
Volume 3 - Capítulo 272
A Virtude do Demônio
Eiro virou para sua escolta com uma expressão confusa.
— Bem, eu só queria entrar ali. De que outra forma acha que faríamos isso?
Com um resmungo profundo, Clark levou sua mão ao seu rosto e esfregou a ponta do seu nariz, enquanto empurrava Eiro para o lado. Sem outra palavra, bateu na porta de madeira. Alguns momentos depois, ela foi aberta e alguém apareceu.
— O que vocês querem? — O homem que os ‘cumprimentou’ perguntou com um tom irritado e Clark retirou um monte de moedas de ouro da sua bolsa e mostrou para o homem.
— Estamos aqui para fazer um negócio. O que mais você acha?
— Hm… Sim, entre. — Com um pequeno sorriso que apareceu no instante em que viu o brilho das moedas de ouro, o homem saiu para o lado e permitiu que Clark e Eiro entrassem. — Continuem até o fim do corredor. Alguém vai perguntar por que vocês vieram, então diga a ele.
— Obrigado. — Clark retirou outra moeda de ouro da sua bolsa e jogou para o homem, que aceitou com um sorriso.
— Sem problema.
Assim, Clark e Eiro caminharam pelo túnel simples. Ele virou a cabeça para Eiro.
— É assim que você deve lidar com situações desse tipo. É muito menos problemático, certo?
— Hein? Oh, não muito. Eu poderia ter arrombado aquela porta e matado aquele cara de uma só vez. Já estaríamos no fim do corredor agora. — O Demônio comentou sem pestanejar. — Isso e não teríamos desperdiçado nem uma moeda de ouro.
— Diz o cara que deu para um viciado aleatório um monte de moedas de ouro.
— Eu fiz? — Eiro perguntou surpreso. — Não parece algo que eu faria.
— Sério? Para mim, parece totalmente algo que você faria. — Clark resmungou enquanto liderava o caminho. Agora ele compreendia o motivo para Solomon querer que ele escoltasse Eiro. Caso contrário, era muito provável que tudo iria por água abaixo.
Assim que pensou nisso, chegaram ao fim do túnel e se depararam com uma sala bem grande. Era como um esconderijo, com vários membros de algum tipo de gangue, aquela que produzia a droga em primeiro lugar, sentados ao redor, mas, em vez de se concentrar em qualquer um desses membros, os olhos de Eiro estavam fixos na porta ao fundo. Os fios brilhantes levavam até lá, afinal.
Havia algumas outras pessoas aqui que possuíam fios semelhantes àqueles, mas a maioria das pessoas daqui era ‘livre’ e não escrava.
Alguns instantes depois, uma mulher veio até eles. Ela tinha cabelos brancos puros e íris vermelhas. Sua pele era tão branca quanto seu cabelo. A mulher olhou para Eiro e Clark com uma carranca suspeita.
— Então? O que estão fazendo aqui? — Ela questionou com os braços cruzados e um olhar penetrante na sua face e Clark começou a falar.
— Estamos aqui para propor um grande negócio para vocês. Nós temos dinheiro e gostaríamos de atuar como fornecedores externos em outra cidade. Há alguma maneira de nos encontrarmos com o chefe deste lugar?
— … De quanto dinheiro estamos falando? — A mulher disse com uma expressão interessada, mas antes que pudesse terminar, sua cabeça explodiu em inúmeros pedaços que espirraram por todo o chão, em alguns dos outros membros da gangue e no rosto de Clark também.
A escolta deu um passo para trás em choque enquanto olhava para o demônio, mas ele já sabia o que ele estava para perguntar. Até agora, Eiro sempre teve um olhar bastante neutro em sua face e falava de forma bastante monótona e direta.
Porém, agora, parecia que ele estava muito… bravo. Isso pegou a escolta um pouco desprevenida, tanto que até recuou um passo, mas então, Eiro respirou fundo e Clark foi capaz de relaxar um pouco.
— Desculpa, esqueci que isso existia. — O Diabrete comentou, desculpando-se pelos efeitos da marca do <O Diabo>, a qual conseguiu interromper antes de sofrer uma mudança de estado completa. — Bem, deixe-me ser claro. Escrevi todas as memórias que tinha disso antes, então não posso dizer que me recordo, mas ainda existem pedaços e partes na minha cabeça. Então, tenho certeza disso. Muitas das pessoas neste lugar possuem a habilidade Tabu. Não sei como elas têm tanto controle sobre si mesmas, mas estou bastante curioso sobre isso.
— T-Tabu?! — Clark exclamou, confuso. — Como você…
Assim que toda essa situação foi notada pelos outros, o que na verdade demorou bastante tempo, todos dentro da sala pularam, prontos para lutar contra os intrusos.
Com um sorriso no rosto, Eiro olhou para Clark.
— Não se preocupe, posso lidar com isso sozinho. — O Diabrete admitiu, levantando a mão para frente e criando um círculo mágico no meio do ar, um bastante complexo. Ele se concentrou em cada aspecto dele o máximo possível e observou enquanto criava de pouco em pouco dentro de alguns instantes.
— Por sorte, tenho esse pequeno Grimório comigo. — Com uma expressão satisfeita, Eiro apertou com força o livro que segurava em sua mão esquerda. Apesar de ainda ser capaz de se lembrar dessas coisas, Eiro escreveu todas as informações que precisava para conjurar feitiços e criar círculos mágicos em seu caderno, junto com alguns exemplos de feitiços que pensou serem bastante úteis em diferentes situações.
Claro, neste instante, o feitiço mais útil seria uma combinação dos feitiços ‘Sombras Solidificadas’ e ‘Manipulação das Sombras’, por meio dos quais ele poderia fazer inúmeras coisas com seus inimigos por meio de suas próprias sombras.
Ele poderia transformar suas próprias sombras em cordas para derrubá-los, espinhos para perfurar seus corações, ou simples pequenas saliências nas quais tropeçariam, mas magia de sombra de Eiro ainda não era poderosa o suficiente para isso. Em vez disso, tinha que fazer algo semelhante usando outros elementos.
Ele transformou o chão rochoso irregular e o transformou em pequenos espinhos para que seus inimigos não pudessem caminhar direito. Eiro manipulou a água na bebida de todos e as utilizou para golpeá-los. Claro, depois de golpeá-los tentou congelar os líquidos que os cobriam, caso não estivessem feridos demais para lutar, para atrapalhar ainda mais seus movimentos.
Tudo isso eram ações muito pequenas e nada que pudesse ajudar Eiro a terminar com a luta, mas, pelo menos, eram úteis para o Demônio.
Algumas pessoas caíram no chão, algumas até morreram e uma notificação apareceu na frente de Eiro.
[Você subiu de nível]
[Você possui 100 pontos de atributos disponíveis]
Por ora, Eiro ignorou isso. Ele não se importava. Não que precisasse desses pontos de atributos extras agora, então era melhor guardá-los para quando soubesse como usá-los. Eiro passou seus dedos pela notificação, pensando em um bom plano para matar todos aqui.
— Oh, que burro eu sou. Só preciso fazer isso. — De imediato, ele chutou seu pé no chão com um baque alto, enquanto rachaduras apareciam ao redor dele. Rachaduras que viajaram pelo chão e através das paredes e fizeram pequenas rochas caírem.
Até mesmo do teto, pequenas rochas caíram, mas, a cada vez, essas rochas se tornaram cada vez maiores, até que algumas delas caíram na cabeça dos inimigos na frente de Eiro. Uma dúzia foi morta mais uma vez, mas o Diabrete logo notou que estava sendo encarado pela escolta.
— Certo, percebi que você é poderoso, mas pare com isso! Lide com isso de outra forma, se continuar com isso, causará o colapso da caverna e nós morreremos, seu idiota! — Clark exclamou com raiva e Eiro olhou para o teto.
— Certo. Esqueci que estamos sob uma cidade.
— … Esse não é o problema aqui. Seremos esmagados.
— Você quer dizer que ‘você’ será esmagado. Eu tenho magia de terra, ficarei bem.
— Por que você é assim? — Clark questionou. Durante a conversa deles, ninguém tomou a decisão de ficar parado ali e deixar que as duas pessoas falassem em paz, em vez disso, todos começaram a correr na direção de Clark e do Demônio encapuzado ao lado dele.
Eiro levantou sua mão e preparou outro feitiço, mas Clark colocou a mão por baixo da própria capa e a puxou. Eiro conseguia ver o que acontecia, mas ninguém mais conseguia. Clark retirou algumas agulhas metálicas finas, mas compridas e começou a arremessá-las nos agressores.
Elas perfuraram o centro de suas testas e uma das pessoas caiu direto de cara no chão depois de morrer, considerando que tiveram seus cérebros perfurados. Parecia que mais alguma coisa estava ocorrendo, mas Eiro não tinha certeza do que era. Talvez Clark tivesse enchido as agulhas com mana e a tivesse expelido quando perfurou o cérebro para acabar com tudo? Afinal, não parecia que todas as adagas perfuraram todo o caminho até o crânio de todos, mas até mesmo os maiores e mais resistentes caras caíram no chão, assim como os outros que foram atingidos.
Sem dúvidas, era um método interessante de luta, mas Eiro não tinha muito tempo para pensar sobre ele, já que conjurava seus feitiços, mas enquanto conjurava ele olhou para seu livro aberto e leu algo que poderia ser mais útil.
— Ah… Desculpa, em… Clark, certo? Esqueci que tenho uma forma melhor de lidar com isso. Volte para o túnel e segure algum tecido na frente do seu rosto, certo? — Eiro perguntou. Clark estava um pouco nervoso, mas fez como pedido, puxando sua capa na frente da boca e nariz como fora instruído.
Eiro retirou uma pequena garrafa da sua bolsa e começou a conjurar um feitiço bastante completo. Assim que o ativou, com uma rajada repentina, todo o ar na sala foi puxado em direção ao centro do círculo mágico. Alguns pedaços de papel e até mesmo algumas bolsas foram puxados por um instante. Todos pararam e tentavam respirar enquanto uma pequena bola de vento se contorcia acima da mão de Eiro.
Ele puxou todo o ar do cômodo na sua direção. Eiro estava tentando fazer mais uma coisa e derrubou a garrafa de veneno paralisante na bola de vento, transformando-o em um gás que foi misturado com o ar comprimido.
Então, sem hesitação, Eiro empurrou a mistura de ar e gás paralisante de volta na sala. Todos, como haviam perdido o ar sem perceber, estavam completa despreparados para esse vento e ofegaram por ar para se recuperarem, mas, com isso, respiraram o gás paralisante. Portanto, todos, exceto cinco pessoas, caíram no chão de uma só vez. Os únicos em pé eram Eiro, Clark e três inimigos que se lembraram de segurar a respiração pela maior quantidade de tempo possível.