A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 282

A Virtude do Demônio

Eiro estava parado no centro deste espaço amplo, olhando para a notificação que apareceu na sua frente com uma mente um tanto confusa e caótica. Ele não tinha certeza do que ocorreu, sabia que não era isso que o Rei das Salamandras queria.

O Demônio olhou para o rosto bastante irritado do rei na sua frente e explicou os pedaços que ainda se lembrava do que aconteceu. Assim que fez isso, o Rei dos Espíritos não disse nada e o encarou com a mesma expressão vazia por alguns segundos, como se tivesse congelado.

— Você… falou com a vontade do mundo? — Ele questionou, acreditando de alguma forma nas palavras do Demônio. — Mas eu pensava… Então, você teve uma conversa direta com ela?

Eiro assentiu enquanto olhava para o Rei, que parecia estar lidando com essa revelação. Eiro ficou feliz por ele ter acreditado de imediato, algo que não esperava que acontecesse.

Mas, de qualquer forma, isso não tinha importância agora. Ele ainda não sabia o que estava acontecendo e por que ‘absorveu’ o portal espiritual. Ao ver que era muito provável que ele estivesse pensando sobre isso, o Rei das Salamandras explicou sem hesitação o que ele presumia ser a verdade nesse caso, pelo menos.

— Embora eu nunca tenha ouvido falar de algo do tipo acontecendo, acredito que é da forma como você disse. Eu havia sugerido que você se tornasse o guardião deste portal, que o protegesse e, em troca, receberia algum tipo de aumento de poder em suas chamas. No entanto, parece que foi além disso. Em vez de se tornar o guardião do portal, o portal se tornou uma parte sua. Agora, você possui uma conexão direta não apenas com o Reino Espiritual, mas também com o plano elemental das chamas, como nós, Salamandras, temos.

Eiro o encarou com suas sobrancelhas levantadas.

— Vocês são conectados aos planos elementais?

— Claro que sim. — O Rei assentiu. — É assim que conjuramos nossa magia elemental em primeiro lugar. Essa conexão com o Reino Espiritual, especificamente a parte que tem uma forte conexão com o plano elemental de fogo, é o que nos permite entrar no Reino Espiritual à vontade.

— … Então, você acha que consigo viajar entre reinos agora? — Eiro perguntou e o Rei das Salamandras olhou para ele com uma expressão complicada.

— Receio que não. O corpo de um espírito é feito de pura magia que recebeu de forma permanente. Embora você possa ser uma criatura artificial, ainda é uma criatura física. Mais do que os Espíritos, no mínimo. Entretanto… acho que você pode ser capaz de visitar o Reino Espiritual através de uma experiência extracorpórea.

— Uma experiência extracorpórea?

— De fato. Isso pode ser alcançado através de um método específico de meditação combinado com magia antiga. Sua consciência se desconecta do seu corpo físico e, em vez disso, se transforma em sua própria alma, criando um Corpo Astral. Isso permitirá que você mergulhe no Plano Astral, o qual se sobrepõe ao Reino Físico e com sua nova conexão para o Reino Espiritual e o Plano Elemental do Fogo, você deve ser capaz de visitar ambos os planos também. Seu corpo físico se tornará indefeso, no entanto. Posso ser capaz de ensinar para você, mas, em seu estado atual, seria perigoso demais para que tente. Apesar de que depois disso possamos não nos encontrar por um bom tempo, existem outros neste mundo que ainda conhecem este feitiço. Fale com eles e talvez nós nos vejamos mais cedo do que o esperado.

Eiro assentiu em resposta à explicação do Rei dos Espíritos. Este tipo de coisa seria útil no futuro, possuir uma conexão com um plano elemental, assim como o Reino Espiritual, era quase impossível que não tivesse algum tipo de impacto que aumentasse sua força. Pelo menos, pelo que Eiro conseguia sentir.

Mas, assim que Eiro estava prestes a se virar, pensando que seus assuntos haviam terminado neste lugar por ora, o Rei das Salamandras colocou a mão no ombro do Diabrete.

— Há mais uma razão para você ter vindo aqui, não há? — Ele questionou e Eiro olhou de volta para ele, surpreso.

‘Há?’ Ele real não conseguia se recordar, se é que havia.

— Você estava procurando formar um contrato com um espírito, não estava? Ver magia de forma inata não é um poder que você deve ter recebido por absorver o portal, afinal.

Então isso surgiu na cabeça do Demônio de novo depois que conectou todos os pontos em suas memórias restantes. Ele tinha que usar um espírito para procurar por aquele que estava manipulando as memórias das pessoas com a ajuda da tempestade de neve que rugia acima.

Eiro encarou o Rei das Salamandras e abriu sua boca, para falar, mas foi interrompido.

— Peço desculpas, ainda não posso formar um contrato com você. — Ele comentou. — Não importa quão intrigante seja, ainda tenho meus deveres como um Rei. Em vez disso, desejo apresentá-lo a alguém que pode fazer isso. Ele é meu sucessor, aquele que se tornará o Rei das Salamandras depois de mim. Sarius Kitmagird. Ele é bastante poderoso, entretanto, possui poder bruto. Há pouco ou nenhum controle dentro dele, já que é controlado por suas emoções.

Eiro olhou para o Rei das Salamandras, um pouco confuso, e ele suspirou.

— Sarius possui problemas de raiva. Ele é um ‘pirralho’, como muitos de vocês podem dizer e não quer agir com base na sua idade de 500 anos e, apesar de suas capacidades, recusou aprender muito sobre este mundo. Ele passou a maior parte da sua vida no Reino Espiritual devido aos seus privilégios, retornando para visitar o seu local de nascimento neste reino apenas brevemente. Por favor, peço que cuide dele e o transforme em um sucessor digno.

Após esse pedido repentino do Rei das Salamandras, Eiro ficou um pouco perplexo. Primeiro, ele não era a melhor pessoa a quem se podia perguntar sobre como controlar sua raiva e seu próprio futuro neste mundo era bastante incerto para começar. Eiro encarou o Rei e contemplou por um tempo, mas respondeu.

— Eu aceito. Ter um contrato com um espírito poderoso só pode ser bom, ainda mais depois que o ajudar a se controlar. — O Diabrete comentou e o Rei dos Espíritos suspirou de alívio.

— Oh, como estou feliz que pense dessa forma. Tenho que encontrá-lo e invocá-lo, então, até lá, por favor, espere com o seu companheiro.

— Meu companheiro? — Eiro questionou confuso, percebendo que deveria ter uma escolta com ele e que ele era aquele de quem o Rei das Salamandras falava.

Com um aceno rápido, o Demônio se virou e caminhou em direção à saída deste grande espaço oco enquanto todos os Espíritos presentes olhavam para Eiro com expressões mistas. Alguns estavam felizes, outros… não muito. Ele nem sabia por que estes últimos estavam assim. Por enquanto, saiu para se encontrar com sua escolta, que já o esperava na parte quebrada da cápsula de vidro em que Eiro estava até agora.

— Algo de errado? — Eiro perguntou enquanto olhava para Clark, que o encarou de volta em descrença.

— Essa deveria ser uma pergunta legítima…? — Ele respondeu e Eiro assentiu sem pestanejar.

— Claro, por que eu brincaria em um momento como este?

Clark resmungou alto enquanto se afastava e se sentava em uma das cadeiras que ainda restavam depois dos combates que aconteceram nesta área.

— Podemos sair logo, pelo menos? Para que eu possa… reavaliar minhas amizades com os chefes de certos países?

— Sim, só precisamos esperar pelo Rei das Salamandras. Ele está chamando um espírito para que eu possa firmar um contrato. Aparentemente ele é bastante poderoso. Porém, um pouco problemático, mas não acho que seja tão mal quanto o Rei dos Espíritos falou sobre ele. — Ele disse com um tom claro, sem um pingo de falsidade. Eiro não mentia, ele não se recordava de todas as coisas ruins que o Rei das Salamandras explicou.

Assim, Eiro se sentou ao lado de Clark em outra cadeira e olhou para o espaço aberto à sua frente. Por ora, o Demônio estava pensando em algumas coisas aleatórias, enquanto seu coração batia rápido. Tão rápido que parecia que iria sair do seu peito, na verdade.

— Erm… Por que estamos esperando de novo? — Eiro questionou ao olhar para Clark, que enterrou seu rosto em suas mãos por frustração.

— Quer saber? Não irei mais te responder. Solomon me disse que, contanto que eu tenha o distintivo real comigo, você não tentará encostar em mim. De qualquer modo, você esquecerá sobre esta conversa daqui a pouco.

— Hm… É mesmo? — Eiro perguntou sem pensar, virando a cabeça e olhando para tudo que estava em sua visão, virando subitamente para Clark.

— Diga, por que estamos esperando aqui de novo? Não deveríamos voltar até o Rei?

— Urgh… — Clark resmungou alto, mas, de repente, percebeu algo. — Espera, você se lembra de Solomon? — Ele perguntou. Eiro virou a cabeça e apontou para o livro meio queimado no chão perto dele, com as inúmeras páginas espalhadas ao redor. A maioria estava queimada, mas Eiro ainda conseguiu descobrir algumas coisas pelo contexto, pelo menos. Muitas partes pareciam ter sido perdidas, mas o mais importante ainda estava aqui.

— Acabei de ler nesse livro, desculpa. Não me recordo dele de fato.

— Tudo bem, não esperava o contrário… — Clark suspirou enquanto se levantava. Parecia que, no tempo em que Eiro ficou lá dentro, formando o contrato com a vontade do mundo, ele vasculhou ao redor. Clark se aproximou de uma das mesas próximas e pegou um dos livros que estavam ali.

Quando votou, ele o entregou para Eiro.

— Aqui está. Escreva qualquer coisa que acha que pode ajudá-lo nesses livros. Vamos esperar que isso seja suficiente para que Solomon não arranque minha cabeça… Ah, e escreva tudo o que irei te dizer agora, é importante.

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