A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 280

A Virtude do Demônio

Eiro caminhou em direção à enorme árvore que se erguia além das nuvens. As pessoas passavam por ele, tudo era tão barulhoso e agitado. Não apenas a árvore era enorme, como todos os prédios cercando o Demônio, como se tivesse encolhido e este fosse o motivo para tudo parecer tão grande, mas esse não era o caso, ao ver como ninguém parecia muito maior que ele.

Era uma visão maravilhosa, mas ao mesmo tempo assustadora. Eiro nunca ouviu falar de um lugar assim, mas o estava vendo com sua própria altura.

O demônio encarou o céu, até escutar alguém falar algo que estava fora de sintonia com tudo dito por essas pessoas.

— Uma visão incrível, não é? — Apontou um homem suado de terno cinza-escuro, sorrindo para Eiro enquanto passava pelo Demônio. Assim que Eiro olhou para ele, parecia que já havia parado de reconhecer sua existência. Então, outra pessoa falou. Uma garota, talvez em seus doze ou treze anos, olhando para algum tipo de cartão grosso em suas mãos, enquanto caminhava ao lado de uma garota de idade parecida.

— Oh, isto não é real, não há necessidade de tentar falar com mais ninguém exceto eu.

O demônio olhou para a garota e franziu profunda o cenho.

 — E quem é você?

— Você já sabe quem eu sou, não é? — Um homem idoso falou com uma voz fraca na frente de Eiro e o Demônio virou para ele, mas já estava sendo ignorado de novo.

— Sabe, isso é bastante irritante. Mesmo que você seja deste mundo, acho que ainda é um pouco rude brincar assim. — O Diabrete comentou. Não demorou muito para que escutasse uma voz vindo de todos os lados.

Não era nem uma voz feminina, nem masculina, mas ao mesmo tempo era ambas. Como se fossem duas vozes diferentes, ou todas as vozes existentes, ou a voz de uma única pessoa ambígua, soando ao mesmo tempo. Eiro ficou confuso com o que escutava. Não conseguia identificar o que era, por mais que tentasse, mesmo com as habilidades que tinha.

— Você está certo, fui bastante rude. Peço desculpas. Faz um tempo desde que eu falei com alguém dessa forma. — A voz falou e, alguns instantes depois Eiro notou que tudo ao redor parou. Ele não sabia quando parou, apenas que tudo estava parado, como se o tempo estivesse congelado.

E no centro da multidão de pessoas caminhando pelas ruas, Eiro viu um homem se aproximar. Pelo menos pensou que era um homem a princípio. No instante seguinte, ele pensou que poderia ser uma mulher. Uma criança, para ser exato. Ou talvez um idoso. A aparência desse ser era tão caótica e confusa como sua voz.

— Presumo que você tenha uma pergunta ou duas antes de completarmos o que veio fazer? — A figura ambígua na sua frente comentou. O demônio olhou de volta para ela e assentiu.

— Eu tenho. Acabaram de me informar que você não era senciente, mas isso parece ser falso. — Eiro ressaltou e a figura acenou com a cabeça. Neste ponto, Eiro percebeu que a multidão que preenchia toda essa rua enorme desapareceu de repente, embora não tivesse percebido a saída delas mesmo após o tempo ser congelado.

Com uma risada, o ser começou a falar.

— Senciência é algo difícil de determinar para alguns. Na maioria das vezes, eu simples sou e sei. A suposição de que não sou senciente é verdadeira durante esses momentos, porque não é necessário que apareça em minha verdadeira capacidade. É raro para mim me mostrar para outros, mas você próprio é tão raro quanto, então pensei que seria apropriado.

— Devo me sentir honrado? — Eiro perguntou e a figura riu baixinho.

— Pode se sentir insultado ou honrado, pouco importa para mim.

— Então, posso perguntar o que me torna tão raro a ponto de você se mostrar para mim?

— Você já sabe.

— Tudo bem, deixe-me reformular. — Eiro interrompeu. — O que eu sou? Por que sou capaz de controlar minha monstruosidade sem a interferência da magia ou habilidades de outros? Por que minha perdição me afeta de forma diferente de outras criaturas? Por que possuo habilidade que mais ninguém possui?

— Essas são perguntas excelentes. Permita-me respondê-las até certo ponto. Você é um demônio que foi criado artificialmente pelo Rei dos Monstros, que possui uma habilidade que copiou de mim, a qual utiliza para expandir seu próprio exército e poder. Durante sua criação, um erro aconteceu com o Rei dos Monstros, transformando você em uma variante de monstro. Apesar disso, você teria sido especial em comparação a outros do seu tipo se isso não acontecesse devido à natureza da sua alma. Entretanto, parece ter funcionado a seu favor.

Eiro olhou de volta para a figura à sua frente. Essas eram coisas que ele conseguiu descobrir por conta própria, com exceção da parte sobre a natureza de sua alma. Porém, antes que pudesse falar, o ser o fez.

— Você possui controle sobre si mesmo até este ponto devido ao seu próprio poder. Sua vontade é forte o suficiente para romper os limites instáveis criados pelo seu nascimento. Agora, sobre suas duas últimas perguntas, as quais podem ser respondidas da mesma forma. — O ser explicou para Eiro, que compreendeu o que ele tentava fazer antes mesmo de terminar de falar. A voz desse ser estava tão cheia dessa intenção que era difícil não perceber depois de ouvir uma de suas respirações.

Eiro olhou para o ser com um olhar profundo e ele o encarou de volta da mesma forma, ou o que Eiro pensou pelo menos. Era difícil dizer. O ser permaneceu ali e abriu sua boca.

— Eu não sei. — Ele disse e Eiro olhou confuso para ele.

— O quê… Você não deveria ser onisciente ou algo do tipo?

Com uma risada, como se o que Eiro acabou de dizer fosse ridículo, o ser balançou a cabeça.

— Claro que não, por que acha isso? Eu não sou onisciente, nem onipotente. Eu sou o que sou e sei o que preciso. Eu não sou um deus, sou amalgamação de todas as forças da natureza. Como pode ver, eu não sou um, mas muitos assumindo a forma de um. Uma rede intrincada de leis, que existem como entidades próprias, criando o panorama geral. Eu sou este panorama geral. Existe uma miríade de seres que são mais poderosos ou mais sábios do que eu. Fui capaz de dizer o que você era de forma simplista, o que seu corpo físico diz sobre você. Sei que sua alma é especial, mas não sei por que ou como ela é especial. Desculpa.

— … Não, não se desculpe. Ainda consegui aprender algumas coisas… eu acho, pelo menos. Devo esquecer mais cedo ou mais tarde.

— De fato, mas você deve estar ciente de que nada é destruído para sempre. O que foi perdido sempre pode ser recuperado de uma forma ou de outra. — O ser explicou e Eiro olhou para ele com um aceno lento.

— Compreendo.

— Eu sabia que você entenderia.

Eiro virou a cabeça e olhou para a árvore gigante.

— Agora, pode me dizer o que é isso? Onde fica isso? Era o que queria me mostrar, certo?

— Não, eu ajudei um velho amigo com um favor. Veja isso como uma mensagem que foi transmitida a você através de mim. Não consigo ver dentro de você, minha criança. Posso lhe dizer onde a primeira flor da primavera florescerá, posso lhe contar quantos Espíritos amadureceram durante nossa conversa, ou posso lhe dizer o que amo no que a vida faz com cada aspecto do meu ser, mas não posso lhe dizer o que é isso. Tudo o que posso lhe dizer é que você não faz parte de mim.

— … Não sou uma parte de você…? — Eiro questionou, confuso. — O que você quer dizer?

— Eu quis dizer o que disse. Ah, mas é diferente daquele seu filho, isso eu posso te dizer. Isto pode não ser parte de mim, mas não parece estranho, entende? — O ser na sua frente explicou, enquanto se aproximava do Demônio e olhava para a copa da árvore gigante junto dele. — Agora, acho que é hora de concluirmos o que você veio fazer aqui. Já nos arrastamos por tempo suficiente. — Ele explicou e Eiro olhou para o mundo em sua forma humana com um aceno, pronto para o que quer que estivesse prestes a acontecer.

— Você deseja formar uma conexão comigo para fazer um portal para o Reino Espiritual, um portal que atravessa os planos elementais como um tipo de ponte, uma parte de você? — O ser questionou e Eiro assentiu. Este ser parecia se expressar de formas peculiares, mas, pelo que Eiro se recordava, esse era o motivo pelo qual veio aqui.

— Então devo avisá-lo, esta experiência será bastante extenuante. Ele se tornará uma parte sua, mas demorará um longo tempo para se tornar parte de você. Como você, o portal se transformará e mudará. Ele será moldado de acordo com o que você é e você, por sua vez, será moldado por aquilo que ele é. Tem consciência disso?

Eiro olhou de volta e, sem pestanejar, assentiu.

— Agora estou, pelo menos.

Com um sorriso, o ser à sua frente acenou com a cabeça enquanto se aproximava do Demônio. Ele colocou as mãos no peito dele. Então, Eiro sentiu uma força profunda acertá-lo e foi empurrado com uma velocidade incrível, mas, logo, essa força parou quando ele atingiu a árvore, parando-o por enquanto.

O Diabrete estava com dor, mas, por ora, não era tão ruim. Levantou-se e retirou a sujeira e folhas de suas roupas, olhando ao redor. Em vez daquela cidade, ele se viu de repente no fundo de uma floresta densa.

E logo acima dele, Eiro viu um sol escurecido por um eclipse, mas algo estava estranho.

Os raios de luz que brilhavam através das rachaduras da lua recém-destruída não iluminavam o mundo.

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