A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 281

A Virtude do Demônio

A lua despedaçada no céu deixava passar pouca – senão nenhuma – luz do sol através dela, embora devesse ter deixado passar. O Demônio encarou o céu com essa visão maravilhosa e tentou descobrir o que aconteceu aqui durante este ‘Eclipse Despedaçado’.

Eiro abriu seu caminho pela floresta densa que lhe parecia estranhamente familiar, embora não se recordasse de nada sobre este lugar. As folhas secas embaixo dele eram esmagadas enquanto caminhava.

Ele não sabia aonde estava indo, que estava indo na direção certa. Então, alcançou uma clareira na floresta, ou foi o que Eiro pensou a princípio, até passar pelo monte de terra que bloqueava sua visão.

Em vez de uma clareira natural da floresta, não havia nada ali. Um buraco perfeita circular, aparentemente infinito, se estendia sob os pés do Demônio, até que certas palavras fluíram por sua boca.

— Horr zhu lugo jir targh, horr targhar jir urtur as partus horr requom argor thu lart tragh. Horr gol jir part as sird horr requom xarg thum unzhur dir. — O Diabrete falou estas palavras, sem saber o que significavam. Reconheceu algumas como palavras de feitiços, mas não conseguiu nenhuma dica do significado dessas palavras.

Isso não importou por muito mais tempo, de qualquer maneira. Eiro sentiu algo tocar o centro das suas costas, enquanto estava quase hipnotizado pela poderosa combinação entre essas palavras, o buraco infinito no chão, assim como a lua despedaçada.

Então, o leve toque em suas costas se tornou mais forte. Ele virou um empurrão, enquanto o Demônio caía para frente, sem nem mesmo lutar contra o que estava acontecendo. Ele não sentiu nenhum perigo e não achava necessário começar a bater suas asas.

O corpo de Eiro se virou e ele olhou para o céu de dentro do buraco. Em algum ponto, quando já havia caído por um tempo, conseguiu ver a lua de uma nova forma. O próprio havia desaparecido, bloqueado pelas paredes deste buraco e a única coisa que era visível era a lua despedaçada através deste buraco circular de onde foi empurrado por aquela mão de seis dedos.

Tudo estava escuro, tão escuro quanto possível e a única coisa que o Demônio sentia era a luz fraca brilhando através das rachaduras na lua, mas então, essa luz começou a mudar. Como se as rachaduras mudassem e as partes da lua se moveram.

Demorou um tempo para Eiro perceber que eu não estava mais vendo as rachaduras da lua, mas algo diferente. Eram fios finos de luz que se estendiam em sua direção, como se o perseguissem no buraco.

O Demônio esticou sua mão na direção do fio mais próximo e observou enquanto ele se envolvia ao redor dos seus dedos, depois seu braço e então torso.

Logo, outros fios o alcançaram e ajudaram o primeiro a cobrir o corpo do Demônio. Em algum ponto, os fios pararam de vir em sua direção, desde que todos já cobriam seu corpo. Agora, Eiro estava no meio de um espaço preto como breu, enquanto seu corpo era a única fonte de luz.

Os fios brilhantes se tornaram mais espessos enquanto a luz deles começava a se apagar. Não demorou muito para que os fios ficassem tão grossos que cobrissem cada parte do corpo do Demônio e mudaram para que parecessem raízes crescendo a partir dele do que simples fios.

Mesmo se Eiro quisesse tentar lutar contra isso, era incapaz. Essas raízes haviam-no restringido e havia pouco que era capaz de fazer sobre isso. De alguma forma, não sentia nenhum perigo eminente.

Logo as raízes cobriram cada parte do seu corpo, com exceção do olho esquerdo. Foi neste instante que Eiro percebeu algo: estava olhando para baixo e, à distância, viu algo se aproximar. Era o chão da floresta de onde estava antes. Diretamente sob ele havia o mesmo buraco no qual foi empurrado.

O Demônio se aproximou daquele lugar e percebeu que parecia que cairia no buraco de novo. Assim, o fez, mas no instante em que a escuridão do buraco o cercou, as raízes cobriam seu olho e ele foi envolvido por uma escuridão profunda.

Depois disso, Eiro não tinha certeza do que estava acontecendo. Conseguia dizer que ainda estava caindo e girando no ar, mas parecia como se nunca tivesse parado de cair. Ele conseguia escutar as correntes de ar ao seu redor mudarem enquanto caía. Algumas vezes, estava ao ar livre, onde o vento soprava forte, mas, de alguma forma, isso nunca afetava a forma como a bola de raízes caía e então notou uma mudança súbita nas correntes de ar devido à sua entrada no buraco de novo. Não muito depois, começou a sentir as correntes de ar mudarem mais uma vez, mostrando que estava do lado de fora de novo.

Então, de novo, de novo e de novo, formou-se algo como um padrão hipnótico na cabeça do Demônio. Isso era a única coisa na qual ele conseguia se concentrar, ou até mesmo sentir.

No começo, pelo menos, algumas vezes Eiro sentia mudanças na temperatura, algo como um padrão secundário que acompanhava a melodia geral que as correntes de ar criavam.

Logo, Eiro foi incapaz de saber quanto tempo esteve dentro desta bola de raízes. Parecia tanto um minuto como dez, ou até mesmo cem anos. Era o mesmo tipo de ambiguidade que sentia ao conversar com a vontade do mundo mais cedo.

Como se estivesse fora do seu alcance, provocando a ponta dos seus dedos. Uma palavra que estava na ponta da sua língua, mas ele não conseguia se lembrar, não importa o quanto tentasse. Algo se movia no canto da sua visão que desaparecia depois que você virava a cabeça.

Em algum ponto, a de Eiro parou. Ele parou de pensar, parou de reagir. A única coisa que fez foi se concentrar nos padrões criados pelo mundo ao redor dele. Afetando a ele e tudo mais de forma sutil.

O tempo do mundo parou e, enquanto isso, mil anos se passaram.

E de uma vez, tudo inundou Eiro. Ele permanece ali no centro do raio distorcido e mutável no centro do Portal Espiritual. Como se todo o tempo que passou dentro da bola de raízes e todos os pensamentos que deixou de ter o alcançassem, Eiro colapsou e sua caiu de joelhos.

Ele conseguia sentir algo, uma força poderosa, entrar em seu corpo de todos os ângulos com uma velocidade e força que estava prestes a rasgá-los em pedaços.

Eiro não conseguiu nem gritar, já que não possuía controle sobre seu corpo no momento. Consciente ou subconsciente, nenhuma parte dele era capaz de interagir com outras partes dele. O Demônio se sentou ali em agonia enquanto sentia um calor ardente dentro dele, queimando dentro do seu corpo, criando um buraco enorme dentro dele.

Não era físico, era mais parecido com um vazio emocional. Algo que não tinha nenhuma reação física, mesmo assim estava ali.

Mais uma vez, Eiro sentiu o tempo passar sem saber quanto fora, mas, desta vez, foi diferente. Antes, parecia como se tivesse sido um período infinitamente longo ou infinitamente curto, da mesma forma e havia pouca, ou nenhuma, diferença entre essas duas possibilidades. Agora, por outro lado, parecia que o tempo estava sendo esticado ao máximo possível. Um único piscar de olhos demorava um mês e um único espasmo muscular levava um ano.

Eiro estava em agonia. Agora compreendia por que foi desejado ‘boa sorte’. Nem todos conseguiriam aguentar isso, mas Eiro suportou. Eiro aguentou tudo, porque precisava. Ele não poderia morrer aqui sem motivo, ainda tinha que recuperar suas próprias memórias e as das crianças.

Mas essa não era a razão para Eiro fazer isso. Na verdade, isso tudo era preventivo. Ele queria uma força na qual pudesse depender dela sem precisar recorrer a medidas tão extremas.

Eiro queria uma força avassaladora para esmagar seus inimigos. Ele queria ter acesso imediato a tudo e qualquer coisa que pudesse precisar para derrotar qualquer um que o enfrentasse. Era por isso que ele não podia deixar esta chance única passar. Ele não poderia desperdiçá-la e não podia desistir no meio do caminho.

Este demônio tinha que cumprir o nome profético da sua habilidade lendária. Ele tinha que se tornar um ‘Demônio Supremo’.

Então, com essa percepção súbita, o Demônio notou que o lago havia mudado de novo. Ele estava em uma sala vazia e escura, com nada exceto um brilho leve vindo de traz dele. Devagar, Eiro se levantou do chão com o corpo dolorido enquanto escutava uma voz atrás dele.

— O que você acabou de fazer? O que aconteceu com o Portal Espiritual? — O Rei das Salamandras estava atrás de Eiro, observando tudo isso em descrença. Muitas, se não a maioria, das Salamandras e Vulcani já haviam desaparecido junto com o portal em si, ao que parecia.

Eiro olhou para ele confuso.

— O que… você quer dizer?

— O que eu quero dizer? Você absorveu este portal espiritual, o que aconteceu?! — O Rei questionou com um tom confuso e Eiro olhou para ele, virando a cabeça na direção da notificação que surgiu.

— Eu não me recordo, desculpa. — Eiro respondeu, mas percebeu que o Rei das Salamandras não estava tão feliz com essa resposta, afinal, como poderia estar? Não havia como ele aceitar que uma fenda tão poderosa entre os reinos desapareceu no ar.

Mas Eiro não prestou atenção no que o Rei dos Espíritos disse em seguida. Em vez disso, ele continuou encarando a notificação na frente dos seus olhos.

[Você absorveu o <Portal das Chamas>]

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