
Volume 3 - Capítulo 275
A Virtude do Demônio
Eiro observou enquanto o homem na sua frente se aproximava do vidro ao lado da sala. Ele permitiria que ele abrisse. Primeiro, estava muito curioso com o que ele planejava fazer, considerando que havia algo bastante estranho acontecendo com todos os Espíritos ali dentro.
Mas, como não sabia disso, Clark correu até o Demônio e tentou puxar seu ombro para virá-lo.
— O que está fazendo? Não pode deixar que alguém faça o que quer em uma situação como essa!
O Diabrete virou a cabeça e olhou para sua escolta.
— Se não gosta, vá em frente e o mate. — Com os braços cruzados, Eiro olhou de volta para o homem arrastando seu corpo, que derretia pelo chão.
Ele esticou sua mão em direção ao vidro. Assim que tocou na superfície, ela começou a brilhar e uma abertura circular apareceu no vidro. Quando isso aconteceu, algo que Eiro nunca viu antes foi revelado.
Novos fios apareceram entre o homem e o grande número de Vulcani dentro da área. Claro, esses fios não significavam contratos, já que só era possível firmar um contrato com um único espírito por elemento, em vez disso era o mesmo tipo de fio mágico que Eiro viu entre este homem e seus escravos.
Eiro estreitou os olhos enquanto tentava compreender a situação e logo avistou algumas runas brilhantes colocadas no peito de um Vulcani. Elas emitiam um ar frio, de alguma forma, o qual se opunha às chamas com bastante intensidade.
— Ah… Entendi… Espíritos Elementais não possuem uma perdição, mas ainda possuem fraquezas. Salamandras e especialmente Vulcanis são fracos contra o Elemento Gelo…
— Não, não é o Gelo que é fraco contra Fogo?
— Eles são fracos um contra o outro. — Eiro respondeu a Clark. — Mas este cara… Essa organização, na verdade… criou uma versão especial alterada dos brasões de escravos que podem ser usados em Espíritos.
Eiro cerrou seus dentes, enquanto um rosnado profundo se formava dentro de sua garganta.
— Oh, como irei esfolá-lo. — O Demônio avançou em direção ao inimigo, enquanto os Vulcani escravizados saíam do local de onde estavam aprisionados até então, mas Eiro conseguiu fazê-los voltar, deixando o ar na frente deles abaixo de zero.
Claro, Vulcani eram fáceis de influenciar e eram os únicos que poderiam ser escravizados assim, mas por outro lado eram submissos aos seus instintos. Óbvio, seus instintos ainda diziam para se afastar das coisas que podiam machucá-los, o que era o caso com o frio da Magia de Gelo de Eiro.
Seus corpos, que pareciam chamas sólidas com uma forma humanoide crua, recuaram e enfraqueceram um pouco, até mesmo suas chamas ficaram um pouco escuras.
O Demônio parou na frente da letra da organização. Esticou sua palma na direção do homem que o encarava com medo. Então, Eiro foi arremessado pela sala com tanta força que criou rachaduras na parede e o Demônio perdeu mais da metade da sua vida total.
Suas roupas estavam chamuscadas ao lado do seu corpo. Isso aconteceu tão rápido que Eiro nem conseguiu reagir, mas, quando recobrou seus pensamentos, o Diabrete se desgrudou da parede e encarou o que estava parado ali, ainda sem estar formado.
Era uma figura masculina ainda mais alta que Eiro, mesmo que não fosse por muito. Ele tinha pele cor de carvão e um cabelo flamejante acima da sua cabeça, que balançava para frente e para trás. A parte superior do seu corpo estava exposta e exibia sua forma bastante musculosa, enquanto a parte inferior do seu corpo estava coberta por uma calça vermelha frouxa.
Os braços dessa figura estavam cobertos por rachaduras, por onde saíam chamas, enquanto permanecia ali, tendo empurrado Eiro para longe antes que conseguisse matar o homem na sua frente.
E, para a surpresa do Demônio… Havia um fio conectando-o ao homem gordo que derretia no chão. Não era nem um fio de contrato nem um de escravidão, mas algo… intermediário a isso. Algo mais fraco. Algo que poderia se partir a qualquer momento e parecia como se isso estivesse prestes a acontecer.
— Ei… Para que foi isso? — Eiro perguntou, mas o homem, este Espírito especial, encarou o Demônio e falou com uma voz cheia de dor.
— Me perdoe… Mesmo que esteja ciente da sua conexão com minha querida amiga, não tenho escolha a não ser fazer isso.
— Hm… Me pergunto: como um fraco como ele conseguiu escravizar o Rei das Salamandras? — O Diabrete questionou enquanto segurava a lateral do seu corpo, mas o Espírito balançou a cabeça.
— Não sou escravizado. Isso não é além de um contrato temporário. Caso contrário, todas essas minhas crianças estariam condenadas a sofrer. A vida de um único demônio é um sacrifício menor do que milhares das minhas próprias crianças.
— Sabe… se eu o matar, todas essas coisas de escravidão desaparecerão. Você pode… permitir que isso aconteça? — Eiro sugeriu ao Rei dos Espíritos na sua frente, mas ele o encarou de volta.
— Sim, mas não desta vez. Se o matar, todos os Vulcani morrerão em sofrimento imenso. Te asseguro disso.
O Rei das Salamandras deslizou seu pé pelo chão, criando uma grande onda de chamas que disparou no Demônio com uma velocidade incrível, além disso, o calor era algo com que Eiro não estava acostumado. O próprio chão derreteu por encostar nelas.
Mesmo com seu físico, Eiro morreria se fosse acertado por isso. O mais rápido que podia, ele infundiu seu corpo com magia de vento e se empurrou para fora do caminho. Porém, mesmo assim, o pé do Demônio ainda foi queimado de forma bastante dolorosa.
Eiro cerrou os dentes enquanto tentava entender a situação. Ele precisava entender muito bem. A mente de Eiro estava a mil e tinha ciência de que já havia esquecido o motivo de estar aqui.
— Preciso chegar até o livro… — Ele murmurou para si mesmo, enquanto virava sua cabeça na direção de Clark, que pressionava as mãos contra sua barriga depois de ajoelhar no chão. Bem ao lado dele, Eiro conseguia ver seu caderno pegando fogo. O caderno no qual reuniu muitas das suas memórias para que pudesse lidar com o fato de estar as perdendo.
As folhas de papel estavam subindo no ar devido ao calor enquanto eram queimadas e o Demônio olhou para o Rei das Salamandras.
Eiro não se importava mais com a notificação na sua frente e a dispensou enquanto a raiva crescia dentro dele. Entretanto, assim que fez isso, percebeu um pouco de resistência. Ele redescobriu que era capaz de interagir com as coisas.
E isso conseguiu afastá-lo da sua raiva por um momento, um momento que ele usou para pensar em alguma tática. Quando sua concentração atingia o pico do que ele poderia imaginar, era como se o tempo parasse. O Rei das Salamandras deu mais um passo pelo chão e Eiro conseguiu ver as chamas se acenderem de novo.
Mas, ao mesmo tempo, Eiro viu luzes aparecerem ao seu redor. Uma cópia fantasma do espaço ao redor dele apareceu em sua mente e ele seguiu a única forma de sair dessa situação.
Mais uma vez, Eiro começou a ver os fios, mas diferentes daqueles que já via. Esses se conectavam a partir dele, vários fios que o puxariam na direção que precisava ir.
Como se perdesse todo o controle sobre seu corpo, o Demônio chutou o chão e bateu suas asas enquanto controlava o ar ao redor para fazer seu corpo girar em alta velocidade. Ao mesmo tempo, sua cauda encostou em um dos pedaços de papel flutuando pelo ar e Eiro se infundiu com ele, aumentando seu volume até que todo seu corpo se transformasse em chamas. O mesmo tipo de chamas que foram disparadas em sua direção.
Chamas puras, mais fortes e mais quentes do que Eiro jamais foi capaz de produzir. Ele estava sofrendo danos por se infundir com elas, mas isso não importava por ora. Eiro tinha que usar este fogo para combater fogo. O Diabrete continuou girando, usando suas asas como um escudo para a onda de chamas que vinha em sua direção.
Claro, elas o empurraram um pouco e doeram para caralho, mas Eiro conseguiu atravessar essa onda. Assim que conseguiu, ele abriu as asas. Ele empurrou as mãos e os pés no chão, impulsionando-se para frente como um animal selvagem. Eiro voou na direção do Rei das Salamandras, que claramente estava pegando mais do que leve com ele.
Se ele quisesse, ele poderia ter matado Eiro no primeiro ataque, mas era como se soubesse o que o Eiro estava tentando fazer. Quando o Demônio alcançou a Letra, a primeira coisa que fez foi empurrar sua mão de madeira contra um fio aleatório na sua frente.
Sua mão continha toda a mana que Eiro conseguia utilizar naquele momento. Devagar, os dedos de Eiro passaram pelo fio e ele podia vê-lo começar a vibrar.
— Funciona. — Eiro sussurrou para si mesmo e, ao mesmo tempo, o Rei das Salamandras parecia ter escutado uma voz. Ele segurou o demônio pelo pescoço e parou seu movimento, interrompendo-o.
Um arrepio frio desceu pelo pescoço do Demônio, enquanto um calor incrível percorria seu corpo, mas, de repente, ele compreendeu o que estava ocorrendo.
As chamas em seu corpo se concentraram por um instante e se tornaram parte da mão de Eiro. Ele a puxou o mais rápido que pôde e, mais uma vez, passou seus dedos pelo fio. Em vez de vibrar por um instante, o fio pegou fogo e queimou.
O brasão especial de escravo no peito de um dos Vulcani desapareceu junto com o aperto que o Rei das Salamandras tinha em seu pescoço.
Eiro olhou para o Rei dos Espíritos, notando que estava se contraindo com uma dor imensa, mas isso não importava agora. Eiro puxou seu próprio corpo para passar suas mãos por todos os fios na sua frente e todos pegaram fogo.
A escravidão dos Vulcanis havia terminado.