A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 286

A Virtude do Demônio

Solomon caiu em seu sofá, incapaz de responder o que lhe foi dito. Agora que o grupo retornou para o castelo, onde era seguro dos espectadores, pelo menos em comparação com o exterior.

— Uma bênção… você fez… o que exatamente? Absorveu um Portal Espiritual? — O Rei questionou perplexo, afinal, isso soava como uma piada ridícula, mas quando Eiro revelou os padrões que se entrelaçavam com os padrões já existentes em seu peito, ele compreendeu que pelo menos parte disso era verdade. Como recebeu o testemunho de todos os três deles, Clark, Eiro e Sarius, não havia como Solomon dispensar isso como uma piada ou uma mentira.

— Quer saber? Vamos lidar com isso depois que resolvermos o seu problema de memória. Depois disso, tudo deve fazer muito mais sentido, certo? — Solomon questionou e Eiro assentiu.

— Presumo que sim. Você deve saber muitas coisas sobre mim que tornariam isso mais crível. Coisas sutis, difíceis de expressar em palavras, são as que mais devem ajudar. — O demônio respondeu e Solomon aceitou. O que mais ele poderia fazer além disso, afinal?

— Agora, o que irá fazer? Fundir-se com esse cara e procurar pela fonte da magia, certo? — Clark perguntou com as mãos atrás da cabeça e o Diabrete olhou para Solomon.

— Esse era o plano?

O Rei assentiu.

— Claro que esse era o plano. Não sei como a fusão funciona, entretanto. Você não explicou isso para mim. — Solomon comentou e Eiro olhou para Sarius, esticando sua mão para a Salamandra, que o encarou confuso.

— O que você quer dizer? Você quer se fundir comigo? Você é idiota? — Sarius questionou e Eiro suspirou ligeira.

— Não, não sou. — Ele disse, empurrando as mãos na direção do Espírito e tentou puxá-lo para si, como se tentasse se fundir com alguma magia regular, liberando o efeito logo depois.

Sarius recuou um pouco e encarou Eiro com uma expressão assustada.

— O que diabos foi isso?

— Nós nos fundimos um pouco. Vamos lá, vamos fazer isso. Não é uma sensação desagradável, se me recordo direito. — O Demônio explicou e Sarius rosnou enquanto flutuava em direção ao peito de Eiro. Mesmo ele estava um pouco interessado no que aconteceu. Com um empurrão rápido, Sarius afundou no centro do peito dele e o Demônio sentiu enquanto se fundiam. Os braços, pernas e costas de Eiro ficaram cobertos por escamas. Algumas eram vermelhas escuras e outras tinham uma cor azul-claro, como se as escamas formassem algum tipo de padrão.

O resto da pele de Eiro escureceu em muitos tons, como se alguém tivesse esfregado um pouco de carvão nele e não o tivesse lavado adequada. Os chifres do Diabrete começavam a se agitar um pouco e se incendiaram, queimando. Ou melhor, eles eram as chamas em si, cada um queimando com uma cor diferente que correspondia ao chifre.

Eiro retirou sua capa para que conseguisse ver como seu corpo havia se transformado e então esticou suas asas. Assim que fez isso, elas mudaram e se tornaram uma massa de chamas. Seus olhos ainda estavam ali como base, mas o resto das asas foi substituído por fogo. Ele não tinha certeza se conseguiria voar assim, mas não queria tentar dessa forma.

Por ora, o Demônio envolveu suas asas ao redor do seu corpo o cobrindo, da mesma forma que Sarius usava sua capa de chamas para cobrir seu corpo, como se fosse um acessório.

Agora Eiro era capaz de ver o fluxo de magia ao seu redor. A forma como seu próprio corpo e o calor criado dele emanava para o ambiente alterava ligeiramente o fluxo da camada de mana presente em todo lugar.

Era algo que Eiro não se recordava de notar, como se cada movimento que alguém desse impactasse leve essa fina camada de mana. Ele não tinha certeza se notara essa camada da última vez que se fundiu com um espírito, mas a percebeu agora. Eiro era capaz de ver os músculos de Solomon e Clark se contraindo em seus corpos, conseguia ver seus batimentos e respirações e tudo isso através de fluxos sutis de mana ao redor do cômodo.

Então, o Demônio caminhou na direção da janela, olhando para a tempestade de neve, tão forte como sempre. Eiro respirou fundo enquanto se preparava. O Demônio se virou e olhou para as duas pessoas paradas ali.

— Cuidem do Cervo enquanto eu estiver fora, por favor? Vamos esperar que possamos acabar com isso em breve. — O Diabrete disse e abriu a janela. A neve entrou no cômodo, mas Eiro não se importou, nem mesmo quando Solomon começou a gritar com ele.

O demônio escalou o parapeito da janela e pulou com o máximo de força que conseguia. Durante o pulo, Eiro começou a bater suas asas e, por sorte, era capaz de se manter no ar com essas asas, embora não aparecesse. Claro que ele não deveria ser capaz de voar assim.

Eiro não deveria ser capaz de fazer muitas das coisas que fazia com relativa facilidade, então não havia motivo para ser tão exigente com isso.

Eiro voou pela tempestade de neve severa. A neve pesada derretia antes mesmo de encostar no Demônio e ele tinha certeza de que, se houvesse alguém abaixo dele, conseguiria ver que Eiro estava ali. Embora não fosse provável que conseguissem ver quem ou o que ele era, isso não era um problema tão grande.

O Diabrete olhou ao redor da cidade, tentando encontrar algo, mas não importava o quanto tentasse, não conseguia encontrar nenhuma massa de mana grande. Caro, havia alguns locais com bastante mana, mas eram lugares esperados, centros de pesquisas mágicas, casa de nobres onde ferramentas mágicas eram usadas e pousadas onde muitos aventureiros ficavam. Muitos magos tendiam a praticar magia se não tivessem mais nada para fazer e, neste tipo de clima, não havia mesmo muito o que ser feito.

Além disso, a magia repugnante que estava fundida com esta tempestade estava meio que borrando a visão que Eiro tinha da magia desta cidade, como se colocasse uma camada sobre seus sentidos. Ele sabia que teria que voltar para o chão se quisesse encontrar algo adequado, mesmo que fosse demorar muito mais do que se procurasse do ar.

Com um suspiro irritado, o Demônio caiu no chão e cobriu seu corpo com sua capa para se esconder de novo. Felizmente como suas asas e chifres se tornaram chamas, Eiro conseguia controlá-las com bastante facilidade e as extinguiu para ter certeza de que conseguiu vestir uma roupa adequada.

O Diabrete caiu em direção ao chão e usou magia para atenuar sua queda e parou logo antes do impacto, permanecendo parado no meio da rua por alguns instantes.

— … O que eu estava fazendo mesmo? — Eiro murmurou para si e logo escutou os pensamentos de Sarius dentro da sua mente.

{Procurando por uma fonte alta mágica para o condutor do feitiço. Concentre-se, idiota. Olhe agora para a merda do seu livro.}

Com uma respiração profunda, Eiro permaneceu ali por um momento e tentou espalhar sua consciência em direção a todos os locais que conseguia alcançar. Sentiu as flutuações da mana ambiente um pouco mais fácil assim. Ainda era bastante difícil por causa do feitiço misturado com a tempestade, mas, no geral, estava bom. Eiro percebeu um aspecto sobre isso que não considerou até agora.

Ele não deveria tentar olhar através da tempestade para procurar pela cidade e sim olhar para a tempestade. O que Eiro procurava era algo que fortalecesse este feitiço em primeiro lugar. Isso significava que, se olhasse para a própria tempestade e a forma como ela fluía, Eiro deveria ser capaz de descobrir a localização dessa massa de mana ao entrar na tempestade.

Com tais pensamentos, Eiro correu pela tempestade ao longo do fluxo desta magia desconfortável fundida com ela. O Demônio conectou seus pensamentos com esse fluxo e se permitiu ser carregado. Ele tentou analisá-lo, descobrir como funcionava e que tipo de magia era, em primeiro lugar, desde que era tudo, menos pura. Era de fato repugnante perversa.

Eiro seguiu o fluxo de magia e, no fim, conseguiu estreitar a locação da ‘fonte de poder’ para uma área específica da cidade. Bem, uma área que correspondia a cerca de 10% de toda a cidade. Era muito menor, mas ainda era bem grande.

O Diabrete tentou chegar ao centro desta área de 10% para espalhar sua consciência mais uma vez. Talvez desta vez tivesse mais sorte. Para isso, Eiro entrou em um bar aleatório e pediu algo para beber enquanto esperava, tentando espalhar sua magia daqui, ao mesmo tempo que Sarius fazia o seu melhor para manter o Demônio sob controle. Não era seu ponto forte, mas ele tentou seu melhor. Ele não queria que Eiro fizesse alguma merda e descobrissem que ele era um demônio, afinal.

Mas, assim que Eiro começou a trabalhar nisso, parecia que chamou a atenção de alguém. Ele era um homem alto, embora ainda fosse menor que Eiro. Ele tinha uma pele clara e parecia ser algum tipo de elfo.

— Ei. O que você acha que está fazendo? — Ele perguntou com uma carranca profunda e Eiro olhou para ele.

— Nada demais. Praticando minha magia. Não posso fazer muito mais neste clima, posso? Incomodei você? — Eiro respondeu e o Elfo coçou a parte de trás da sua cabeça.

— Ah, desculpe, eu acho. Estou meio nervoso. Esta tempestade de neve está me deixando maluco, há algo de estranho sobre ela. Tem esse relatório sobre um demônio vagando por aí com o qual tenho que lidar… — O elfo muito bêbado comentou enquanto se sentava ao lado de Eiro com um resmungo alto. — Então? Qual é o seu nome? — O elfo perguntou.

O Elfo estendeu sua mão, mas Eiro notou que algo estava estranho. Era uma prótese, mas ele conseguia movê-la bem. O demônio não percebeu quando ela estava pendurada. Ele notou que o elfo tinha membros claros e, além disso, tinha uma cicatriz feia em metade do seu corpo. Devia ter sido algum tipo de acidente.

— Sou Eiro. Você parece sensível à magia? É um Elfo Superior? — Eiro perguntou surpreso e o homem balançou a cabeça.

— Nah. Elfo da Luz… Oh, aliás, meu nome é James.

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