A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 289

A Virtude do Demônio

Eiro olhou ao redor da exibição e tentou encontrar o condutor de magia da tempestade lá fora. James também tentou ajudá-lo a encontrar a planta certa e os dois conseguiram reduzir para uma área específica da exibição.

O Demônio tentou passar pela porta de vidro que levava para essa área, mas foi impedido por um dos guardas.

— Desculpa, mas ninguém pode entrar nesta área no momento. Há uma planta bastante perigosa aqui. O pólen que ela gera é muito venenoso.

— Hm, é mesmo? — Eiro perguntou e tentou abrir seu caminho pela porta de novo. Como o guarda era muito, muito mais fraco do que ele, o Demônio conseguiu passar pela porta com facilidade, apesar de que o guarda ainda tentou impedi-lo de passar pela segunda porta.

— Por favor, você não me escutou, há polén vene-

— Eu ouvi, só não me importo. Tenho que entrar ali. Não se preocupe, posso usar magia de vento para me certificar de que nada aconteça comigo. — Eiro disse sem rodeios. — Mas é melhor que vocês fiquem para trás. Não prometo que consigo impedir que o pólen se aproxime de vocês.

O guarda, ao ver o broche real que Eiro tinha, não tinha escolha a não ser permitir que o Demônio fizesse como quisesse. James entendeu que poderia ser problemático se insistisse em entrar também.

Assim, o Demônio continuou sozinho. Ele olhou ao redor e logo notou o pólen de que o guarda falava, mas, para sorte de Eiro, percebeu que não era um pólen normal, na verdade havia algo fundido junto de magia.

A magia em questão era o mesmo tipo de magia fundida com a tempestade lá fora, então Eiro sabia que encontraria o condutor aqui. Apesar disso, tinha que ser um pouco mais cauteloso para que não fosse afetado por essa magia e esquecesse tudo que ainda sabia.

Com um suspiro profundo para se concentrar, Eiro procurou pela origem do pólen, afinal, havia muitas plantas aqui. Assim, o Diabrete caminhou ao redor da sala, inspecionando de perto cada planta.

[Eiro.] Sarius alertou de repente o Demônio, que assentiu.

— Eu sei. — Ele sussurrou, escutando alguém falar atrás dele.

— Lindas, não são? — Uma voz alegre e profunda comentou de trás de Eiro, que se virou e olhou para o homem. Ele estava no fim dos seus 30 anos e tinha um sorriso amplo na face, algo que Eiro não esperava de alguém parado no centro da nuvem do pólen venenoso.

— Quem é você? — Eiro questionou sem enrolar e o homem à sua frente suspirou.

— Sério, você não quer falar um pouco comigo? — Ele perguntou e Eiro negou de imediato.

— Bem, então acho que devo contar a você. Você me conhece como Bahlsen, ou Edward, eu acho. Para ser franco, fui eu quem causou tudo isso, para começar. — O homem disse sem pestanejar e Eiro olhou para ele com uma carranca. Ele dizia a verdade, Eiro sabia disso através do Cavaleiro de Ouros.

— Parece que você não se recorda de mim, deixe-me recordá-lo. Eu era o antigo portador da sua carta mais recente. Era a única coisa que mantinha minhas duas personas, Bahlsen, o Investigador e Edward, o Demi-Lich, separados, mas agora que eu morri e meu espírito é mantido neste plano por conta desse feitiço, isso não é mais o caso. Eu sei tudo o que aconteceu. Toda a animosidade que eu havia acumulado em relação ao Colecionador foi libertada agora que descobri que o ódio que eu tinha era por mim mesmo.

— Há algum motivo pelo qual eu deva me importar? Posso ver que você não é uma criatura normal. Na verdade, você é criado pela magia. Não me importo com o que os mortos têm a dizer sobre minhas ações. — Eiro respondeu, se aproximando de uma das flores que assumia ser aquela que criava o pólen venenoso.

— É claro que deveria haver um motivo para você se importar com isso. — O espírito de Bahlsen explicou. — Veja, agora que estou livre desse modo horrível de viver com dois ‘eus’, percebi algumas coisas. Primeiro, compreendi meu próprio valor muito bem e também entendi minhas habilidades melhor.

— Mas você não está morto? Você não deveria ter nenhuma habilidade, para começar.

Com uma risada, a figura ao lado de Eiro balançou a cabeça.

— Que forma simplista de pensar. Bastante inesperada para alguém como você. Na verdade, devido à mistura incomum das minhas naturezas Viva e Morto-Vivo, consegui viver nesta forma. Na forma de um espírito. Pode ter certeza de que ainda sou capaz de muitas coisas de quando ainda estava vivo, assim como muito, muito mais. — O homem sorriu, mas Eiro não se importou. Sabia que ele dizia a verdade, mas esse não era o foco do Diabrete no momento. Seu foco era descobrir o que o condutor era e como destruí-lo.

Assim que pensou nisso, seus olhos se fixaram em uma certa flor. Era bastante grande e bulbosa, como se contivesse algo dentro dela.  Mais importante, ela possuía a maior quantidade de poder mágico dentre todas essas flores e o pólen mágico estava fluindo dela, que era o mais importante aspecto.

Portanto, sem hesitação, Eiro colocou sua palma nela, tentando sentir o que ocorria, mas assim que fez isso, no instante em que descobriu o que acontecia com essa flor bastante grande, o Demônio puxou seu braço por reflexo.

Não porque foi machucado, ou estava para se ferir e sim por causa do que sentiu dentro da flor. Para ser honesto, não era uma flor.

— Veja bem… Minha falecida esposa era uma florista. Esse tipo de flor era o favorito dela. Até mesmo a nomeamos em homenagem a ela. Sabia enquanto minha metade morta-viva, Edward, tentava controlar a vida ao máximo para que não fosse controlado, ele a desprezava com todo o seu ser, tentando não se envolver com nada relacionado à vida. Assim, o conhecimento que adquiri com minha esposa permaneceu com minha metade viva, Bahlsen. Ambas essas metades buscavam por uma forma de realização. Um procurava incessante uma forma de controlar a vida em si enquanto a outra buscava incessante aquilo que lhe fora retirado da sua vida. Como um pai, tenho certeza de que você deve compreender. — O espírito atrás de Eiro comentou e o demônio entendeu do que ele estava falando.

— Então, você fez ambos? Usou suas habilidades de controlar a vida para criar uma nova, que fora retirada de você? — Eiro questionou, tentando seu melhor para suprimir seu rugido. Sua raiva se misturava com a de Sarius, com quem estava fundido. Como ambos tinham problemas extremos de raiva, era mais fácil fortalecerem as emoções um do outro em vez de se acalmarem.

Desse modo, Eiro tentou respirar fundo, o que foi muito difícil de fazer desde que tentava o seu melhor para manter o pólen afastado com magia de vento. Ao mesmo tempo, essa era a principal razão para Eiro não ter descoberto o que estava dentro daquele botão gigante de flor antes de tocá-lo. Com a capacidade ou a chance de respirar adequadamente ele teria descoberto o que estava ali no instante em que entrou nesta sala, se não antes.

— E por que você transformou isso no condutor desse feitiço doentio?

— É simples! Devido à enorme quantidade de mana que fluía por aquele corpo núbil, era a única e perfeita escolha. É como se a tempestade e o ‘condutor’, como você o chama, estivessem nutrindo um ao outro. Contanto que um exista, o outro não pode deixar de existir. — O fantasma disse e Eiro olhou para a flor ao seu lado enquanto Bahlsen, ou Edward, ou o que quer que ele fosse, continuava a falar. — No instante em que percebi a verdade por trás de você, a verdade completa e absoluta, eu criei o ‘condutor’ para esse feitiço e o fundi com a pequena que se transformaria neste belo espécime.

— Você é repugnante. — Eiro disse, aproximando-se da flor atrás dele. Por alguma razão, o fantasma não estava reagindo, apesar de que fosse bastante óbvio o que Eiro estava tentando fazer. Ele sacou sua adaga e cortou o caule da flor. Devido à sua natureza repugnante, ela ainda estava sendo suprida com vida e não morreria, o que era muito bom para Eiro nessa situação. Desse modo, ele poderia descobrir uma forma de dissipar o feitiço nesta flor enquanto impedia a tempestade.

O que mais preocupava Eiro, no entanto, era que o fantasma estava permitindo que ele fizesse como queria. Ele não tentou impedi-lo de forma alguma, como se já tivesse antecipado isso. No fim das contas, não passava de um favor para Eiro, já que ele não tinha que se incomodar lutando ou convencendo este fantasma, mas ainda era bastante inquietante. Talvez fosse o fato de que Eiro já havia esquecido sobre quem o fantasma deveria ser, entretanto.

Ele havia mencionado isso algumas vezes, mas era como se essa informação escapasse da mente de Eiro no momento em que ficou um pouco agitado com isso, o que aconteceu rápido. Assim, o conhecimento sobre esse homem o deixou tão rápido quanto ele ficou furioso, fazendo com que sua raiva desaparecesse.

Portanto, sem nem mesmo saber quem era esse fantasma de verdade, Eiro saiu dessa parte da exposição de flores, certificando-se de que estava contendo todo o pólen que esse botão de flor criava dentro de uma pequena bolha com a ajuda de diferentes tipos de magia.

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