A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 291

A Virtude do Demônio

Eiro analisou a magia fluindo através do botão de flor, anotando o máximo de propriedades que conseguia. Ele esboçou as diferentes partes possíveis para o contrafeitiço, primeiro tentando descobrir como esse feitiço foi conjurado em primeiro lugar.

— Você não conseguiria descobrir isso. — Uma voz pôde ser ouvida atrás do Demônio, embora parecesse que ele fosse o único que conseguia escutá-la, afinal, era Bahlsen de novo… ou Edward. Ou qualquer que fosse o nome que estava utilizando, embora Eiro não conhecesse mais nenhum desses nomes. Este fantasma estava o atormentando desde que pegou o botão de flor gigante. Pelo que o Demônio sabia, seu objetivo era irritá-lo e nada mais, mas como ele não parecia capaz de fazer muito além disso, Eiro decidiu ignorá-lo por ora.

A caneta na mão do Diabrete passou sobre as páginas, como se não estivesse nem encostando, dançando sobre ela enquanto esboçava diferentes versões possíveis de círculos de magia. Este tipo de magia não era algo de que ele fosse particularmente adepto, porque era muito diferente do que estava acostumado em sua própria natureza. Era o mesmo que magia de ‘Buff’ ou ‘Debuff’.

Ela pegava magia básica e não elemental na forma de mana e a transformava em algo capaz de afetar a mente de alguém. Através do círculo mágico, a mana era infundida com elementos mágicos artificiais, que era a magia que Eiro sentia o tempo todo e que estava fundida com a tempestade lá fora. 

Mas a verdadeira magia que utilizava este elemento específico era diferente, desde que, mais uma vez, passava por uma transformação para que seu uso específico pudesse ser verificado. Este tipo de magia era criado passando por uma etapa adicional ao que Eiro usava ao usar círculos mágicos.

Apesar disso, em certo ponto, era parecido com magia de cura. Se fundia sua intenção no elemento mágico que estava controlando e o usava para curar alguém. Neste caso, fundia sua intenção com o falso elemento que criava para causar qualquer tipo de efeito que você queria. Isso era bastante difícil e necessitava que tivesse talento neste campo para conseguir, muito parecido com magia de cura.

Mas, por ora, isso não importava. Contanto que Eiro conseguisse descobrir esse contrafeitiço, então ficaria tudo bem. Era a primeira vez que Eiro criava um contrafeitiço direto para um feitiço como esse… Um oficial, claro. Normalmente ele tentava criar a defesa perfeita para determinado feitiço, ou o copiava e o utilizava para cancelar o feitiço conjurado pela outra pessoa, mas um contrafeitiço era muito diferente.

Primeiro, porque ‘Contrafeitiço’ era uma habilidade de verdade. Uma rara que necessitava muita prática para adquiri-la, mas independente disso, uma habilidade. Por sorte, era um tipo de habilidade que poderia ser utilizada em toda sua extensão antes de tê-la em um alto nível, pois a única coisa em que ajudava era com habilidades analíticas para descobrir a composição de um feitiço.

Claro, isso parecia útil, mas Eiro achou que o benefício da habilidade no grau iniciante teria um impacto minúsculo quando comparado ao Cavaleiro de Ouros, então não tentou obter a habilidade primeiro.

Ele passou todo o tempo que podia neste contrafeitiço específico, desde que esta era uma das coisas mais importantes que Eiro tinha que fazer até então.

— Errado. — O Fantasma comentou, olhando sobre o ombro de Eiro para o feitiço que ele havia esboçado em seu caderno, mas o Demônio tentou não reagir. — Oh, que triste, está me ignorando?

Eiro continuou sem prestar atenção nele, embora estivesse ficando cada vez mais difícil. Ele estava muito estressado e ainda tinha a marca de <O Diabo> influenciando sua ira. O fato de que Eiro estava fundido com outro ser com problemas sérios de raiva também não ajudava.

Ainda assim, Eiro tinha um objetivo, então conseguiu se manter calmo ao se concentrar o máximo que conseguia nisso. Ele olhou para o feitiço que havia esboçado e imediata começou a trabalhar na próxima melhor ideia que teve quando se tratava da natureza deste elemento. Assim que fez isso, Solomon abriu a porta do escritório e entrou, acompanhado por alguns guardas e James, todos carregando alguns livros, que foram deixados no chão.

Eiro se virou, olhou para eles e pulou.

— Obrigado. — Ele disse enquanto pegava a primeira pilha de livros de um dos guardas enquanto os outros os colocavam no chão ou na mesa em que Eiro trabalhava.

Assim que Solomon ordenou que os guardas saíssem, James tinha algo que queria perguntar.

— Então, por que ele está pesquisando magia de manipulação mental? O que é esta tempestade? — Ele perguntou.

Como sabia da situação, Solomon olhou para as costas de Eiro com uma expressão amarga.

— Explicaremos assim que conseguirmos esclarecer tudo, não se preocupe… — O Rei explicou e James assentiu. ainda fosse um pouco estranho falar e estar ao lado de Solomon desse modo tão casual, embora isso fosse algo que o Rei pediu para ele.

Eiro anotou alguns círculos mágicos que havia visto como exemplos nos livros, para que os tivesse em um só lugar, analisando os padrões entre eles. Então, assim que pensava nisso, um fenômeno que ocorreu antes com Eiro, que se desdobrou mais uma vez.

As linhas de tinta preta no papel começaram a brilhar com uma luz brilhante e, da perspectiva de Eiro, saltaram da folha de papel. Esses círculos mágicos flutuavam no ar na frente dele e, quando os encarou, conseguiu compreender seu efeito, como se esse conhecimento fluísse naturalmente.

Logo, Eiro conseguiu descobrir a essência desses círculos mágicos para um certo ponto que parecia necessário em todos eles, mas, ao mesmo tempo… Quando olhava para todos esses círculos mágicos flutuando na sua frente, conseguiu sentir algo parecido com a magia que eles produziam, então a magia que assolava lá fora era um prato diferente que usava o mesmo ingrediente base.

Os métodos de preparação eram diferentes, a complexidade e o mero conceito estavam em outro nível. Isso não o ajudava.

— Oh? Que interessante, você está se agarrando a qualquer coisa, entendo. — O Fantasma comentou de trás de Eiro, mas esse foi a pior hora para esse tipo de comentário.

— Quer ficar quieto, seu maldito? — O Diabrete rosnou alto enquanto se virava, fazendo algumas pessoas, assim como Lugo, neste cômodo estremecerem em resposta.

— Há algo errado? — Solomon questionou, preocupado com o que acontecia, afinal… se algo desse errado e Eiro só piorasse a situação? Isso era algo que passava pela mente do Rei neste momento, mas, em vez disso, Eiro chegou a outra conclusão.

— É… Necromancia. — Ele murmurou. A analogia que havia criado em sua cabeça estava mudando. — Se manipulação mental é peixe, então isso é carne de porco… A base é diferente, não o método de preparação… — Eiro murmurou para si, com um amplo sorriso escondido sob sua máscara. Ele compreendeu o que ocorria.

Era algo que entendeu, pois sentia a irritação de Sarius pelo Rei das Salamandras por forçá-lo a um contrato com Eiro enquanto o próprio Eiro encarava o Fantasma atrás dele.

O Rei das Salamandras usou Magia de Fogo para curar, embora fosse algo que muitos consideravam impossível de se fazer. O efeito da magia não dependia unicamente do elemento usado. Entretanto, Necromancia, um tipo de magia capaz de manipular a alma dos mortos e dos vivos, seria capaz de auxiliar um pouco a magia de manipulação mental, afinal, a alma e as memórias de alguém estavam profundamente conectadas, pelo que Eiro podia conectar todas as explicações sobre magias da que leu nestes livros até então.

Eiro conseguiu decifrar essa magia, afinal, ela fazia sentido para ele. Parecia que conseguiria decifrá-la sem-

— … Espera… — Eiro murmurou e começou a raciocinar outra coisa. Se esta magia fosse tão enraizada com Necromancia, já que era a fonte da magia que estava sendo transformada em uma magia capaz de manipular a mente de alguém, então ela era muito mais perigosa do que Eiro pensara.

Magias regulares poderiam ser revertidas, mesmo após terem efeito, em casos raros, mas com Necromancia seria diferente. Ela mudaria a própria alma e se certificaria de que não fosse possível que a memória fosse recuperada no futuro. De imediato, Eiro começou a tentar entender mais a fundo o efeito deste feitiço e percebeu o que aconteceria se alguém tentasse fazer alguém se lembrar.

Se alguém tivesse esquecido por que sua alma foi alterada desta forma, isso causaria danos à alma daqueles manipulados. No entanto, Eiro não sabia a extensão. Esse efeito de dano à alma poderia ser ativado se Eiro tentasse usar magia para fazer as pessoas lembrarem ou quando elas vissem o Demônio.

Ele até poderia nunca mais conseguir falar com suas crianças se não conseguisse criar um contrafeitiço.

— Que tal desistir? No instante em que percebi o que você era, recebi todo o conhecimento possível sobre você. Atualmente sou o único que conhece cada detalhe sobre você. Cada passo que você deu, cada imagem memorável que você gravou em seu cérebro, eu sei tudo sobre você. Este feitiço foi criado para te anular perfeitamente. Ele possui os maiores riscos para alguém como você. — O Fantasma explicou ao Demônio e, neste momento, algo acendeu dentro dele. Ele descobriu o que tinha que fazer.

Se este feitiço foi criado para anular o próprio Eiro, então sabia o que tinha que criar para anular o seu anulador.

Eiro tinha que criar um feitiço que fosse uma encarnação de si mesmo.

Comentários