A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 293

A Virtude do Demônio

Eiro liderou o Cervo de volta para o interior do castelo e o levou escada acima até o escritório privado de Solomon.

— V-Você não pode acreditar que esse animal idiota consegue se recordar de você, certo? Não há como! — O Fantasma continuou seguindo Eiro, tentando fazer com que Eiro fizesse um acordo com ele e Eiro pensou por um instante.

— Não, eu acredito nele. Certo, Lugo? — Eiro disse com um sorriso presunçoso enquanto olhava para o Cervo e, neste ponto, outra pessoa se juntou à conversa sobre algo que o incomodava há um tempo.

— Certo, alguém poderia me explicar por que Lugo está aqui em primeiro lugar e por que ele está seguindo um completo estranho? — James questionou com uma carranca profunda. Fazia sentido que ele conhecesse Lugo, afinal, até mesmo Solomon recordava dele. Como Eiro não tinha uma explicação melhor, olhou para James, com seu rosto ainda coberto pela máscara e disse:

— Ele é meu familiar, claro que iria me seguir. Agora, não me incomode. Lugo é a chave para se livrar desta tempestade.

— O que diabos você quer dizer com ‘ele é seu’? — James exclamou, mas Solomon se importava mais com a última parte da explicação do Demônio.

— Ele é a chave? De que maneira exata?

— É simples. Ele não é afetado pela magia fundida com a tempestade. Então, se eu criar um contrafeitiço que use… erm… Lugo como base, então podemos nos livrar da magia. Depois, só preciso combiná-la com uma magia que possa se livrar da própria tempestade, então tudo deve funcionar. — Eiro explicou com um sorriso amplo.

Lugo sentou-se presunçosamente no chão ao lado da mesa em que Eiro estava trabalhando e o Demônio se virou na direção dele. Olhou fundo em seus olhos de forma determinada.

— Certo, se fizermos isso… esquecerei tudo o que já conheci sobre você. Pode haver algumas memórias dispersas que eu possa recuperar com mais facilidade com o tempo, mas, em sua maioria… Tudo desaparecerá.

O Cervo olhou de volta para Eiro por um instante e acenou devagar com a cabeça de forma compreensiva.

— Sei que sempre te chamei de idiota, mas você realmente muito mais esperto do que qualquer outro da sua espécie, hein? — Eiro sorriu enquanto acariciava a testa de Lugo e o Cervo olhou de volta presunçosa, derrubando algumas coisas da prateleira no processo. — Olha, deixa para lá, cara. — O Diabrete riu e respirou fundo. Ponto? — Eiro perguntou e Lugo assentiu. De imediato, o Demônio parou de tentar restringir seus pensamentos. Ele permitiu que eles corressem, concentrou sua percepção completamente em Lugo e na mana fluindo dentro dele.

Eiro passou seus dedos sobre os pelos de Lugo, sentiu seus batimentos e respiração. Toda a magia que emanava ou que fluía através do corpo dele.

Inúmeros pensamentos passaram pela cabeça de Eiro e então desapareceram de novo, como se seu toque os afastasse porque ele não conseguia segurá-los com força suficiente. O Demônio continuou e escreveu todas as informações que obteve no papel ao seu redor. Levou horas para Eiro terminar, nas quais não fez nada além de fazer diferentes conexões.

Afinal, criar um feitiço normal já era difícil o suficiente. Criar um contrafeitiço para um feitiço criado contra ele era muito mais difícil. Criar um contrafeitiço na imagem de um ser vivo era astronomicamente mais complicado.

Portanto, enquanto a lua permanecia alta no céu e a camada de neve crescia cada vez mais alta lá fora, Eiro descobriu.

— Eu… eu entendo. Eu compreendi. — O Diabrete comentou com um sorriso irônico em seu rosto, enquanto seu corpo quase desistia e desabava, já que estava sentado na cadeira, aproximando-se cada vez mais perto da borda quanto mais tempo inspecionava Lugo.

— Você conseguiu? — Solomon perguntou. — Sério, você descobriu? Você consegue parar essa tempestade e o feitiço maligno colocado nela?

Eiro olhou para o Rei e assentiu.

— Eu consigo. Irei lá para fora e- — O Demônio afirmou enquanto se levantava, mas suas pernas logo cederam e ele caiu de joelhos devido à exaustão.

— Cuidado! — Solomon exclamou com preocupação em sua voz. — O que há de errado? — Ele perguntou e Eiro olhou lenta para ele.

— … Exaustão de mana… — Ele murmurou e Solomon suspirou fundo.

— Você tem tudo o que precisa anotado, certo? E Sarius já deve ter compreendido, então não há muito com o que se preocupar. Leve seu tempo e descanse por ora. Assim que se recuperar, você pode parar a tempestade. — Solomon sugeriu e Eiro acenou devagar com a cabeça.

— C… Certo… — Mas, assim que disse isso, o mundo escureceu ao redor de Eiro, enquanto desmaiava.

— O que você quer dizer?! Ele é um demônio! Ele matou aqueles jovens! Ele os comeu! — Eiro conseguiu ouvir a voz de James ecoar pelo cômodo enquanto acordava. Por instinto, olhou ao redor. Deveria ter passado alguns minutos, no máximo, que esteve inconsciente, mas, ao mesmo tempo, quando isso aconteceu, sua fusão com Sarius foi interrompida.

Como estava utilizando o fato de que suas asas e chifres se transformaram, assim que a fusão foi desfeita, elas apareceram para todos no cômodo. Como o objetivo de James era caçar o Demônio que ‘aterrorizava’ a cidade no momento, era óbvio que ele ficaria bravo desse jeito. Eiro ficou surpreso por ainda estar vivo.

Apesar de que, como Sarius, Solomon e Lugo estavam o protegendo, então era esperado que estivesse seguro.

Eiro se levantou do chão e tentou ficar de pé, mas, assim que se levantou, James não se importou mais. Ele empurrou Solomon para o lado e passou por Lugo, enquanto o próprio Sarius não era muito desafio agora.

James tentou esfaquear uma das suas adagas na garganta do Demônio, mas Eiro levantou sua mão na direção da lâmina. Com sua habilidade ‘Pele de Pedra’ ativa, deslizou seus dedos pela lâmina e depois prendeu a ponta dos seus dedos na guarda da adaga.

Com força suficiente, Eiro conseguiu empurrar a guarda de forma que o aperto de James enfraqueceu no instante em que ele a puxou da mão do Elfo da Luz.

A lâmina de metal esfregou pela mão de Eiro enquanto ele a movia com um movimento rápido e a segurava, apontando para a parte de baixo do queixo de James.

— Ninguém lhe disse para não lutar com um braço protético como esse até que não estivesse acostumado com ele? — Eiro questionou com um resmungo alto, esfregando a ponta do seu nariz, enquanto James ficava congelado depois do contra-ataque inesperado.

A cabeça do Diabrete doía muito agora devido à pequena quantidade de mana restante em seu corpo. Como se sua cabeça estivesse prestes a explodir e qualquer movimento dele poderia acionar essa explosão. Eiro olhou para tudo que havia ao seu redor. Ele se sentia um pouco confuso, então não conseguia se lembrar muito bem.

Mas, devido à alta quantidade de informações nas anotações espalhadas pelo escritório, conseguiu compreender de novo algumas coisas, mas havia algo estranho, havia algo… errado naquelas anotações.

As anotações falavam de um fantasma vagando por aí, mas…

— Onde ele está? — Eiro murmurou. — Onde está o Fantasma?

— Do que você está falando? Que fantasma?! — James exclamou com um olhar furioso. Eiro virou a cabeça e o encarou de volta.

— O Fantasma que eu conseguia ver. Não está mais aqui. Sarius, você o viu?

— … Acho que não… Ele desapareceu. Fui meio que forçado a focar em um cervo imundo por algumas horas, sabia? — A Salamandra comentou e Eiro olhou para ele com uma leve carranca. — … Você tem alguma ideia de onde ele pode ter ido?

— Não sei, mas parece que você lutou com ele quando ele ainda estava vivo? Ele disse que era um Demi-Lich ou algo do tipo.

De imediato, James virou o pescoço em direção à Salamandra.

— O que você quer dizer, ‘Demi-Lich’? Que fantasma? Qual era o nome dele?

— É… Bahlsen? Ou Edward ou algo assim? — O espírito sugeriu. Imediatamente James olhou de volta para Eiro.

— Conte-me tudo o que você sabe sobre esse bastardo!

— Eu contaria se pudesse, cara. Escute, não sei muito sobre ele agora de qualquer forma, estou com dificuldade para me lembrar de… tudo, mas acho que consigo rastreá-lo. Sarius, venha… vamos nos fundir de novo… — O Demônio sugeriu e estendeu sua mão, mas a Salamandra balançou a cabeça em rejeição.

— Oh, com certeza não, não irei me fundir com você assim! Se você morrer enquanto estivermos fundidos, o que acontecerá comigo, hein?

— Sarius. Funda-se comigo imediatamente. — Eiro rugiu, sua irritação e raiva transbordando da sua expressão, afetando todos na sala. A Salamandra decidiu que não tinha outra escolha a não ser fazer o pedido, portanto mergulhou no peito de Eiro.

De imediato, o mundo ao redor ficou nebuloso de novo, pois ele ainda estava com pouca mana. O Diabrete respirou fundo e olhou ao redor do cômodo. Ele ainda conseguia ver onde o Fantasma esteve e para onde havia ido, então conseguiria rastreá-lo assim.

Parecia que ele voou pela janela, então o Demônio se aproximou dela, mas assim que viu a direção em que a fina linha mágica que o Fantasma deixou, Eiro se engasgou.

Ele reconheceu a direção. Eiro teve o pior pressentimento que poderia ter… Imediatamente tentou voar pela janela, mas dessa vez foi impedido pelo grito de James.

— Não ouse sair! Fique aqui e explique isso para mim agora, seu demônio pedaço de merda! — Com um olhar profundo em sua face, James tentou caminhar até Eiro para mantê-lo no escritório, enquanto o Fantasma ia em direção à mansão de Eiro, onde as crianças estavam neste instante.

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