A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 284

A Virtude do Demônio

Eiro e Sarius estavam trocando mana um com o outro para firmar seu contrato e, alguns instantes depois, o Demônio e o Espírito concluíram a tarefa.

— Certo, o que faremos agora? Já vai me ensinar? — Sarius questionou enquanto esfregava seu pescoço coberto por escamas com suas garras. Até agora, Eiro não havia dado uma boa olhada nele, ou pelo menos não se concentrou nisso.

Ele tinha uma pele de cor de carvão semelhante à do Rei das Salamandras, embora o corpo de Sarius fosse coberto por muitas escamas vermelhas. Suas pernas, braços e costas eram cobertos por elas. Embora a maior parte do seu torso fosse sua pele. Seu corpo estava envolto constantemente por chamas, como se vestisse um tipo de capa de fogo, além disso, acima da sua cabeça havia um cabelo como o do Rei. Por fim, no centro da sua testa, havia um pequeno chifre.

Depois de refletir, assim que deu uma boa olhada no corpo de Sarius, o Demônio olhou para seu caderno tentando descobrir qual era a próxima parte do seu plano.

— Hmm… Nada agora. Primeiro, precisamos voltar à superfície nos encontrar com Solomon e contar o que aconteceu. Certo? — Eiro perguntou enquanto olhava para Clark, que acenou com a cabeça.

— Uhum, gostaria de conversar com ele também. Sem ofensa, mas teria apreciado se tivesse sido informado que escoltaria um demônio.

— Espera, escoltas não deveriam ser mais fortes do que aqueles a quem protegem? Caso contrário, não seriam inúteis? Quero dizer, você é bastante inútil, não é? — Sarius perguntou com um leve sorriso, flutuando até Clark, que resmungou baixinho e cruzou os braços.

— Não, uma escolta não precisa ser a mais forte. Ela só precisa se certificar de que nada aconteça com a pessoa escoltada e liderar o caminho. Se eu não estivesse aqui, tenho muita certeza de que Eiro acabaria destruindo todo este espaço subterrâneo e esmagado tudo e todos. Incluindo aquela letra. Então, todos os Vulcani teriam morrido. — Clark comentou enquanto se virava. — Não precisa me agradecer.

Mas Sarius deu de ombros.

— Legal, não planejava fazer isso mesmo.

— Sarius. — O Rei das Salamandras disse com um tom claro e o Espírito se virou devagar.

— Sim.

— Comporte-se.

— S-Sim… — Sarius respondeu nervoso, com a pressão que sentia pela voz e olhar do Rei, que voltou sua atenção para Eiro de novo.

— Devo agradecê-lo. Por muitas coisas. Se algum dia precisar da minha ajuda, farei tudo ao meu alcance para ajudá-lo.

Eiro assentiu.

— Obrigado. O mesmo pode ser dito de mim, mas duvido que haja muito mais que eu possa fazer por você.

— Isso não é verdade. Você é um jovem poderoso, com um futuro brilhante pela frente. Tenho certeza de que fará grandes coisas e alcançará grandes alturas. — O Rei dos Espíritos disse. — Tenho confiança de que no futuro não sentirei nada além de orgulho quando lembrar dos nossos encontros, mas, agora, devo me despedir, até que nos encontremos mais uma vez. — Devagar, o Rei se virou e foi envolvido por chamas. Assim que essas chamas desapareceram, o Rei também se foi.

Assim apenas Clark, Sarius e Eiro restavam neste espaço, mas, de alguma forma, Eiro ainda sentia uma sensação estranha dentro dele. Como se estivesse esquecendo de um detalhe muito importante, o qual o faria se arrepender muito, muito em breve.

Assim que o Diabrete pensou nisso, a saída foi quebrada de forma violenta enquanto uma mulher entrava na sala. Por ora, Eiro conseguiu reconhecê-la. Era aquela que conheceu na organização. Foi ela quem deu as missões para Eiro. Neste ponto, ele percebeu que também deveria ter afetado aqueles da organização então todos devem ter sido informados de alguma forma, certo?

— Ah, você é aquela… Marca de Exclamação da organização, certo? — O Demônio perguntou surpreso e a mulher franziu o cenho enquanto o encarava de volta.

— Sou eu, mas não sei quem ou o que você é, como um monstro conseguiu entrar na organização sem nosso conhecimento e por que você ousaria quebrar uma das poucas regras que estabelecemos. — A mulher ressaltou. Eiro inclinou sua cabeça para o lado em contemplação, mas não conseguiu se lembrar de nenhum tipo de regra, não importava o quanto tentasse.

Então, perguntou:

— Que tipo de regra exata você está falando?

Com um suspiro profundo, a Marca de Exclamação explicou.

— Números não podem matar Letras às cegas. Portanto, agora você será exterminado. — A mulher disse, estalando seus dedos sem esperar que Eiro fizesse ou falasse algo. O anel dela começou a brilhar quando tudo ao redor de Eiro congelava. O demônio havia visto isso antes. O tempo foi parado através de um artefato artificial que a organização criou. Se conseguisse colocar suas mãos nisso… Então, seria mais do que útil.

Com um resmungo profundo, a mulher caminhou na direção de Eiro.

— Certo, vamos terminar com isso, mas, sério, como um demônio se juntou à organização? E como ele me conhece…? — A mulher questionou e Eiro a encarou de volta. Ele não conseguia usar nenhuma outra parte do seu corpo. Por outro lado, descobriu que havia uma coisa que ainda poderia utilizar. Como mente a de Eiro não era afetada, ainda conseguiu utilizar sua mana, a qual ele espalhou na parte onde imaginava que a Marca de Exclamação encostaria para ‘exterminá-lo’.

E, assim como pensou, ela fez isso, colocando a palma contra a testa do Demônio, mas neste instante Eiro conseguiu interagir com o anel no dedo dela com sua própria mana e ativá-lo. Quando fez isso, empurrou sua mão para frente na maior velocidade possível. Isso foi inesperado para a Marca de Exclamação. No entanto, como não veio com outras contramedidas, uma pequena barreira se formou onde Eiro tentou atingi-la. Normalmente a mão dele teria atravessado ela, quebrado sua espinha e destruído seus órgãos, mas ela foi jogada em direção ao outro lado da sala e quebrou algumas costelas.

— Poderia não fazer isso? Estou meio ocupado, sabia? Se estiver tudo bem para você, podemos fingir que isso nunca aconteceu. Você me deixa subir na hierarquia da organização, desde que meu rank já aumentou depois que matei aquela letra de qualquer forma e então eu não te mato depois que eu eliminar os altos escalões da organização. Como isso soa? — O Diabrete sugeriu enquanto a Marca de Exclamação se levantava, ainda sem entender o que tinha acontecido.

— M-Mas… Não seja ridículo, eu-

— Ah… então, não? Tudo bem, também posso te matar aqui mesmo. Não me importo. Esse seu jeito idiota de impor essa regra boba deve ser algo que vocês adicionaram em primeiro lugar, então eu posso matar qualquer um que eu quiser e subir na hierarquia até vocês não poderem fazer mais nada. Certo?

A Marca de Exclamação o encarou de volta com um olhar profundo enquanto tentava apontar sua mão para frente. Parecia que ela tentava disparar um feitiço no demônio, mas Eiro não se importava. Ela estava conjurando por meio do anel em sua mão, então não foi afetada pela parada do tempo.

Mas não tinha importância. Marcas de exclamação não eram tão fortes se comparadas às letras. Na verdade, eram Marcas de Exclamação porque são muito fracas para se tornarem Letras, mas fortes demais para serem simples números. Pelo menos foi isso que Eiro concluiu até agora.

E estava confiante de que não perderia para alguém que nem conseguia se tornar uma letra. Ele empurrou seu pé no chão, avançou e, antes que a mulher pudesse conjurar seu feitiço, o Demônio a golpeou no estômago de novo.

Mais uma vez, a barreira impediu o ataque simples e contundente do Demônio. Como a mulher já estava com as costas contra a parede, não foi empurrada muito mais e Eiro era capaz de continuar a golpeá-la enquanto a força percorria o corpo dela e entrava na parede atrás. Ela se quebraria em pedaços se isso continuasse, considerando a velocidade com que Eiro socava o membro da organização.

Mas não importa o que ele fizesse, a barreira não quebrava, mesmo quando a mulher dentro dela estava quase ficando inconsciente devido às forças contundentes que sentia, apesar de não sentir o impacto do ataque.

— P-Por favor, p-pare…

— Não, obrigado. — Eiro respondeu enquanto continuava a esmurrá-la. Foi um pouco problemático que ele havia se esquecido de uma regra tão importante… Senão, teria deixado o Rei das Salamandras finalizar a letra, mas, por outro lado, havia algo estranho acontecendo e Eiro não sabia o que era.

A etiqueta havia sido atualizada e ele recebeu um rank mais alto depois de matar a Letras. Atualmente era o Número 2 e tudo o que tinha que fazer era matar o Número 1 para se tornar uma Letra, oficialmente pelo menos.

Mas por que a etiqueta atualizaria se ele quebrou uma regra dessa forma? Ele não deveria ter sido expulso? Por que enviariam um executivo tão fraco depois que alguém matou uma letra de classificação decente? Provavelmente nunca tiveram que lidar com isso desde que Letras não eram mortas por Números com tanta frequência, mas a regra ainda era bastante irritante. Isso não fazia sentido para Eiro.

No fim, refletiu sobre isso várias vezes, até que chegasse a uma conclusão que fazia muito sentido.

— Ah… A organização não é nada além de um ramo de algo muito maior, não é mesmo? — Eiro perguntou sem pestanejar e a Marca de Exclamação o encarou em choque.

— D-Do que v-você está fa-falando…?

— Hm…? Você não sabe…? Bem, se eu me lembrar daqui a alguns dias, investigarei isso. Por ora… — Eiro se levantou, colocando seu pé na cabeça da mulher. Ele aumentou sua força cada vez mais, fazendo a barreira brilhar. No instante em que a barreira se estilhaçou em pedaços, a cabeça da mulher também, e Eiro já esquecia o que estava fazendo.

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