
Volume 3 - Capítulo 276
A Virtude do Demônio
Eiro ficou ereto e olhou para o Rei das Salamandras.
— Eles estão livres. — O Demônio disse e o Rei o encarou, ainda com dor, mas agora foi capaz de se recompor.
— É mesmo? Então, acho que não preciso mais cumprir a minha parte do contrato. — Com um olhar profundo, o Rei das Salamandras caminhou até o homem que o forçou à submissão ao manter os Vulcani como reféns.
Ele levantou sua mão e apontou para o homem, mas Eiro logo parou na frente dele.
— O que você acha que está fazendo? Esta é minha presa. Eu irei matá-lo. — O demônio disse sem pestanejar. Os cabelos do Rei das Salamandras pareceram se arrepiar ao escutá-lo falar dessa forma.
— Esse homem assumiu o controle do reino espiritual, do qual se aproveitou para me ameaçar e controlar, ao escravizar aqueles da minha espécie por cerca de um ano. Se alguém vai matar esse homem, então serei eu.
Com um suspiro profundo, Eiro olhou de volta para Clark com um olhar penetrante. Ele sabia que era importante para ele matar esse homem, mas não se lembrava do motivo. Ele esperava que Clark tivesse sido informado sobre essa parte.
Aparentemente compreendendo o que o Demônio pedia para ele, Clark correu até eles e se ajoelhou na frente do Rei das Salamandras, enquanto seu rosto ainda se contorcia de dor devido aos ferimentos de queimadura em suas mãos.
— D-Desculpa se estou falando fora de hora, mas posso explicar. Ele… Ele é um pouco idiota…
— Oh? Você está chamando uma criança abençoada pela minha amiga predestinada de ‘idiota’? — O Rei questionou com um olhar penetrante e Clark virou a cabeça para Eiro, confuso.
— Sou abençoado por algo chamado de… Náiade Solitária? Quando você diz ‘amiga predestinada’, isso significa que ela era a antiga rainha, então?
— Você foi abençoado por ela sem saber?
— Estou um pouco esquecido agora, mas deixe isso para lá. Você… erm… — Eiro começou e olhou de volta para Clark, que suspirou, sussurrando para si mesmo.
— … Eu deveria escrever meu nome na minha testa com esse ritmo…
— Isso ajudaria, obrigado. — O demônio respondeu sem rodeios e a escolta resmungou baixinho.
— De qualquer forma, por favor, deixe-me explicar. Este homem aqui é parte de uma organização que se enraizou nas profundezas do submundo desse país. Essa organização lhe forneceu os meios para fazer isso com aqueles da sua espécie em primeiro lugar. Eiro se infiltrou nessa organização. Pelo que me disseram, matar esse homem o ajudará a obter uma posição mais alta lá, para que possa destruí-la mais rápido. Portanto, acho que seria benéfico para você permitir que Eiro mate este homem.
Eiro olhou para ele e assentiu.
— Sim, o que ele disse. É por isso que vim aqui em primeiro lugar.
— Não, nós viemos até aqui para que você encontre um espírito que pudesse contratar. — Clark suspirou e Eiro levantou as sobrancelhas.
— Sério?
— Sim, na verdade… Aparentemente essas pessoas usavam as Salamandras e os Vulcani aqui para adicionar algo nas drogas que produziam e Eiro percebeu isso através do odor dessas substâncias. — Clark explicou e o Rei das Salamandras virou a cabeça para o Demônio. Ele cruzou os braços, enquanto seus músculos se contraíam de irritação.
— Tudo bem. Preferiria matá-lo por conta própria, mas, contanto que ele morra por seus pecados, não me importo quem o faz. — O Rei das Salamandras ressaltou. — Então, acabe com isso.
No entanto, assim que o Rei dos Espíritos falava, Eiro notou uma mudança acontecendo entre ele e o homem deitado no chão, perto da inconsciência. Ele se tornou uma corrente em vez de um simples fio, como se puxasse o Rei em direção ao homem. Claro, Eiro tentou de imediato agarrá-la e destruí-la, mas não importa o que fizesse, só conseguiu fazê-la tremer um pouco. Nada aconteceu.
O Rei se ajoelhou e as chamas cobrindo sua cabeça quase se extinguiram. O homem no chão se empurrou do chão e pulou no Rei das Salamandras, que estava sendo puxado em sua direção.
E como se o corpo do homem parasse de ser humano, ele se desfez em uma lama espessa que cobriu todo o Rei das Salamandras.
Um processo que parecia muito familiar para Eiro. Como se fosse algo que estava na sua cabeça até agora. Era o tipo de fusão que Eiro passava quando se fundia com seus dois Espíritos contratados. Muito mais rudimentar, de baixa qualidade e tão instável que parecia que todo este lugar seria explodido a qualquer momento, mas ainda era algo similar.
— Hah… Hahaha… — Alguns instantes depois, diferentes runas brancas apareceram por todo o corpo do Rei das Salamandras, enquanto ele começava a gargalhar. De imediato, Eiro reagiu e puxou Clark para longe, levando-o para um lugar onde ficaria seguro.
Assim que fez isso, o Rei falou com uma voz que não era mais sua, mas uma mistura de sua voz com a daquele homem, a letra S.
— Está funcionando… funciona! Meu antigo corpo já era incrível, mas agora, está ainda melhor! Estou no auge das existências agora! Agora sou o mais forte! — Ele exclamou e transmitiu a sensação de que o Rei das Salamandras havia perdido todo o controle sobre seu corpo.
Sem hesitação, o Rei das Salamandras, fundido com a Letra S, ou como Eiro o chamou em sua mente de ‘Rei S’, avançou usando o poder do Rei dos Espíritos. Eiro infundiu seu corpo com magia de vento para ficar mais rápido, enquanto saía do caminho.
— Que incômodo… — Eiro murmurou. O Rei das Salamandras era um ser forte. Parecia que a forma atual do Rei S ainda não tinha controle total sobre suas habilidades, mas isso era esperado. Embora… ainda fosse estranho. Como ele conseguiu esse tipo de habilidade em primeiro lugar?
Como era possível que este homem se fundisse com um espírito, um rei dos espíritos ainda por cima? Como ele conseguiu? Como eles descobriram? Como ele conseguiu manter a transformação?
Inúmeros pensamentos cruzaram a cabeça de Eiro enquanto ele continuava ali encarando o céu.
— Ah… estou tão curioso. — O Diabrete murmurou, sentindo o Rei S avançar de novo. Parecia que ele movia seu corpo da mesma forma que o homem fazia enquanto ainda era gordo, então Eiro conseguiu prever seus movimentos com bastante facilidade.
O Rei S empurrou seu pé contra o chão e tentou permitir que uma certa força se movesse pelo seu corpo e focou sua palma, mas, em vez de aumentar o impacto do seu soco, o que aconteceu foi que um raio de chamas foi disparado na direção de Eiro.
O demônio não se importava. Era muito fácil de prever e mais fácil desviar. As capacidades físicas do homem foram aprimoradas, mas como ainda tinha que dominar a do Rei, sua habilidade chegou ao fim do barril.
Assim, o Diabrete conseguiu desviar do raio de chamas. Ele deslizou pelo chão em um instante e torceu seu corpo. Eiro levantou sua perna e chutou em direção ao rosto do Rei S. O rei reagiu e bloqueou o ataque com sua palma, segurando o tornozelo de Eiro.
Eiro usou essa pegada firme e pulou sobre o corpo do Rei S, esfriando o ar acima das chamas na cabeça dele para que tentasse extingui-las. Como não funcionou, o Diabrete bateu suas asas, girou seu corpo e o Rei S perdeu seu aperto no tornozelo de Eiro, que ele tentava queimar com um calor imenso.
Machucou um pouco, mas não era tão ruim. Eiro desembainhou a adaga em sua lateral, lebrando de algo importante. Não era relacionado à sua adaga, mas uma memória que o permitiu descobrir que tinha outra adaga em sua tesouraria. Ele olhou para dentro de si e logo encontrou a arma, retirando-a daquele espaço.
Assim, Eiro estava quase em sua capacidade máxima de combate. O Demônio avançou e parou repentinamente, usando sua cauda para se equilibrar e furando com uma das suas adagas no rei S. A figura enorme reagiu repelindo o ataque de Eiro e então tentou socá-lo. Antecipando isso, o Diabrete esfaqueou sua outra adaga no pulso do Rei S. Sua pele era resistente, mas não tão resistente como antes, quando era metálica.
Então, tudo o que Eiro tinha que fazer era empurrar seu joelho na parte inferior do pulso do Rei S para aumentar a força do ataque com sua adaga.
Desse modo, esfaqueou-o através do braço do Rei dos Espíritos, desde que seu corpo era controlado por um completo idiota.
O sangue que escorreu do seu ferimento parecia bastante interessante, como se fosse alguma forma de magia de fogo concentrada e uma memória cintilou na cabeça do Demônio.
Depois de uma luta, ele perguntou a Nelli sobre Sangue Espiritual e ela contou sobre como um Espírito nunca deixaria que seu sangue fosse derramado daquela forma. Mesmo se estivessem feridos, tentariam ao máximo mantê-lo dentro ou ao redor deles, desde que ele continha muito das suas capacidades enquanto um espírito estava vivo.
Dessa forma, como o sangue atingiu o chão, era óbvio para Eiro que o atual Rei S não via a importância do Sangue Espiritual e, portanto, não o controlava. Tentando salvar o máximo deste sangue possível, Eiro usou tanto magia de Água como de Fogo para movê-lo ao redor, comprimindo-o em uma pequena esfera para que o Demônio desse um passo para trás para observar este líquido especial.
E, enquanto Eiro encarava isso, algo mais interessante aconteceu. Como se o Rei das Salamandras finalmente tentasse lutar de volta, ele se afastou um pouco e exclamou algo que o ajudaria muito.
— Você… recebeu… um presente da Rainha dos Espíritos… Use-o agora! — Ele exclamou mas a letra S assumiu de novo. De imediato, Eiro começou a percorrer as poucas memórias que tinha de Espíritos, exceto Nelli e Gondos e logo compreendeu o que ele queria dizer. Mais uma vez, Eiro olhou dentro de si e logo retirou a grande gema que recebeu da Dama do Inverno. Tecnicamente ela também era um tipo de Rainha Espiritual.
Assim, o Demônio percebeu o que tinha que fazer. Ele envolveu a gema com o sangue do Rei das Salamandras e inseriu sua mana nela como se fosse ativá-la. Ao redor da mão do Demônio, algo se acendeu… Chamas azul-claro, as quais foram infundidas em seu corpo, congelando o ar ao redor dele.