempre resultou na morte ou decadência à loucura deles… — Solomon ressaltou, tentando avisá-lo mais uma vez, mas o Diabrete olhou para ele com um aceno.
— Estou ciente. Sei o porquê… é o mesmo motivo pelo qual os Necromantes em geral são malucos… — Eiro explicou. — Senti algo similar antes… eu acho… Vejo isso sempre que mato alguém. — O demônio comentou.
— O quê? Você sente arrependimento ou algo do tipo? — James perguntou com uma expressão inexpressiva, mas Eiro negou.
— Não, não é disso que estou falando. Quando você morre… Inúmeras notificações flutuam na frente dos seus olhos, todas informando que você morreu, como se uma barragem infinita de informações sobrecarregasse sua mente no último momento em que ainda está ativa. Sempre que vejo essa mensagem refletida nos olhos de outro ser, uma sensação parecida com a que acabei de sentir me invade. — Eiro explicou. — É a sensação de entrar em um domínio onde você não deveria estar… Eu, ou qualquer outro ser vivo, ainda por cima. Posso entender como isso leva outros à loucura, mas não serei derrotado por algo assim.
Eiro se levantou do chão e respirou fundo mais uma vez, tentando se livrar do ar fétido e podre que havia reunido nos seus pulmões.
— Bem… ainda acho que precisarei de uma breve pausa.
— Se você não consegue, então diga. Embora saiba o que acontecerá. — James comentou e Eiro assentiu.
— Claro que consigo.
Assim, Eiro se virou, caminhando em direção à porta mais próxima que levaria para fora. Durante os últimos dias, enquanto esperava que Solomon arranjasse para que Eiro tivesse acesso às cinzas desses dois aventureiros caídos, o Demônio se infundiu com Magia de Morte através da pedra mágica que o Fantasma derrubou.
Sempre que fazia isso ele sentia algo parecido com o que acabou de sobrecarregá-lo agora, embora de uma forma muito mais fraca e não tão concentrada e agressiva. Naquele momento, foi como se o espírito de um dos aventureiros mortos tivesse tentado atacá-lo.
Mas sempre sentia isso, essa sensação da morte pura. Eiro se sentia melhor cercado de vida. Como plantas, por exemplo ou as crianças praticando lá fora, ansiosas e animadas com o primeiro dia de aula na Academia.
Eiro saiu e caminhou na neve com os pés descalços, derretendo um pouco da neve que havia se reunido ao redor da flor que encontrou no jardim há um tempo, aquela que era difícil de influenciar mesmo com Magia da Natureza.
Ele se agachou na frente dela e a encarou, permitindo que sua Magia de Natureza fluísse por ela, para que conseguisse sentir a vida que estava dentro de forma adequada. Essa era uma forma diferente de como Eiro sentia a vida ao se infundir com magia de morte, como se seus instintos tentassem contar-lhe sobre a posição de tudo que o deixava desconfortável, ou que deveria evitar, os sistemas sensoriais de perigo dentro do seu corpo gritando de uma só vez.
— Você está brincando com essa flor de novo? Essa é uma visão meio estranha, sabia? — Arc comentou com seu sorriso comum no rosto enquanto se abaixava ao lado do Demônio. — O que há de tão especial nela?
— Eu não sei. Só é. Te conto assim que descobrir, mas acho que ela tem que crescer um pouco mais até lá. — O Diabrete comentou enquanto olhava para seu filho mais velho. — Então, está animado para a aula amanhã?
Com um sorriso amplo, Arc começou a rir.
— Claro que estou animado! Serei o líder de toda aquela escola rapidinho!
— … Líder? — Eiro questionou com as sobrancelhas levantadas e antes que Arc pudesse dizer algo, Clementine caminhou até atrás dele e respondeu num instante.
— Isso, ele acha que irá impressionar a todos e reunir muitas garotas ao seu redor ao mostrar quão forte é.
— Oh? — O Demônio respondeu com um leve sorriso no rosto. — Você quer mostrar quão forte você é? Interessante. Quão forte você é, então?
— … Por favor, não me compare a você, isso seria injusto. — Arc disse com uma expressão séria. — Quero dizer, estou começando minhas aulas e acho que sou bastante forte para minha idade. Certo?
— Hm… Claro, acho que sim. Pelo menos você é mais capaz do que uma pessoa comum quando se trata de combate. Esse é um bom começo. Você não teve a chance de subir muito de nível, mas nível de suas habilidades é bastante alto graças ao tanto que praticou. Todos vocês, quero dizer. — Eiro ressaltou. — Então, tenho que dizer, estou bastante curioso sobre o que pode acontecer assim que se estabelecerem na escola.
—Você tem mesmo que dizer a ele que quer que ele lidere a escola? Não acho que seja bom para o ego dele… — Rudy comentou com um sorriso sarcástico e Arc olhou presunçosamente para ele.
— Que ego? Eu sou a pessoa mais humilde que existe!
— Claro que você é… bem, de qualquer forma… Eiro, Solomon te chamou de novo. — O jovem comentou e o Diabrete olhou para ele, surpreso.
— Já? Mal faz apenas alguns minutos… — Eiro suspirou enquanto se levantava e seguia para o interior da mansão, embora alguns passos depois tenha percebido a razão de Solomon tê-lo chamado.
Um convidado que deveria ter chegado há alguns dias chegou, e, na verdade, o Demônio ficou bem feliz de vê-lo de novo. Ele atravessou a mansão e foi até o local em que o esperavam. Sem mais delongas, Eiro encarou o Anão Ancião Armodeus, que estava repreendendo Krog pelo estado de duas armas ao mesmo tempo que estava curioso com o criador delas, devido à aparente qualidade que possuíam.
Mas então, Armodeus notou alguém dando um tapinha em seu ombro e se virou, encarando Eiro em sua nova forma.
— V-Você mudou bastante, rapaz… — Armodeus com um sorriso e Eiro olhou para o Anão Ancião de cima a baixo e deu de ombros.
— Você não mudou nada… eu acho?
— Você acha? Então você esqueceu, né? — Armodeus respondeu com um suspiro profundo. — Como deixou isso acontecer? Sério, nós fomos afetados pelo feitiço de um mero Demi-Lich? Eu esperava mais de você, rapaz! — O Anão exclamou, mas Eiro olhou para ele e balançou a cabeça.
— Claro que não, eu não fui afetado por esse feitiço. Meu problema de memória é o custo que tive que pagar pela ativação da minha Habilidade Lendária.
— Sim, sim, certo, continue dando desculpas — Armodeus começou, percebendo depois o que Eiro disse. — L-Lendária…?
Eiro assentiu.
— É chamada de <Demônio Supremo>. O Rei das Salamandras disse que durante minha próxima evolução ela se tornará mais estável e o custo também será reduzido, então não preciso me preocupar que isso aconteça de novo.
— R-Rei das Salamandras…?
— Uhum. Eu o encontrei enquanto procurava por um espírito para formar um contrato, porque Nelli e Gondos esqueceram de mim. Depois que absorvi um Portal Espiritual, firmei um contato com Sarius aqui.
— Yo. — A Salamandra disse com um sorriso e um aceno e Armodeus virou a cabeça para olhar para Eiro mais uma vez.
— Rapaz… Comece do começo, tudo bem?