A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 292

A Virtude do Demônio

Se o feitiço que assolava lá fora na forma da tempestade de neve fosse apenas um feitiço que deveria anular Eiro, então era claro o que ele tinha que fazer. Este feitiço foi criado com a intenção de tornar impossível que Eiro o impedisse. Isso significava que havia duas coisas possíveis que Eiro poderia fazer para se certificar de que tudo funcionasse.

Primeiro, poderia pedir que outro mago especializado em contrafeitiço ajudasse. Ele já havia pedido isso a Solomon, entretanto, pelo que sabia, não havia nenhum mago desse tipo atualmente na capital. Ele enviou um pedido para a Guilda dos Aventureiros, mas não havia muito mais que pudesse fazer.

Segundo, Eiro poderia desenvolver um feitiço que fosse uma encarnação de si próprio e utilizá-lo para anular o feitiço que deveria anulá-lo, afinal, um contrafeitiço deveria anular a magia contra a qual foi projetado, neste caso, eles cancelariam um ao outro.

Eiro respirou fundo e tentou se concentrar na última opção por ora. Se quisesse anular este feitiço, então precisava criar uma base que fosse uma encarnação da essência do próprio Eiro. Então, tinha que focar na destruição do feitiço exercido lá fora e então, com sorte, daria tudo certo. Felizmente Eiro conseguiria testar isso em uma escala menor ao conjurar em uma área lá fora e observar se tinha algum efeito.

Se tivesse, então estava com sorte e se não, então precisaria continuar tentando, mas havia mais um problema com isso. Para criar um feitiço que fosse a encarnação dele, precisaria saber tudo que sobre si mesmo.

Eiro fez um bom trabalho mantendo suas memórias principais até agora, mas se quisesse criar este feitiço, teria que pensar sobre essas memórias… então as esqueceria.

— Eu… Tenho que tomar uma decisão. — Eiro concluiu enquanto se levantava e caminhava em direção à porta.

— O que você quer dizer? — Solomon perguntou enquanto observava o Demônio sair. Eiro se virou e olhou para o Rei com uma amargura escondida sob sua máscara.

— Eu… eu te conto depois. — Ele falou enquanto saía do cômodo junto de Lugo, que estava sentado no canto do escritório. Parecia que o Cervo era capaz de ler a situação e escolheu seguir Eiro para ajudá-lo com sua escolha.

Assim, Eiro, o Cervo e a Salamandra saíram do castelo para que Eiro pudesse pensar por si próprio. Ele subiu nas costas de Lugo enquanto se separava de Sarius, que agora flutuava ao seu lado. Foram até uma área onde poderiam ficar sozinhos, no meio dos jardins do castelo.

— Certo, qual é o problema, cara? Faça o que tem que fazer. — Sarius sugeriu, com uma carranca irritada, avisando Eiro estava desperdiçando o tempo deles com isso e o Demônio retirou sua máscara e olhou para Sarius.

— Mas eu não sei o que eu devo fazer. Está claro que preciso tomar uma decisão, mas não sei qual.

— … Sabe, não consigo ler sua maldita mente, então fale de forma que eu possa entender, idiota. — A Salamandra resmungou. Desse modo, Eiro fez isso.

— Cenário um: usando minhas memórias restantes, tento criar um feitiço que é uma encarnação de mim mesmo. Se isso for o suficiente para ter sucesso, eu terei anulado o feitiço que faz todos se esquecerem sobre mim, mas eu mesmo esquecerei tudo o que sei. No pior caso com esse cenário, essa “minha encarnação” não é suficiente para anular a tempestade. Não apenas esquecerei sobre mim mesmo, como todos desta cidade. Todos aqui me esquecerão para sempre e será como se eu tivesse deixado de existir, afinal, existem apenas algumas pessoas que me conhecem fora desta cidade. — Eiro explicou com uma expressão amarga e Sarius compreendeu o risco.

A Salamandra pensou por um tempo, então deu outra sugestão.

— E se você… não fizer isso? Você pode criar novas memórias com todos… ou algo do tipo.

— Não, já definimos isso. Se eu tentar isso, as almas de todos que costumavam me conhecer serão afetadas. Então, mesmo se permanecer fora da vida deles… Esses danos serão inevitáveis. Aquela mansão é o lugar onde as pessoas próximas de mim se conectam. Meus pertences estão ali, meus materiais, minhas ferramentas. Eu vivi minha vida pelos últimos tempos ali. Sem mencionar… Elas são minhas crianças… e se elas se lembrarem de mim? No mínimo, Solomon e James não sairão dessa sem danos, afinal, eles fizeram novas memórias que não são afetadas por esse feitiço… — Eiro explicou.

Sarius tentou seu melhor para compreender a situação, embora tivesse que se acostumar com este demônio sentimental que estava chorando por crianças humanas.

— Então — A Salamandra começou, mas foi interrompida por alguém.

— Só há uma opção, não é? — De trás de Eiro, o Fantasma falou. Já estavam fundidos quando se encontraram pela primeira vez, mas Sarius agora também era capaz de vê-lo e ouvi-lo. Embora, de alguma forma, Lugo também estivesse ciente dele o tempo todo.

Eiro não compreendia esta parte tão bem, mas isso não era importante. Este fantasma estava certo, afinal. Depois de respirar fundo, Eiro chegou a uma conclusão que não queria ter chegado.

— Este feitiço foi criado com o objetivo de me forçar a esquecer tudo. — O Diabrete murmurou. — Não quero entrar nessa, mas não sei que outra escolha eu tenho. Como esse… Bahlsen, ou como quer que ele seja chamado, era um investigador que vasculhou esta cidade minuciosamente, ele deve estar ciente de que não há outro mago de contrafeitiços na cidade.

Eiro olhou para cima. Ele estava usando magia para formar uma área na qual ele, Sarius e Lugo não fossem afetados pela nevasca.

— Talvez eu devesse fazer isso. Mesmo que eu nunca seja capaz de recordar do meu passado, seria melhor do que colocar todos em perigo.

— Então, você só irá aceitar isso? E deixar esse bastardo brincar com você dessa forma? — Sarius questionou com uma carranca profunda. Eiro olhou para o Espírito de Fogo e assentiu.

— Sim. Nem sempre podemos vencer. Se eu aceitar essa derrota específica, será o mais próximo que terei  de uma vitória.

— … Sério, uma vadia como você foi abençoada pelo Rei? Que piada… — A Salamandra rugiu, mas para defender Eiro, seu familiar pulou e tentou empurrar Sarius para longe do Demônio.

— Ei, que merda você está fazendo, seu saco de pulgas imundo? — Sarius gritou enquanto desaparecia da existência por alguns instantes e reaparecia alguns passos atrás de Lugo. Não era teletransporte, Sarius utilizou o espaço intermediário entre os reinos que Eiro era capaz de vê-lo se mover. Com um berro alto, Lugo reclamou sobre o que Sarius estava dizendo.

Enquanto isso, o Fantasma atrás de Eiro estava fazendo outra sugestão para um terceiro cenário que Eiro ainda não conhecia.

— Bem, se você quiser, eu poderia dissipar o feitiço. — Ele sussurrou na orelha de Eiro e o Demônio virou imediatamente para ele.

— O que você quer dizer? — Ele perguntou e o Fantasma ficou com um sorriso enorme na face.

— É como você disse, da sua posição, só há duas coisas que pode fazer. Você conseguiu analisar meu feitiço complexo, pelo qual eu desisti da minha vida, com muita facilidade na minha opinião, mas isso tem pouca importância. Faça sua escolha, crie esse contrafeitiço e esqueça tudo ou faça um acordo comigo. — O Fantasma sugeriu. Eiro estava incerto do que ele estava falando, mas, por sorte, o Fantasma explicou.

— Tudo o que preciso de você é que aja como um novo recipiente para minha alma. Nós compartilharemos a sua carne e eu me certificarei de que o feitiço desapareça. — O Fantasma disse com um grande sorriso na face. De imediato, Eiro pulou e o encarou profundamente. Ele sabia que o Fantasma dizia a verdade. Se Eiro desistisse do seu corpo, ele dissiparia a tempestade.

— … Elabore. — Eiro murmurou e, com um sorriso que mostrava o quão feliz estava por tudo correr como planejado, o Fantasma continuou a explicar.

— Nós só temos que salvar meu Mestre. Você já sabe a localização dele e não há ninguém que possa impedi-lo de se libertar se você tentar o seu melhor. Ele fundirá minha alma no seu corpo e nós o compartilharemos. Ou melhor, eu permanecerei dentro de você. Então, durante sua próxima evolução, como você terá duas almas dentro de si, seu corpo será dividido em dois. Um para você e um para mim. Eu receberei um corpo novo e muito mais poderoso e você será capaz de continuar vivendo como se nada tivesse acontecido.

De alguma forma, Eiro estava incerto sobre isso. Conseguia dizer que este Fantasma falava a verdade, mas isso parecia tão… estranho. Tão irrealista. Como se estivesse prestes a ser enganado, mas sua mente, sua alma, dizia que o Fantasma dizia a verdade. Se fosse possível acabar com isso tão fácil, então ele não seria um idiota por tentar seu próprio plano arriscado que acabava com uma das partes perdendo tudo de qualquer modo?

Eiro refletiu sobre essa ideia e o Fantasma sabia que ele tinha que forçar mais um pouco.

— Vamos lá, você sabe que esse é o melhor resultado, certo? Afinal, você já experienciou como é não ter ninguém que se recorde de você. Você não quer que isso continue, quer?

— Hm? — De repente, Sarius notou algo no que o Fantasma estava sugerindo. Era algo que haviam esquecido até agora.

— Espera… Este Cervo idiotia não é uma exceção? Quero dizer, ele se lembra de você, certo, Eiro?

O Fantasma arregalou os olhos e olhou para Lugo em confusão.

— O que você disse?

E foi neste instante que Eiro percebeu que havia mais uma rota, afinal. Um quarto plano que poderia ser o melhor.

— Isso mesmo… Mesmo eu fui afetado por este feitiço, mas, por causa da minha Habilidade Lendária, não fui totalmente, mas essa habilidade não pôde afetar Lugo… Então, por algum motivo, ele é completa resistente a este feitiço. Só preciso criar um feitiço com base no único que não foi afetado por ele… Um contrafeitiço baseado em Lugo!

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