A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 279

A Virtude do Demônio

O demônio pressionou seu pé no magma quente enquanto caminhava no espaço à frente dele. O ar era forte distorcido devido ao calor nesse lugar, mas isso não significava que Eiro não conseguisse ver ao redor dele.

Todas as salamandras e Vulcani se curvaram para seu rei, reunindo-se ao redor dele e começando a seguir a dupla no momento em que passavam. Ele conseguia escutar os sussurros das Salamandras entre si sobre quem o Demônio era, mas decidiu que deveria ignorar por ora. Pensar era inútil no momento, afinal ele esqueceria tudo de qualquer forma. Então, em vez disso, Eiro explicou a situação ou o máximo que conseguia se recordar por ora, para o Rei das Salamandras.

— Um portador de Habilidade Lendária… Eu sabia que havia algo de especial sobre você. Essas habilidades normal vêm com um grande custo, embora isso não pareça tão extremo… Tudo isso, o que aconteceu recente com a habilidade <Memória do Demônio Esquecido>, depois que você recebeu a habilidade Lendária, mas evoluir, não é mesmo? — O Rei questionou e Eiro pensou por um instante assentir. Foi o que assumiu, pelo menos.

— Se esse for o caso, não há necessidade de se preocupar. Como você já evoluiu para algo único há muito tempo, deve estar ciente: depois que você se tornar um ser Único que você é capaz de real fazer uso dessas Cartas e das habilidades únicas que recebe através delas. — O Rei das Salamandras explicou calma. — Uma habilidade de tal calibre necessita de um recipiente que se adeque a esse calibre para real brilhar. É a mesma situação com as Habilidades Lendárias. Assim que tiver a chance de evoluir mais uma vez, essa habilidade se tornará de fato útil para você, sem ter repercussões extremas.

O Demônio pensou sobre o que o Rei das Salamandras contou e concluiu que fazia muito sentido se esse fosse o caso… Era problemático que já estivesse esquecendo este fato, mas isso não importava por ora. Pelo menos Eiro sabia que essa Habilidade Lendária não era algo que o condenaria.

E exata quando Eiro pensava nisso e encarava o chão à sua frente, mudando sobre o peso do Rei, o Demônio parou de caminhar quando o Rei das Salamandras colocou o braço na sua rente.

— Chegamos. — Ele explicou enquanto dava um passo para o lado para que Eiro tivesse uma visão apropriada. Entretanto, o Demônio não tinha certeza do que estava vendo. Era como uma versão concentrada e comprimida daquelas distorções de calor que poderiam ser vistas no ar ao redor de toda esta área. Como se a luz estivesse tão fragmentada a ponto de parecer outro mundo. Eiro era capaz de ver até mesmo seu próprio reflexo distorcido no meio do ar.

— Entre naquele campo. Eu o ajudarei a formar o contrato para ser o protetor deste Portal Espiritual. — O Rei das Salamandras explicou, mas Eiro olhou surpreso para ele.

— Com quem exatamente formarei o contrato?

Com um sorriso, o Rei das Salamandras colocou a mão no ombro do Demônio.

— Você sabe o que os Espíritos são?

— Eu… acho que costumava saber, pelo menos. — Eiro respondeu baixinho e a figura na sua frente respondeu com calma.

— Está tudo bem, explicarei de novo, então. Nós, Espíritos, somos criaturas que nascemos da magia inata que permeia tudo que compõe este mundo. Isso inclui este plano, os planos elementais, o plano onde todos os Espíritos talvez residam e todos os outros planos que possam vir à sua mente. Esse mundo está vivo, talvez não senciente, mas vivo. Ele possui uma vontade e o poder de executar essa vontade. O ser, ou melhor, a força, com que você formará este contrato é o próprio mundo. Você jurará, pela vontade do mundo, proteger este portal e, em troca, receberá poder. Poder que pode te ajudar em sua jornada, que pode auxiliar a encontrar o que você perdeu, ou que pode permitir que viva uma vida calma, se assim desejar. Pode aparecer hoje, amanhã, daqui a um ano, ou nunca, mas quando você mais precisar, estará lá para você, não se preocupe.

— Um contrato com a vontade do mundo… — Eiro murmurou. O demônio respirou fundo para se preparar, empurrando sua mão na distorção de ar comprimido à sua frente.

Encostando nos dedos do seu reflexo, Eiro abriu caminho pelo campo e entrou.

— Boa sorte. — O Rei das Salamandras disse enquanto um arrepio profundo percorria a espinha do Diabrete.

‘Por que eu precisaria de boa sorte?’

Eiro caminhou pelo espaço desta distorção e foi sobrecarregado pelo que viu. O exterior daquele espaço era completa distorcido. Era como se tudo estivesse se fundindo na frente dos olhos do Demônio. Como se misturasse cada cor a qual tivesse acesso, criando uma cor escura como o breu.

Por um instante, Eiro não tinha certeza se seus olhos estavam abertos ou não, mas então olhou para baixo do seu pé e percebeu que estava parado em pé sobre um pequeno quadrado branco. Era estranho, ele não sentia como se estivesse de pé sobre algo. Então, seus sentidos capturaram o que estava acontecendo. Eiro estava caindo em um ritmo incrível em direção a esse quadrado branco. Ele continuava aumentando de tamanho, até que ocupou todo o chão, indo até além do horizonte.

Então, o Demônio acertou o chão, mas foi como se nunca tivesse caído, como se tivesse ficado ali… Ele não sentiu nenhum tipo de impacto, pelo menos.

Eiro sentiu-se enjoado com a forma como seus sentidos estavam tão embaralhados. Olhou direto para cima para recompor seus pensamentos. Ali, notou algo se aproximando e logo percebeu que era… ele mesmo. Eram suas próprias costas.

Quando Eiro levantou a mão, a figura também levantou a mão. Quando Eiro virou a cabeça, ela também o fez, mas não só isso… Eiro foi capaz de ver outra versão de si à distância, à sua direita. Assim como à sua esquerda e até mesmo atrás dele.

Todas estavam se aproximando dele, como se fossem atraídas em direção uma à outra, até que pararam quando estavam a cerca de dez metros de Eiro.

Mas, assim que Eiro pensou estar entendendo o que acontecia, mais quatro Eiros apareceram ao seu redor, preenchendo os ‘cantos’ entre os outros quatro. Então, ainda mais surgiram. Então mais, mais e mais, até que Eiro estivesse em um campo de infinitos Eiros. A cada dez metros em cada direção cardeal, havia um ele.

Até que os Eiros mudaram, mas sempre tão rápido que mal parecia ter qualquer diferença da sua aparência atual quando olhava para a esquerda, para a direita, para a frente ou para trás, mas, depois de um tempo, Eiro percebeu que as coisas estavam mudando. À distância, ele conseguiu ver uma versão de si que tinha cerca de dez metros de altura, seis pares de asas e parecia ter perdido completa sua mente. Em outra direção, Eiro viu uma versão de si que era uma pessoa normal. Sem chifres, asas, cauda… Pele clara, assim como seus cabelos.

O Demônio encarou todas essas versões de si, versões que Eiro nunca imaginou serem possíveis. Algumas tinham mais membros, outras tinham menos, mas, de qualquer forma, todas eram… diferentes de Eiro.

Essas outras versões na frente de Eiro estavam paradas ali e o Demônio se aproximou da versão de si bem à sua frente. Quando fez isso, nada aconteceu, mas depois que piscou, ele percebeu que sua perspectiva havia mudado. Agora, estava dentro do corpo daquele Eiro que havia visto na sua frente e, quando olhou ao redor, o Demônio viu o corpo em que esteve se desfazer em pó, junto com alguns outros Eiros que estavam diretamente ao lado daquele ‘original’.

Como se seu corpo compreendesse o que tinha que fazer, Eiro se aproximou do próximo Eiro, aquele que parecia mais natural e colocou a mão no ombro dele. Mais uma vez, trocou de posição com este Eiro e ainda mais se desfizeram em pó.

Isso continuava, mas não havia fim para este campo de Eiros. Ele correu e correu, continuou trocando com a versão que parecia certa para ele. Este campo infinito de Eiros parecia se tornar cada vez menor na mente do Demônio, embora não fosse o caso.

O próprio corpo de Eiro continuava mudando, se transformando e se tornando algo diferente. Até que, de repente, não sabia mais para onde ir.

Ele estava dentro de um corpo que era diferente do seu atual. Parecia que Eiro estava no caminho para chegar a esta forma, mas o corpo em que estava era muito mais forte, muito mais poderoso do que Eiro poderia sequer imaginar.

Mas ele não sabia o que deveria fazer agora. Nenhum dos outros Eiros ao seu redor parecia certo. O oposto, na verdade, eles pareciam errados. Eiro estava em pânico, incerto do que ocorria.

Sua mente estava sobrecarregada… Por um instante, havia esquecido como seu corpo original parecia, para começar.

Eiro permaneceu ali, confuso, tomado pela desesperança que invadiu o seu ser. Ele olhou para o chão e depois para o céu.

O Demônio fechou seus olhos por um instante enquanto tentava organizar seus próprios pensamentos e quando conseguiu, escutou um rugido alto. Assustado, abriu os olhos e olhou para a boca de uma besta feroz que nunca viu antes, pelo que conseguia recordar, pelo menos.

Ela ficou ali, rosnando para o demônio. Ele olhou para seu próprio corpo. Estava diferente de novo, mas mais parecido com sua forma original. A alguns passos dali, pelo que conseguiu se lembrar, ou pelo menos foi o que Eiro pensou.

E, assim que esse pensamento passou pela sua mente, tudo ao redor desapareceu em pó, substituído por uma cidade. Era uma cidade bastante estranha. Estruturas e objetos que ele nunca viu, versões sombrias de pessoas carregando coisas que também não reconhecia. Ali, bem à sua frente, havia uma torre enorme que perfurava o céu.

— Não, não é uma árvore… — O demônio murmurou para si…

Era a árvore gigante que o Cervo lhe mostrara antes de conhecer Lugo.

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