
Volume 3 - Capítulo 285
A Virtude do Demônio
Eiro balançou sua mão para o lado para se livrar de todo o sangue e fragmentos de cérebro que estavam presos nela. Era uma sensação bastante desagradável, se ele tivesse que ser honesto. As massas pegajosas deslizavam pelo seu corpo.
O demônio olhou ao redor, notando que o tempo ainda estava congelado. Eiro encarou o cadáver na sua frente e se abaixou para pegar o anel, que retirou do dedo da mulher. Depois de inserir um pouco de mana dentro dele, o tempo começou a fluir de novo. Parecia ter levado um tempo para Clark e Sarius descobrirem o que aconteceu e como Eiro conseguiu chegar ao outro lado da sala quase instantaneamente, fazendo com que Clark encarasse o Demônio confuso.
— V-Você consegue teletransportar? — Ele questionou e Eiro inclinou a cabeça para o lado.
— Não. Esta mulher parou o tempo e, por algum motivo, essa habilidade não funcionou tão bem comigo. Ainda conseguia pensar quando isso acontecia e consegui interagir com o anel ao inserir minha mana nele. Então a matei. — O Demônio comentou. Porém, isso não ajudou em nada a surpresa da Clark.
Na verdade, a tornou ainda pior. Até mesmo Sarius ficou um pouco assustado com essa confissão súbita. De qualquer modo, Eiro olhou para as etiquetas que seguia. Ele ainda era o rank 2… parecia que esses membros ‘especiais’ estavam fora dos ranks normais. Ainda assim, Eiro ficou bastante feliz por ter conseguido um item tão incrível. Ele não conseguiu se lembrar de tudo mais, mas, pelo que tinha ciência, usou um item parecido com este anel para matar um inimigo que era muito forte em algum momento. Utilizando isso, Eiro deveria ser capaz de derrotar inimigos mais fortes com facilidade.
Bem, se ele recordasse que possuía isso, pelo menos. O Diabrete guardou o anel em sua tesouraria, então olhou para Clark e Sarius.
— Certo, vamos.
Sem hesitação, Eiro abriu a porta na frente dele, onde se deparou com o cheiro de muitos cadáveres queimados. Ele não sabia o que aconteceu com as pessoas aqui, mas não se importava também.
Antes de prosseguir Clark correu até ele e segurou seus braços.
— O que está fazendo? Não esqueceu de nada? — Ele perguntou e Eiro o encarou com uma expressão confusa, fazendo com que Clark resmungasse alto. — Desculpa, é claro que você esqueceu. Vista suas roupas e aquela sua máscara, ou seremos caçados.
— Hm? — Eiro respondeu, percebendo depois do que sua escolta falava. O Demônio olhou dentro de si e encontrou os itens que achava serem os corretos e logo estava vestido com eles de novo. — Podemos ir agora, ou esqueci mais alguma coisa?
Clark olhou para Eiro, desde que ele falava de uma forma bastante sarcástica, mas a escolta ainda tinha que se acostumar ao fato de que, neste caso, Eiro não usou nenhum sarcasmo. Ele perguntou de verdade se esqueceu ou não algo.
— Não, acho que não, mas, desta vez, por favor, fique perto de mim. Sarius, por favor, também preste atenção nele, ou ele vai acabar se matando, nós dois e talvez todos aqui nas favelas. No pior acaso… talvez até mais que isso.
— Quem você acha que é para me ordenar, bastardo? — Sarius respondeu, nem um pouco disposto a aceitar os comandos ou pedidos de alguém, muito provavelmente nem os de Eiro.
Clark começou a ranger os dentes irritado, os motivos para isso eram bem óbvios.
— Solomon, sei que te devia uma, mas agora você me deve dez vezes…
Tentando ignorar o resmungo de Clark, Eiro saiu da sala e atravessou este espaço cheio de corpos. Após isso, só tinha que atravessar o túnel e já estaria de volta no espaço principal do mercado negro.
Como Eiro já havia esquecido a maioria do que viu aqui, sua curiosidade extrema quase teve a melhor sobre ele, mas Clark decidiu colocar sua mão no ombro do Demônio para se assegurar de que ele não poderia correr e para que pudesse acordá-lo caso ele começasse a se concentrar em algo sem importância.
Mas, assim que a dupla saiu pela porta, enquanto Sarius entrava no espaço intermediário entre os Reinos no qual Eiro poderia vê-lo, um grupo de pessoas se aproximou.
— Ei, vocês dois. O que diabos aconteceu aí? — Um deles perguntou e Eiro olhou para ele. Ele tinha algumas tatuagens com uns padrões estranhos em seu corpo, assim como a maioria dos outros. Provavelmente eram parte de algum tipo de grupo religioso, se tivesse que adivinhar.
— Oh, eu destruí tudo que havia ali dentro. Foi meio satisfatório, na verdade. Embora eu não entraria se fosse vocês, o cheiro é horrível. — O Diabrete admitiu sem hesitar e passou pelo homem que falou com ele, mas ele não deixaria que isso acontecesse. Ele tentou segurar o ombro de Eiro, mas antes que conseguisse Eiro já havia se virado e chutado. Ele acertou o queixo do homem e o empurrou alguns metros, o fazendo cair no chão com o maxilar quebrado e inconsciente.
Assim que Eiro fez isso, um choque poderoso em seu pescoço o fez se virar.
— Ei, para que foi isso?! — Ele questionou e Clark olhou de volta para ele com um sorriso irônico.
— Para que você não matasse ninguém aqui. Ninguém vai te atacar por uma briguinha aqui ou ali, mas tente não provocar ninguém. Entendeu?
— … Certo. Entendido. — O Demônio disse enquanto olhava para o homem no chão, que acordava devagar.
— Urgh… O que acabou… — Ele gaguejou e Eiro esticou a mão para ele.
— Desculpa por isso, você me assustou. Veja, aquele grupo fez algo horrível comigo, então eu fiz o que tinha que fazer e os aniquilei. — O Diabrete explicou e o homem estendeu a mão para Eiro por instinto, pois ainda não estava muito consciente, mas, quando percebeu o que ele estava dizendo, já era tarde demais.
Eiro segurou a mão do homem e inseriu uma grande quantidade de mana nele, entrelaçando-a com a do homem. O Demônio sabia que o homem estava com muita dor, este era o objetivo, afinal. Por isso, focou sua mana ao redor da garganta do homem e causou espasmos imensos para que o ar não passasse por ela.
Dessa forma, o homem não poderia gritar, nem respirar, o que lhe causaria ainda mais destruição. Tanta mental quanto física, ambos estavam ótimos agora.
—Entendeu? Se alguém tenta fazer algo comigo, eu os aniquilo sem hesitação. É assim que as coisas funcionam neste submundo, não é? Matar ou ser morto, sobrevivência do mais apto. Pode ter certeza de que neste lugar, eu sou o Rei. — Eiro sussurrou, fazendo sua voz ser escutada pelo homem que segurava.
Então, tudo o que Eiro fez foi levantá-lo, mas as pernas do homem cederam e, mais uma vez, caiu de joelhos, batendo sua face no chão. Seus companheiros encaravam Eiro confusos e até mesmo alguns espectadores estavam curiosos com o que estava ocorrendo, mas Eiro se agachou e segurou o pescoço do homem, colocando seus dedos em suas veias, como se sentisse os batimentos dele.
— Não se preocupe, ele está bem. Não percebi que o chutei com tanta força. Aqui, pegue isso e leve-o até um curandeiro.
Os companheiros do homem pareciam um pouco confusos enquanto Eiro pegava um saquinho de moedas e entregava para eles. Eiro percebeu que, no fim das contas, o dinheiro era a única coisa tão poderosa quanto força ali embaixo e muitas pessoas eram espancadas e recebiam dinheiro para não retaliar. Portanto, Eiro decidiu que deveria fazer o mesmo e as pessoas aceitaram, ainda mais depois do motivo que contou a elas. Foi um que as acalmou com mais facilidade do que qualquer outra decisão que Eiro poderia ter feito.
— Peguem isso e comprem um cérebro antes de tentarem enfrentar alguém muito mais forte que vocês.
De qualquer forma, por ora, isso foi resolvido com mais facilidade do que uma luta, o que teria gerado ainda mais agressão. Eiro anotou os padrões que havia nos corpos desses homens, por precaução e então foi escoltado por Clark para fora deste lugar.
Eiro queria fazer algumas paradas para comprar algumas coisas, ou olhar, mas Clark fez um trabalho muito bom em mantê-lo focado no que deveria fazer. Logo começaram a subir a longa e estreita escadaria para chegar às favelas de novo, onde o trio caminhou em direção ao lugar onde disseram que encontrariam Solomon, agora que tinham finalizado a missão.
Eiro formou um contrato com um espírito, recebeu a bênção de um rei dos espíritos e se fundiu com um portal espiritual em seu próprio corpo. Isso saiu um pouco além das expectativas de Eiro, mas foi na melhor direção possível.
— Então, tudo correu como planejado? — O Rei perguntou com um pequeno e nervoso sorriso em seu rosto e Eiro olhou para o lado enquanto Sarius aparecia ali, seu corpo se formando a partir de chamas brilhantes.
— Acho que pode se dizer isso.
— Perfeito! Uma salamandra. Você deve me contar como conseguiu encontrá-la e, especialmente como conseguiu firmar um contrato com ela. — O Rei comentou, encarando Clark. — Espero que ele não tenha causado muitos problemas.
Clark encarou Solomon de volta.
— Se eu ficar com cabelos grisalhos, a culpa é sua.
Confuso, Eiro olhou de volta para a escolta.
— O que você quer dizer? Você já possui cabelos grisalhos, certo?