
Volume 3 - Capítulo 283
A Virtude do Demônio
— Eu fiz tudo isso por conta própria… — O Demônio murmurou enquanto escrevia tudo que foi dito por Clark em sua caverna. Alguma informação ainda foi perdida devido ao fato de que Clark era incapaz de recordar todos os detalhes do que acontecia ou foi escrito dentro das partes queimadas do caderno que Eiro usava antes.
— Sim, você fez. Não foi interessante, foi irritante. Muito, muito problemático, na verdade. — A escolta suspirou, escutando um som dentro do espelho vazio atrás dele. Ele virou a cabeça e viu o Rei das Salamandras se aproximando com uma Salamandra em chamas brilhantes atrás dele, uma que claramente não queria estar aqui.
Clark se levantou. Ao ver o que ele fez, Eiro seguiu o exemplo e se levantou também enquanto olhava para o Rei dos Espíritos se aproximando.
— Voltei. Junto com Sarius. — O Rei das Salamandras explicou e o espírito em questão que flutuava atrás dele espiou as duas figuras paradas ali.
— Então, quem é ele? Esse homem entediante ou o Demônio idiota fingindo ser esperto ao tentar ler um livro vazio? — Sarius questionou com um pequeno sorriso na face e o Rei virou a cabeça e o encarou.
— Sarius, fale isso mais uma vez e eu-
Antes que o Rei das Salamandras fosse capaz de terminar a sentença, Eiro já havia assumido o papel de punir Sarius. Sem hesitação, caminhou até ele e agarrou o corpo do espírito com a mão. As chamas que ele exibia por estresse foram um pouco irritantes a princípio, mas foi um susto inicial. Logo, Eiro não foi mais ferido por essas chamas devido à Bênção do Rei das Salamandras.
O Demônio encarou a Salamandra que estava em suas mãos e observou enquanto uma névoa era criada devido ao ar esfriar ao redor dele. Óbvio, ele começou a tremer devido ao frio imenso ao qual não estava acostumado. Ele não morreria, isso estava claro para Eiro desde o começo, mas ainda deveria machucá-lo um pouco. No mínimo, deveria irritá-lo.
— O que você está fazendo, seu idiota?
— Quieto. — Eiro disse com um tom severo, enquanto encarava nos olhos do Espírito. — Pare de agir como um pirralho e reconheça que sou mais forte que você. Você formará um contrato comigo. Você me acompanhará. Você aprenderá a confiar em mim e eu aprenderei a confiar em você. Você aprenderá a como controlar seu poder e entenderá as coisas que precisa para se tornar o próximo Rei das Salamandras. — O Demônio rosnou, olhar de repente para o Rei dos Espíritos. — Espera, era por isso que você queria que eu formasse um contrato com ele, certo? Só me recordo de algumas partes, mas esta é a conclusão a que consegui chegar… — O Diabrete comentou e o Rei assentiu.
— De fato. Esses são os motivos pelos quais eu gostaria que você formasse um contrato com esta criança.
A Salamandra encarou seu Rei com um olhar confuso.
— O que diabos você quer dizer?! Quer que eu firme um contrato com este demônio sujo, repugnante e violento?! Nem fodendo! — Ele exclamou, com a temperatura das suas chamas aumentando imensamente, tanto que Eiro teve que soltá-lo.
Com um estalo de sua língua, o Demônio encarou Sarius.
— Ótimo, então você não me deixa outra escolha. — Eiro disse e a Salamandra o encarou. Ele puxou ambos os braços para trás e os golpeou na direção de Eiro, criando raios espessos de chamas direcionados para o rosto do Demônio.
Mas eles não acertaram, porque Eiro desviou. Entretanto, esse desvio não foi uma reação. Aconteceu por coincidência, pois Eiro estava ajoelhado na frente de Sarius, uma tática oposta à de antes.
— Por favor! Preciso de sua ajuda. — O Diabrete disse sem pestanejar. Ele ajoelhou na frente da Salamandra e começou a explicar sua situação, tentando dizer as coisas que pudesse complementar com a ajuda das suas anotações, embora isso fosse bastante complexo. Ainda assim, Eiro tinha que firmar este Contrato Espiritual, então sentia que valia a pena esquecer mais algumas coisas com o objetivo de salvar suas crianças desse feitiço violento.
Sarius encarou Eiro, enquanto ele explicava a situação e não apenas a Salamandra, como o Rei das Salamandras e até mesmo Clark ficaram bastante surpresos de escutar algumas das coisas que Eiro estava dizendo a eles, afinal, nenhum deles teve a chance de ouvir tanto sobre o passado de Eiro. Então, agora que este tanto foi revelado, todos tinham uma perspectiva diferente sobre o Demônio.
Até mesmo Sarius tinha que admitir isso.
— Então, você está dizendo que precisa da minha incrível habilidade para fazer seus filhos se recordarem de novo. Precisa especificamente de mim para isso?
Eiro olhou para o Espírito e balançou a cabeça.
— Na verdade, não, qualquer Espírito serviria.
Com um olhar profundo, a nova opinião que Sarius tinha sobre Eiro foi arruinada de novo.
— Ei, não é assim que se pede ajuda de alguém, seu fodido.
— Não me entenda mal. Eu disse que não preciso de você para formar um contrato comigo. Isso não significa que não queira você. Pediram-me para ajudá-lo e assim o farei. Manterei minhas palavras, mesmo que não consiga me recordar delas esses últimos dias. Portanto, deixe-me dizer a forma como irei cumprir minha promessa ao seu Rei: eu o tornarei mais forte. Você pode não receber mais poder bruto, mas quanto mais controle conseguir, mais pode utilizar desse poder. Eu treinarei você neste controle. Te ensinarei tudo o que precisa saber sobre esse mundo, afinal, talvez eu precise reaprender muitas delas. Eu te transformarei em um ser que é digno de ser um Espírito Superior. — Com uma dedicação profunda dentro de seus olhos, Eiro travou seu olhar com Sarius. Por um instante, ele desviou o olhar um pouco assustado, mas então percebeu que Eiro falava sério.
— Você irá me tornar mais forte? T-Tem certeza de que consegue fazer isso? — Sarius questionou com um sorriso irônico, enquanto encarava o Demônio, aparentemente tentando insultá-lo. — Um ser inútil como você que não consegue nem manter suas próprias memórias! Como você acha que conseguirá me ensinar algo, hein?! — A Salamandra exclamou e Eiro se levantou do chão. Ele deu um passo para o lado e olhou ao redor, até que encontrou um local bom o suficiente. Eiro caminhou até o buraco no domo de vidro que antes encapsulava o portal espiritual. Todos os Espíritos dentro já haviam saído para o Reino Espiritual, então Eiro tinha liberdade para fazer isto.
Ele apontou sua mão para frente e usou o poder que não tinha há muito tempo, mas já descobriu como utilizá-lo devido às suas habilidades permitirem que chegassem a tais conclusões com velocidades imensas.
O Diabrete abriu uma pequena fenda entre ele próprio e o plano elemental de fogo e usou essas chamas brutas e poderosas a seu favor. Concentrou todo esse poder na frente da sua palma em um único ponto. No fim, depois de um minuto ou dois de compressão constante, não era maior do que uma pequena moeda.
Assim que terminou, Eiro empurrou este orbe de fogo comprimido em direção ao centro desse domo de vidro, enquanto se afastava, instruindo que os outros fizessem o mesmo, por precaução. O Demônio continuou se concentrando o orbe ser comprimido, tentando não o deixar explodir, apesar de quão difícil era. A partir de uma certa distância, Eiro não conseguia mais se mover e tinha que manter seus olhos fechados para que conseguisse controlar. Desse modo, isso não era viável em uma luta, mas ainda era muito útil para impressionar um espírito malcriado.
— Então…? O que isso deveria ser? É tão pequeno como uma faísca! O quê, está tentando impressionar com quão longe consegue mover esta pequena faísca? — A Salamandra perguntou. Era óbvio que ele sabia que isso não era verdade, só estava um pouco nervoso, afinal, conseguiu ver a quantidade de magia comprimida em um único ponto.
Eiro abriu os olhos e encarou Sarius por um segundo, levantando o braço. Apontou seu indicador em direção ao orbe e levantou seu dedo para formar uma arma com seus dedos, então sorriu ligeira.
— Bang.
De imediato o orbe pequeno se descomprimiu e preencheu todo esse domo com chamas poderosas quase num instante. Uma grande quantidade dessas chamas desceu pela única abertura criada pela letra S de antes.
Era por isso que Eiro avisou a todos para se afastarem. A Salamandra encarou o Demônio com um sorriso enquanto flutuava ao lado dele e observava a tempestade de chamas devastar o domo de vidro. Parecia que até mesmo o Rei das Salamandras ficou impressionado com a quantidade de controle que Eiro já demonstrava sobre o portal recém-absorvido, nem mesmo uma hora depois de absorvê-lo.
— Isso é tudo? Isso não é nada, sabia? Até eu consigo criar chamas tão fortes! — Sarius exclamou e Eiro retribuiu com um sorriso.
— Sério? Bem, então que tal tentar impedir essas chamas? Não se preocupe, não estou as controlando agora. — O Diabrete comentou e a Salamandra o encarou.
— Hmph… Tudo bem. — Sarius disse, flutuando até um local onde poderia acessar as chamas. Por ora, tentou empurrá-las de volta para o domo para lidar com elas, tentando pressioná-las de volta em um pequeno orbe. Na verdade, Eiro ficou surpreso com quão bem ele conseguiu usar seu poder bruto, mas todas as chamas saíram de controle de novo.
Com um sorriso, Eiro olhou para a Salamandra.
— Sabia que se você pode retirar chamas de um plano elemental, também é possível devolvê-las? — O Demônio comentou enquanto assumia.
Desse modo, em vez de tentar comprimi-las de novo, ele puxou todas as chamas para sua palma. Essa pequena exibição consumiu a maioria da mana de Eiro, mas valeu a pena. Dentro de alguns instantes, todas as chamas desapareceram sem deixar rastros.