A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 298

A Virtude do Demônio

O Demônio pousou na frente da entrada principal da mansão e se aproximou devagar. Ele estendeu sua mão para a maçaneta, mas antes que a tocasse a porta já foi aberta.

A jovem que estava ali olhou para o rosto de madeira negro como breu. Assim que percebeu quem era, lágrimas se formaram no canto dos olhos dela. Ela se jogou em Eiro e o abraçou o mais perto possível.

— Desculpa, desculpa… Desculpa por me esquecer de você, eu… — Sammy chorou. — Eu não queria, pai, eu real-

Eiro a interrompeu ao acariciar as costas da garota em pânico.

— Está tudo bem. Não há motivos para se preocupar. Nada disso é culpa sua. — Ele disse com um tom compreensivo enquanto Sammy continuava chorando em seu peito por mais alguns minutos. Enquanto isso acontecia, mais alguns se juntaram a eles.

Primeiro, foi Rudy. Então, Felix com Leon em seu colo. Krog permaneceu no corredor, observando enquanto Arc e Clementine desciam para cumprimentar seu pai de novo. Todos se abraçaram e até Eiro mal conseguiu segurar suas lágrimas.

Ele conseguiu. Conseguiu derrotar esse feitiço maldito que quase arruinou toda sua vida.

Eiro olhou para as crianças na sua frente e deu um passo para trás. Ele passou a mão em seus olhos para se livrar das lágrimas que se acumularam nos seus cantos, olhando para as duas pequenas figuras flutuando atrás deles.

A Náiade e o Golem foram até o Demônio e o abraçaram também. Eles se desculparam por se esquecerem dele, mas ele continuou dizendo que não havia razão para fazerem isso. Ele compreendia o que aconteceu, afinal.

Além do Fantasma que conjurou o feitiço, Eiro era quem mais sabia sobre tudo que ocorreu durante os últimos dias. O Diabrete respirou fundo e olhou para as crianças enquanto pegava seu caderno, abrindo-o na página mais importante.

Então, explicou o que estava acontecendo com ele e como estava esquecendo as coisas pouco a pouco. Claro, ele também mencionou como já havia esquecido a maior parte da conversa que tiveram.

— Isso é uma piada, certo? — Arc questionou com um sorriso irônico. Ele não deveria ser capaz de se mover agora, mas por conta do tratamento de Clementine e Nelli, o jovem já era capaz de agir como normalmente fazia, de forma muito energética, mas Clementine e Nelli tinham que recordá-lo constantemente de que ele não era permitido se mover, considerando que a maioria do seu corpo ainda estava ferido e o próprio Arc se sentia um pouco mais rígido do que o normal.

Mas, de qualquer forma, Eiro balançou a cabeça.

— Claro que não é uma piada. Eu não brincaria com algo assim agora. Embora eu desejasse que fosse uma piada…

— Bem, isso tem relação com a sua aparência…? — O jovem perguntou e todos o encararam com um leve olhar, pois haviam decidido não perguntar sobre isso, já que presumiram ser algum tipo de tópico sensível para Eiro, mas o garoto não se importou muito.

Assim, ele também explicou sobre como teve que fazer isso, caso contrário morreria muito rápido por causa da Energia Sagrada que estava ao redor dessa área no momento.

— … Pai, como isso aconteceu em primeiro lugar? — Sammy perguntou, fungando enquanto esfregava a mão no rosto e o Demônio olhou de volta para ela. Ele não queria falar sobre isso ainda, considerando a situação, mas tinha que ir para um dos cômodos escondidos com magia da mansão e ficaria sozinho lá por bastante tempo. Então era melhor contar para eles sobre isso agora antes que reclamassem por não terem escutado isso dele.

Eiro respirou fundo.

— Recebi uma Habilidade Lendária enquanto lutava contra aquele fantasma pela primeira vez. Bem, ele ainda estava vivo nesse momento, mas agora não está. A Habilidade Lendária é forte, mas, pelo menos agora, possui repercussões fortes demais para que eu possa utilizá-la. Primeiro, ela me fez perder minha memória sempre que tento recordar daquela lembrança, então, agora há pouco… ela me tornou vulnerável a qualquer tipo de Energia Sagrada. Então, estou me preparando para isso. — O Demônio explicou e todos compreenderam o que isso significava.

— Então ficar perto de Avalin irá…

— Me machucar bastante, sim. Por ora, irei encontrar-me com ela e me certificar de que está tudo bem, então irei até a torre. Lá, infundirei esta mesma madeira naquela sala para criar um bunker para mim mesmo… esperarei que tudo isso acabe. Não posso deixar nenhum de vocês entrar lá. Qualquer quantidade de energia sagrada pode me matar.

— Por quanto tempo…? — Clementine perguntou nervosa.

— Sete dias. — Ele respondeu direto. — Mas não se preocupem. Sete dias passam mais rápido do que vocês pensam. Vocês devem se preparar para… Erm… se preparar para… — Eiro começou, quando perdeu muitas memórias importantes da vida de cada uma de suas crianças. Alguns instantes depois, Sarius escolheu falar pelo Demônio.

— Foi a parte da escola? — A Salamandra perguntou e Eiro olhou para ele.

— Certo, isso. Vocês devem se preparar para a escola e aproveitar o seu tempo lá o máximo possível. Daqui a uma semana nos encontraremos em uma forma que não seja pelo menos… Isto.

Com um sorriso, Clementine abraçou Eiro de novo.

— Tudo bem, você é o melhor pai de todas as formas possíveis, não importa sua aparência… — Ela disse com um sorriso no rosto. Eiro se virou para ela e acariciou a parte de cima da sua cabeça.

— Obrigado, mas ainda acho que prefiro minha aparência antiga. — O Diabrete comentou com um sorriso.

— … Essa é a parte mais importante aqui? Quem é esse espírito? — Nelli perguntou confusa enquanto olhava para Sarius, que a encarou de volta com um sorriso amplo.

— Quem eu sou? Heh, eu me pergunto… — A Salamandra, esperando ser capaz de mostrar sua ‘superioridade’, riu. Como ela perguntou, Eiro pensou que deveria responder Nelli no lugar desse Espírito de Fogo.

— Ele é o sucessor do Rei das Salamandras. Formei um contrato com ele enquanto tentava descobrir como acabar com tudo isso. Ele não é particularmente bom em ver os detalhes, então pode ter demorado um pouco mais do que levaria com qualquer um de vocês, mas ainda é um espírito muito gentil. — Eiro explicou e Gondos encarou o demônio confuso.

— Ah… eu sabia que algo estava diferente de antes. Você recebeu a bênção do Rei das Salamandras, não recebeu?

— O quê? Isso é ridículo… — Krog exclamou, tendo escutado a conversa do outro lado do cômodo, mas Eiro concordou.

— Não, fui abençoado pelo Rei das Salamandras, além disso, recebi mais uma coisa, mas não é algo que possa explicar agora. Desculpa. — Eiro explicou. Nelli e Gondos muito já compreenderam do que ele falava, mas ainda estavam mais do que confusos e surpresos. Eiro contaria para eles mais tarde. Por ora, ele tinha que fazer outra coisa.

Ele colocou as mãos nas cabeças de Nelli e Gondos e forneceu uma grande quantidade de mana, suficiente para os últimos dias e a próxima semana, afinal, Eiro não seria capaz de suprir a mana que precisavam naquela sala que não permitia nenhum tipo de magia, incluindo Energia Sagrada e Magia Espiritual.

Eiro respirou fundo e começou a pensar. Ele conseguia sentir onde Jess e Avalin estavam. Avalin ainda estava em pânico, de acordo com Gondos, então Jess sentiu que não deveria movê-la muito, algo que Eiro apreciou.

Jess estava preocupada com a saúde de Avalin acima de tudo! Eiro ficou feliz com isso.

Por agora, subiu as escadas para que pudesse chegar ao local que as duas esperavam enquanto a garotinha se acalmava.

Ele virou a cabeça para Nelli e Gondos.

— Aliás… onde quer que Bavet e Gobo estejam… Tragam-nos até mim, se puderem.

Os dois Espíritos assentiram de imediato. Eles pareciam ter compreendido que cometeram um erro enquanto Eiro não consertou isso, afinal, a única conexão que tinham com Gobo e Bavet era através de Eiro e sem essa conexão eles eram como monstros aleatórios que acontecia de possuírem um pouco mais de controle do que monstros normais, mas, como ainda eram monstros, todos na casa se sentiram inseguros e pensaram que deveriam restringi-los de alguma forma. Portanto, ficaram presos na masmorra do porão durante os últimos dias, retirados em emergências em que seriam úteis.

Os outros pareciam se sentir um pouco envergonhados. Eles haviam esquecido sobre esses dois porque Eiro não estava aqui, mas agora que se recordavam de Eiro, também perceberam que Bavet e Gobo não eram monstros, eles eram mais do que isso. Provavelmente, eles ficaram muito irritados com tudo isso depois que Eiro contasse para eles.

Ele se desculparia mais tarde, mas, por ora, Avalin era mais importante para ele.

Eiro abriu a porta do cômodo em que elas estavam e entrou. Avalin levantou sua cabeça e olhou lentamente para a figura negra como breu, com asas e chifres.

Mas, em vez de ficar assustada, como até mesmo Eiro presumiu que ela ficaria, ela correu para Eiro com os olhos cheios de lágrimas.

Assim, o Diabrete passou a mão na cabeça da garota e sorriu de volta, quase transbordando de lágrimas.

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