A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 271

A Virtude do Demônio

— P-Por favor, me dê mais uma dose! Eu tenho o din-dinheiro! — Eiro encarou as costas do viciado que imaginava ser aquele que procurava em primeiro lugar e escutou o homem sujo e doente se arrastar pelo chão. Ele implorava para o homem na sua frente, que estava parado com os braços cruzados, com o cabelo penteado para trás e um terno de alta qualidade.

— Não me toque, seu canalha. Tudo bem, me mostre quanto você tem. — O homem rugiu e o viciado assentiu, segurando o maço de moedas de ouro. Assim que o comerciante de drogas pegou isso dele, as mãos do viciado começaram a doer enquanto ele se agachava ali, esperando pela ‘dose’.

O comerciante olhou para as moedas com uma expressão surpresa.

— Hein… Como você conseguiu tanto dinheiro? Matou alguém? — Com uma leve risada, empurrou as moedas em seus bolsos, virando a cabeça e acenando para alguém parado dentro da cabana atrás dele.

Alguns instantes depois, uma das pessoas lá saiu da cabana e estendeu uma pequena bolsa para o viciado. Embora, neste momento, Eiro tenha interrompido.

— Então, é você quem está no comando aqui? — O Demônio perguntou enquanto parava na frente do comerciante de drogas, ainda fazendo anotações em seu caderninho e o homem olhou para ele com uma carranca profunda.

— Quem quer saber disso?

— Oh, alguém que quer um esp- — antes que Eiro pudesse terminar a frase, Clark bateu no ombro do Diabrete, ou pelo menos tentou. O Demônio deu um passo para o lado e olhou confuso para ele. — Que porra foi essa?

— Cale a boca por um momento, deixe-me lidar com isso. — Clark resmungou e depois olhou para o comerciante. — Desculpa por isso… Somos duas pessoas que querem fazer negócios. Podemos falar com a pessoa que produz essas drogas?

Com um pequeno sorriso na face, o comerciante de drogas olhou de volta para Clark.

— Até parece. Tem algum motivo para eu levar vocês até ele? Muitas pessoas querem falar com o chefe, sabiam?

— … Tudo bem, quanto dinheiro você quer? — A escolta colocou a mão na sua bolsa e o comerciante olhou para ele com as sobrancelhas levantadas.

— Me perdoe, minha lealdade não pode ser comprada.

— Você trabalha no mercado negro como um comerciante de drogas e está tentando me dizer que não aceita um pouco de dinheiro em troca de um favor? — Clark perguntou e Eiro, virando a cabeça para o viciado, comentou.

— Quero dizer, o que você esperaria de um escravo? Não é como se ele pudesse ir contra as ordens do seu dono. Ei, curiosidade, mas vocês não estão quebrando um ta-

Eiro logo notou o comerciante tentando agarrar seu ombro, então, sem hesitação, o Demônio bateu o cotovelo no rosto do homem. Com um estalo alto, o nariz dele quebrou e ele perdeu o equilíbrio, então o Diabrete varreu sua perna para o lado e fez o comerciante cair de costas, enquanto sangue escorria do seu nariz para o terno.

— Não toque em mim. — O Demônio disse olhar para a escolta ao seu lado. — Está tudo bem, não precisamos da ajuda dele, sei onde posso encontrar seu chefe. — Eiro comentou enquanto olhava para o meio do ar. Ali, conseguia ver algo que só havia visto algumas vezes até agora, mas nunca prestou atenção.

Era algum tipo de fio que conectava o comerciante e alguém que estava mais adiante naquele complexo subterrâneo. Este fio era parecido ao que viu conectando-o a Nelli, Gondos e Lugo, mas, por algum motivo, eles não emitiam uma sensação nova em comparação com antes, então Eiro pensou nos fios como o tipo normal de conexão que sentia com aqueles três e não prestou muita atenção ao fio em si.

Mas agora, era algo externo que conseguiu ver. Este fio era um pouco diferente, entretanto. Era como se houvesse uma tensão constante nele, como se estivesse esticado e prestes a se partir ao meio. O mesmo tipo de fio conectava todas as pessoas naquela cabana ao mesmo lugar no qual o deste homem parecia se conectar.

— Mais importante… O que é essa coisa? — O demônio questionou enquanto agarrava a bolsa que um dos escravos ainda segurava na direção do viciado. Rasgou um pequeno buraco na bolsa e deu uma cheirada. Claro, isso atacou todos os seus sentidos ao extremo.

O Demônio teve uma breve ideia do que acontecia aqui.

— Ah… interessante. Então, vocês estão tentando enganar as regras dos tabus, hein? Sabia que o efeito colateral era parecido demais.

O comerciante encarou Eiro enquanto segurava seu nariz de dor.

— C-Como você…

— Como eu sei? Bem, é uma pena que eu tenha esquecido disso, para o assunto desta conversa podia ser útil. — O Demônio comentou. — De qualquer forma, seu chefe sabe o que está acontecendo aqui, certo? Ele consegue ver e escutar tudo o que você faz? Então, irei avisá-lo…

Eiro se agachou ao lado do comerciante, sussurrando um pequeno segredo em sua orelha. O homem arregalou os olhos, enquanto seu corpo começava a estremecer por reflexo e o Demônio recuou, ficando ereto de novo.

— É-É verdade?

— Não sei, já esqueci o que eu mesmo te disse. — O Diabrete apontou. — Mas, esqueça isso. Seu cheiro é repugnante. — Sem um segundo de hesitação entre suas palavras e suas ações, Eiro levantou seu pé e chutou o rosto do comerciante. Nocauteando-o, enquanto se agachava no chão e pegava um conjunto de chaves que o comerciante tinha em seus bolsos.

Então, notou que o viciado de antes tentava chegar até ele, ou melhor, até a pequena bolsa em sua mão.

— Is-Isso é meu… Eu preciso disso… d-dê para mim! — Ele exclamou, mas Eiro balançou a cabeça.

— Não, você não precisa disso. Esta coisa está te transformando em um monstro horrível. Você perderá o controle sobre si, vai perder cada pedacinho que lhe resta. Então, aos poucos, receberá monstruosidade se transformando em uma verdadeira abominação que não pode mais ser chamada de uma pessoa. Você apodrecerá com uma dor terrível, sentirá fome constante e seus desejos serão fortalecidos a ponto de sentir vontade de morrer se não conseguir saciá-los. Se acha que agora está em um lugar ruim, espere que essa hora chegue. Você vai rir sobre este momento como se fosse dos ‘bons velhos tempos’. — Eiro explicou, com um tom claro e direto. O viciado o escutou, como todos os outros que estavam aqui para conseguir mais desta droga também encaravam a figura encapuzada com olhos maravilhosos, enquanto sua voz, cheia de determinação e poder, ecoava em suas mentes.

— Se encontrarem qualquer valor em suas vidas, pararão com isso agora. Se não puderem… Bem, irei até as favelas daqui uma semana. Ajudarei qualquer um que precisar e quiser. Até lá, tentem não morrer. — Eiro disse, se virando e caminhando, ainda segurando a pequena bolsa em suas mãos. Ele seguia o fio fino do comerciante, enquanto Clark o seguia e logo perguntava algo ao Demônio.

— … Por que você ofereceria ajuda para esses caras? Não acho que eles mereçam isso. Quero dizer… olhe para eles. — Clark comentou com as mãos enfiadas nos bolsos e Eiro começou a sorrir sob sua máscara.

— Desculpa, eu esqueci. — Ele admitiu. Na verdade, ainda sabia um pouco do motivo para ter feito o que acabou de fazer, mas não queria contar para Clark. Embora, depois de pensar sobre isso, Eiro esqueceu o resto do que acabou de acontecer. Por sorte, escreveu o pouco que lembrava.

— Bem, vamos continuar seguindo esse fio. — O Demônio comentou enquanto continuava caminhando pelo caminho bastante estreito e irritantemente movimentado do mercado negro. Havia algumas pessoas o seguindo por causa do que acabou de acontecer, mas não deveria ser difícil lidar com elas.

— Poderia explicar o que faremos agora? — Com um olhar profundo direcionado para Eiro, Clark questionou e o Diabrete virou a cabeça.

— Encontrar o cara que contratou a Salamandra que fez essas coisas.

Clark olhou silenciosamente para a bolsa que Eiro segurava.

— Como uma Salamandra deveria ajudar com isso? Ela ferve os líquidos utilizados nisso?

— Hm? Oh, não, está queimando os ossos das pessoas até se transformarem em cinzas, misturando-os com qualquer merda que estejam usando para produzir esta droga.

— … O quê? — A escolta respondeu, confuso. — O que você quer dizer? Como você sabe disso?

— Porque eu conheço o cheiro das cinzas das pessoas, é claro? Que pergunta burra, erm…

— … Clark…

— Certo, Clark. De novo, por que você está aqui? — O demônio questionou enquanto olhava para seu caderno. — Independente disso, aqui está. Bem, de qualquer forma, chegaremos em breve.

Com um leve resmungo e uma expressão nervosa, Clark continuou a seguir Eiro através do mercado negro sem nenhuma ideia de onde poderiam acabar. Apesar disso, compreendeu que não era um lugar bom para se estar ao considerar a forma com que Eiro estava agindo com todos. Ele não estava sendo nada sutil. Na verdade, era como se estivesse ficando mais irritado a cada minuto.

— Não me deixe morrer, escutou?

— Tentarei. — Eiro disse sem hesitação e parou, enquanto virava para sua direita, olhando para uma porta de madeira bastante modesta, embutida na parede de pedra daquela caverna sob as favelas.

— Ele está aqui, hein? — Eiro pensou por mais alguns instantes, levantando sua perna na frente da porta… com um movimento rápido, a arrombou, ou pelo menos tentou, se não fosse por Clark, que o afastou.

— O que diabos você acha que está fazendo?!

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