
Volume 3 - Capítulo 278
A Virtude do Demônio
O Rei das Salamandras encarou Eiro com um olhar profundo depois do pedido inesperado, afinal, quem diria que quer firmar um contrato com um Rei dos Espíritos depois de ter a rara chance de falar com um?
Clark, que observava tudo enquanto se escondia nas sombras no canto da sala, ficou confuso com o que acontecia. Havia tantas coisas ocorrendo que ele não tinha certeza de como deveria reagir.
Então, ocorreu algo que o surpreendeu ainda mais. Muitas das salamandras eram seres bastante irritadiços, então era esperado que esse fosse o caso com o Rei das Salamandras, especialmente porque já era confirmado ser o caso com a Rainha das Salamandras.
Entretanto, neste caso, o Rei dos Espíritos reagiu de forma calma ao balançar a cabeça em resposta ao pedido de Eiro.
— Peço desculpas. Não posso formar um contrato com você, ainda que o fizesse de bom grado se ainda fosse um espírito comum, mas, como um Rei, não posso abandonar meus deveres com o objetivo de completar os termos de tal contrato.
— Mas você não fez tudo isso por causa do contrato com esse cara? — Eiro questionou, apontando para os pedaços de gelo no chão e o Rei das Salamandras olhou de volta para o Demônio com uma expressão amarga.
— Este foi um caso bastante infeliz. Não sei como eles foram capazes de fazer isso em primeiro lugar, mas eles transportaram um Portal Espiritual para debaixo desta cidade e tentaram controlá-lo. Portanto, vim investigar e, quando o fiz, vi meus parentes sendo escravizados enquanto essas pessoas tentavam descobrir como acessar as essências dos Reinos Espirituais para causar ainda mais estragos. Fui incapaz de impedi-los, já que isso significaria a morte dos meus parentes e isso não teria impedido que explorassem o portal. Em troca da promessa de que eles parariam de machucar meus parentes e de roubar o poder do portal, este contrato foi firmado por necessidade. Foi um de seus termos que me permitiu escapar dessa forma, entretanto. — O Rei das Salamandras explicou para Eiro, que escutou atentamente.
Embora isso não importasse, já que havia esquecido sobre isso. Pelo menos parecia que Clark tentava se recordar de tudo para Eiro, enquanto recuperava os pedaços restantes do caderno com suas mãos queimadas. Ele levou seu trabalho a sério. Se Eiro estava pagando por ele, em primeiro lugar, daria um aumento enorme para sua escolta.
Mas, por ora, enquanto Eiro conseguiu conectar esses pensamentos, olhou para o rosto do Rei das Salamandras.
— Daqui em diante, eu supervisionarei este lugar, incluindo o portal. Você possui minha palavra de que não permitirei que nada aconteça enquanto eu viver. — O Demônio disse com um tom claro e o Rei dos Espíritos levantou suas sobrancelhas flamejantes.
— Você assumiria essa tarefa por conta própria?
— Claro que sim. Apesar de que não acho que consiga observar este lugar constantemente, posso sair por longos períodos. — Eiro explicou e o Rei das Salamandras começou a sorrir.
— Não se preocupe. Minha espécie não é tão fraca como pode parecer no momento. Foi devido a essas circunstâncias especiais que algo como isso aconteceu em primeiro lugar, mas acho que sei o que devo dar a você no lugar do contrato que pediu. Deve ser do seu agrado. — O Rei das Salamandras comentou e colocou a mão no peito do demônio.
Eiro sentiu uma pontada profunda logo acima do coração, que se transformou em uma queimação que se espalhou por todo seu corpo, mas não era dolorosa, na verdade era bastante agradável. Quase fortalecedora. Então, uma notificação apareceu na frente dos olhos do Diabrete.
[Você recebeu a <Bênção do Rei das Salamandras>]
[Afinidade com o Elemento Fogo aumentada]
Eiro sentiu o poder percorrer seu corpo enquanto recebia a bênção deste ser supremo parado na sua frente. Com um sorriso, o Demônio assentiu.
— Nunca tive a chance de dizer isto à antiga Rainha Náiade, então deixe-me dizer a você: obrigado. — O Demônio olhou para o seu peito, onde a marca das suas Bênçãos parecia se concentrar. Seu torso ainda era coberto por linhas azul-claro criadas pela <Bênção da Náiade Solitária do Inverno>, mas agora em seu centro havia algumas linhas de cores flamejantes, como vermelho, amarelo ou laranja, entrelaçando-se com as marcas das outras bênçãos de Eiro.
Na verdade estava diretamente ao redor do centro das bênçãos. Demoraria um tempo para que essas linhas se espalhassem, assim como foi com as outras.
O Demônio olhou para Clark, dizendo para ele se recordar do que aconteceu. Ele explicou os eventos que ocorreram, no caso de Clark não ter conseguido acompanhar. Eiro olhou de novo para o Rei das Salamandras.
— Então, com licença. Há outras coisas que precisamos fazer agora. O que seria… seria… Erm, você, escolta, o que viemos fazer aqui mesmo? — O Demônio perguntou e Clark suspirou.
— Encontrar um Espírito que possa firmar um contrato com você.
— Ah, então você precisava de um contrato afinal? Então, por favor, siga-me. Para formar um contrato com o Reino Espiritual para se tornar o Guardião de um dos Portais, você deve vir até o centro comigo. Lá, podemos encontrar uma salamandra adequada para você. — O Rei explicou. Para Eiro, isso parecia fazer muito sentido, embora não soubesse que precisava criar algum tipo de contrato para ser permitido cuidar do portal.
Eiro observou enquanto o Rei das Salamandras se aproximava da parte quebrada do domo de vidro que cercava o Portal Espiritual. Eiro virou a cabeça para sua escolta.
— Vou segui-lo por enquanto, mas voltarei logo. Assim que voltar, iremos procurar por algo que possa curar suas mãos. — O Diabrete explicou e Clark assentiu enquanto o encarava.
— … Claro. Eu quase esqueci…
— Hm? Ah, eu te feri com minhas chamas…? — O Rei das Salamandras questionou com uma expressão arrependida e Clark olhou para ele com claro medo em seus olhos.
— E-Eu estou bem, não se preocupe! Conseguirei curá-las de alguma forma!
— Bobagem. Não está tudo bem, eu deveria ter sido mais cuidadoso no que fazia. Por favor, me dê suas mãos. — O Rei dos Espíritos esticou sua mão direita para Clark, que, relutante, fez como pedido, afinal, o que mais deveria fazer? Desobedecer ao que essa criatura suprema poderosa dizia?
Logo depois, o Rei das Salamandras envolveu as mãos de Clark com as suas. Eiro conseguiu sentir que ele estava expelindo alguma forma de calor das suas palmas, embora não estivesse na forma de chamas. Logo ele afastou suas mãos e Clark encarou suas próprias mãos em descrença.
— El-Elas estão… Elas estão curadas? — Ele perguntou com surpresa e o Rei assentiu.
— Claro que estão. Eu não permitiria que você sofresse por causa dos meus erros.
Eiro encarou o Rei das Salamandras enquanto uma curiosidade crescia em seu peito, a qual não conseguiu conter.
— Como você é capaz de usar magia de cura com fogo?
O Rei das Salamandras virou a cabeça para ele com uma leve risada.
— Oh, meu caro. Pensei que você já sabia. Nenhum elemento possui uma capacidade inata para cura ou destruição. Claro, pode ser mais fácil produzir esses efeitos com certos elementos a ponto de parecer que possuem uma conexão inata, mas não é o caso. O mais importante são suas emoções. Magia de fogo em seu nível básico e caótico é fortalecida pela intensidade da sua raiva. Entretanto, o efeito de ‘cura’ é algo que requer serenidade e equilíbrio. Isso se adequa ao elemento água muito bem, então a maioria daquelas capazes de usar magia de água consegue criar efeitos curativos, mas, como pôde ver, até mesmo um elemento visto como o mais destrutivo dos quatro básicos é capaz de curar.
Eiro encarou o Rei das Salamandras intensamente. Isso era algo novo para ele. Claro, ele talvez tivesse notado que o uso de certos tipos de magias afetava suas emoções, ainda mais quando se infundia com elas, mas ainda não sabia que as magias eram afetadas pelas emoções a este ponto. Pelo menos, nunca leu sobre isso antes, então isso nunca passou por sua cabeça.
Mas considerando que isso fazia sentido e testemunhou por conta própria, era óbvio que era uma verdade definitiva.
Eiro olhou lenta para Clark, que logo assentiu.
— Entendi, já entendo, te recordarei disso. Tentarei encontrar algo em que eu possa escrever. Agora, termine com isso, não acho que podemos demorar para sempre, podemos?
O Demônio balançou a cabeça.
— Não podemos. — Ele respondeu, virando-se para o Rei das Salamandras. — Minha escolta está certa. Devemos acabar logo com isso… então, lidere o caminho e continue me recordando do que precisamos fazer. Durante o caminho, explicarei o porquê de isso ser necessário. — Eiro respondeu sem pestanejar, já tendo esquecido o que o Rei dos Espíritos lhe dissera que tinham que fazer.
Ele assentiu, compreendendo a essência daquilo e entrando no campo de magma criado pelo Portal Espiritual.
Eiro estava um pouco incerto de pisar nisso, mas, assim que tentou, sentiu algo… diferente. Parecia como se este magma fosse diferente do que deveria ser, como se a recém-adquirida <Bênção do Rei das Salamandras> estivesse o protegendo dentro deste campo que deveria estar sob a supervisão dele.
Assim, Eiro aprofundou-se em sua mente para conectar-se ao Portal Espiritual.