
Volume 4 - Capítulo 301
A Virtude do Demônio
James e Eiro pararam assim que chegaram a um quarto onde poderiam conversar sozinhos em paz. Embora Eiro não soubesse do que se tratava, sabia que James estava muito preocupado com isso. O demônio olhou para o elfo da luz com os braços cruzados.
— Então… Do que se trata? — Ele perguntou e James o encarou com um olhar profundo.
— Você realmente não se recorda?
— Não, desculpa. — Eiro disse sem rodeios. James cerrou os dentes e começou a explicar.
— Quando toda aquela situação começou conosco nos esquecendo de você… Você atacou um grupo de jovens aventureiros e os matou, até mesmo os comeu. — Ele disse e Eiro olhou para ele com as sobrancelhas levantadas.
— Espera, o que você quer dizer? Por que eu faria isso?
— Eu não sei, porra, por que eu iria saber disso?! — James respondeu irritado e o Demônio pensou sobre. Ele tentou se recordar dos eventos que não esqueceu daquele momento, mas não sabia por que faria algo do tipo.
Eiro não gostava de comer pessoas. Ele costumava, mas isso quando era mais selvagem. Assim que reconheceu as crianças como suas, foi quando rejeitou fazer isso. A única situação em que faria isso talvez fosse quando…
— Eu… eu fiquei selvagem…? — Eiro perguntou com uma expressão chocada. Ele percebeu que, em tal situação, não tentaria pensar em nada para se impedir de esquecer as coisas. Neste caso, seu corpo seria guiado pelo instinto. Se esse fosse o caso… Então, Eiro provavelmente tinha feito o que James disse.
— Eu… matei crianças aleatórias…? — Eiro murmurou com choque na face. Embora não se recordasse de nenhum detalhe em particular sobre elas, ainda se lembrava do seu amor pelas suas crianças. Imaginar-se comendo as crianças de outros sem motivo só o deixava enojado.
Claro, se foram elas quem o atacaram, ele teria pelo menos uma justificativa para matá-las, mas… Comê-las era algo além. Era diferente do que os lixos, como os capangas da organização com quem ele alimentou John, mas crianças inocentes? Não havia como ele justificar isso.
— Há… Há alguma coisa que eu possa fazer por eles…? — Eiro questionou. Ele não queria perder essa amizade complicada que tinha com James, não importa quão problemática ela fosse.
— Tsk… Consegue trazê-los de volta à vida? — James perguntou ao se virar, pronto para sair da mansão, mas então, algo acendeu na mente de Eiro.
— Acho que… talvez eu possa… — Eiro respondeu e James parou por um instante.
— O que você quer dizer? — Ele questionou e Eiro retirou algo de seu inventário. Era uma esfera pequena, redonda e preta como breu.
— Isto é algo que o Fantasma derrubou quando eu o matei… É como uma pedra mágica cheia de magia necromântica… Suficiente para uma dúzia, ou mais, de pedras mágicas normais…
— Eiro, não me diga que está sugerindo…
— Estou. E se eu aprender Necromancia e ressuscitá-los com isso? Eu sei que existem alguns feitiços que Mortos-Vivos podem usar para se curarem, então poderia até reparar seus corpos… — O Diabrete comentou.
— Você quer transformar aquelas crianças em servos mortos-vivos? Está brincando comigo, porra? Como isso deveria ser melhor do que matá-los e comê-los?
— Porque eu não quero transformá-los em servos… Só quero trazê-lo de volta à vida, ao manipular a morte deles… Se é que isso faz sentido. — Eiro disse. — Não só manipular… Sei que almas podem permanecer por muito tempo, dependendo da situação em que morreram e nesse caso… Suas almas ainda estão lá.
— … Com Necromancia, você também pode falar com a alma dos mortos, certo?
— Acho que sim. — Eiro respondeu.
— Então, que tal isso… Você aprende Necromancia, fala com aquelas almas e pede pelo perdão delas. Se elas te perdoarem, também o perdoarei. Se elas não perdoarem, sairei deste grupo oficialmente. Se elas quiserem que você os transforme em Mortos-Vivos, então… que assim seja.
— Obrigado por me dar essa chance. — O Demônio disse com um leve sorriso na face, mas James o encarou de volta e depois suspirou.
— Não é como se eu não soubesse que você já matou e, até mesmo, comeu pessoas antes… Sempre estive ciente disso. Só não queria pensar sobre, sabe?
Eiro assentiu. Claro que ele compreendia, mas também estava feliz que James tentou ignorar as ações do Demônio até certo ponto. Entretanto, isso significava que Eiro agora tinha dois ou três possíveis objetivos principais que tinha que completar.
Primeiro, tinha que recuperar suas memórias, de uma forma ou de outra. Talvez pudesse perguntar para Solomon como ele se sentiu quando percebeu que havia esquecido suas memórias, isso poderia ajudá-lo um pouco.
Segundo, conseguir afinidade com o Elemento Morte a ponto de conseguir utilizar Magia de Morte, para que conseguisse conversar. Isso possibilitaria que falasse com o espírito dos aventureiros mortos, diferente dos Espíritos Elementais. Se ele tentasse infundir seu corpo com a magia da morte dessa pequena conta derrubada pelo Fantasma, então isso era algo que valia a pena explorar.
E terceiro, aquele que Eiro achava ser o menos iminente… Virar a organização de cabeça para baixo. Eles já estavam cientes de que Eiro matou uma Letra, apesar de não ser permitido, portanto, assim que tentasse interagir com qualquer membro ele seria atacado.
Mas, neste ponto, com suas novas habilidades dedutivas que recebeu através do <Domínio Absoluto da Verdade> do Cavaleiro de Ouros, não havia como ele ter problemas contra alguém da organização.
Se precisasse, ele mataria todos que encontrasse naquela pequena área fechada nas favelas. Portanto, não estava muito preocupado com isso agora.
— Só não ferre com tudo de novo, entendeu? — James disse ao Demônio, que acenou a cabeça em resposta.
— Tentarei o meu melhor. Se eu fizer, compreenderei qualquer raiva que sentir por mim. — Eiro respondeu. James assentiu e os dois voltaram até o quarto em que os outros os esperavam, mas antes que pudessem se sentar, Solomon se levantou.
— Eiro, se possível, podemos conversar em particular também? — O Rei perguntou e Eiro assentiu. Saíram do quarto e, depois de caminharem um pouco, Solomon explicou o que queria falar.
— Você se recordou de tudo depois que o efeito da habilidade acabou? — Ele questionou e Eiro se virou para ele balançar a cabeça.
— Não… na verdade… Esqueci muitas coisas sobre as crianças e até sobre você, não que esteja orgulhoso em admitir isso.
— … Entendo. — Solomon disse. — E presumo que queira se lembrar?
— Claro que quero. Não há como eu não querer. Sinto que há algumas coisas que esqueci que preciso me recordar, coisas que são muito importantes para mim.
— Então, tenho uma sugestão a fazer, mas não sei quanto irá gostar dela. — Solomon comentou. — Assim que as aulas da Academia começarem, haverá um período de três semanas em que seria mais do que benéfico as crianças ficarem lá. É algo como um treinamento de campo básico, para ajudar todos a chegarem ao mesmo nível e construir algo como uma comunidade dentro da escola. Já falei com James, Jess e Krog sobre isso, mas eles, assim como Clark, sua escolta do mercado negro, se você se recorda, podem cuidar de Leon e Avalin durante esse período. Como mencionou antes, alguém mais virá visitar a partir de amanhã. Armodeus recebeu minha mensagem e, preocupado, escolheu vir para cá o mais rápido possível.
Eiro olhou para Solomon, confuso, por um instante. Julgando pelo que ele estava dizendo, havia uma conclusão à qual ele poderia chegar.
— Você quer que eu e Armodeus viajemos para algum lugar durante esse período de três semanas? E suponho que tenha relação com minhas memórias perdidas…? — Eiro perguntou, embora já tivesse um palpite bastante razoável de como seria a resposta.
— De fato. Quero que visite o Dragão da Verdade com quem formei meu pacto. Ele estará os aguardando e conseguirá ajudá-lo a recuperar suas memórias. A única forma de chegar ao lugar onde ele aguarda é atravessando uma cidade de anões, a qual Armodeus pode te ajudar a acessar.
— Entendo. Pensei que seria algo do tipo. — Eiro comentou, reflexivo. — Parece uma boa ideia para mim. Quando esse período de três semanas começa?
— Daqui a duas semanas, assim que todos os estudantes estiverem acostumados e que os atrasados cheguem. — Solomon disse e Eiro assentiu.
— Isso deve ser suficiente, então.
— Suficiente? Suficiente para quê? — O Rei questionou com uma leve carranca e Eiro respondeu com um tom direto.
— Tempo suficiente para eu cumprir minha parte do acordo que acabei de fazer com James e tentar assumir a organização.
— … Você ainda está trabalhando nisso? — Solomon perguntou.
— Claro, por que não estaria?
— Porque Clark me disse que um dos membros da organização te atacou por quebrar as regras deles. Pensei que tentaria uma abordagem diferente agora. — O Rei comentou.
Eiro acenou com a cabeça.
— Bem, eu vou. Pararei de tentar subir na hierarquia pelos meios normais. Só irei me livrar de todas as letras e das pessoas acima delas para que possa entrar em contato com aqueles que de fato lideram a organização. Esses caras são um ramo de algo maior. Suas regras não fazem sentido da forma como são, então foi isso que concluí. Acho que é justo presumir que estou certo, considerando minhas novas habilidades. — O Diabrete disse com um sorriso largo. — Então, assumirei a organização principal.