A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 270

A Virtude do Demônio

— Você está vindo? — A escolta perguntou com um resmungo alto e profundo e Eiro olhou para ele.

— Sim?

— Perguntei se você está vindo. Não temos muito tempo. Parece estranho estar aqui embaixo… — Disse o homem de meia-idade, desleixado.

Eiro não havia prestado atenção a esse tipo de coisa antes. Claro, percebeu, mas não pensou muito sobre, desde que não importava muito, mas esse homem parecia ter um estilo de vida bastante tranquilo. Pelo menos, ele não prestava muita atenção à sua aparência e parecia gostar bastante de álcool e charutos.

Não havia nada de errado com isso. O fazia se destacar um pouco na multidão, mas isso combinava muito bem com sua aparente personalidade. Ele andava por aí com um comportamento cansado e preguiçoso, como se quisesse que tudo fosse terminando o mais rápido possível para que pudesse voltar ao que estava fazendo antes.

Na verdade, isso o recordou de uma versão mais velha de Leo-

— Pare. — O Demônio murmurou para si mesmo para interromper seus pensamentos o mais rápido possível e a escolta olhou para ele com uma carranca.

— Eu nem fiz nada, você que pediu para eu vir até aqui com você! — Ele exclamou e Eiro olhou para ele com a cabeça leve inclinada.

— Mas eu não falei com você.

— Hein? — Visivelmente confuso, a escolta tentava compreender o que acontecia, mas desistiu e se virou enquanto continuava caminhando pela escadaria estreita que levava para o ‘submundo criminoso’ da capital.

A entrada era bastante escondida, bem no interior das favelas, muito próximo de onde a organização estava escondida, embora isso fosse uma entidade separada. De qualquer forma, agora que estavam aqui, Eiro tentava não se perder com todas as ‘novas’ sensações. Na maioria das vezes, era o cheiro que fazia Eiro ter curiosidade, desde que havia muitos odores que nunca sentiu misturados aqui, embora Eiro não esperasse que isso acontecesse tão cedo e, não naquela quantidade, com certeza.

Claro, Eiro poderia ter se esquecido de muitas coisas, mas o ponto ainda permanecia. Tudo era muito novo para ele, então era emocionante para o Demônio. Portanto, foi distraído com rapidez e facilidade.

O Diabrete olhou para a figura na sua frente e continuou descendo os degraus.

Eiro pôde ver e escutar alguém subindo a escada estreita e suja lá do fundo. Estava encolhido e todo seu corpo tremia. Mesmo neste clima, ele vestia nada além de uma camisa sem mangas e uma calça simples de tecido.

Havia muitas cicatrizes acumuladas dentro dos seus cotovelos, seus dentes estavam apodrecidos, sua pele estava em um estado horrível e se essa pessoa mergulhasse a cabeça na água, provavelmente perderia o pouco de cabelo que lhe restava. Neste instante, ele só se mantinha preso no couro cabeludo por causa da terra seca.

Era uma visão bastante desagradável e desestimulante, mas era a pessoa perfeita para se perguntar nesta situação. Assim, enquanto a escolta se empurrava contra a parede, certificando-se de manter as mãos pressionadas em seu relógio e qualquer pertence valioso, Eiro permaneceu no meio da escada, esperando pelo homem.

O homem estava olhando para os degraus e parecia meio distraído, então ele correu direto até Eiro. O Demônio não se mexeu enquanto o homem quase caiu dos degraus, se não fosse pela rápida reação de Eiro ao segurar o braço do homem.

— Oops, desculpa por isso. Te machuquei? Há alguma coisa que eu possa fazer para você? Literal qualquer coisa, sou bastante rico, então se quiser algum dinheiro… — Eiro comentou, tentando enganar este homem, que estava de braços vazios e com uma expressão de raiva, como se estivesse prestes a matar alguém, então era claro o que havia acontecido lá embaixo.

A escolta olhou para Eiro com uma expressão confusa, enquanto o viciado olhava para o Diabrete.

— Dinheiro! M-Me dê dinheiro! O máximo que puder! — Ele gritou, segurando a capa de Eiro e o Demônio sorriu sob sua máscara enquanto colocava a mão na bolsa conectada ao seu cinto, retirando um maço de pequenas moedas de ouro.

— Isso é o suficiente pelo problema? — Ele perguntou, sem sinceridade e o viciado pegou o maço, se virando para descer as escadas correndo, esbarrando na escolta de Eiro durante o caminho. O homem em questão o encarou irritado.

— Para que foi isso? Sabe quanto dinheiro isso era? Esqueceu até mesmo isso?

— Claro que não. Bem, ainda não, pelo menos, mas esse não é o ponto, porque é o suficiente para dar a esse homem uma noite muito boa. Devido a uma nova habilidade minha, ainda não consigo utilizar minhas habilidades perceptivas em lugares como os que encontraremos lá embaixo. Será muita, muita cansativo, eu presumo… — Eiro começou enquanto escrevia isso no caderno em que carregava e a escolta olhou para ele.

— Então?

— Bem, é claro que iremos segui-lo para que não precisemos procurar pelo lugar certo por conta própria. Ele experienciou os mesmos efeitos colaterais dos outros viciados aqui nas favelas.

— …. Sério? Você conseguiu ver isso na escuridão? — A escolta questionou e Eiro assentiu.

— É claro. A escuridão é como a luz do dia para mim, se eu me concentrar o suficiente, mas, deixa para lá, vamos continuar, erm…

— Clark.

— Certo, vamos continuar, Clark. Ele é bastante rápido, mas não é páreo para nós dois, certo? — O Demônio perguntou, enquanto se inclinava para frente, praticamente caindo escada abaixo, chutando o degrau para pular. Ele usou magia de vento para equilibrar a parte superior do seu corpo, enquanto continuava chutando os degraus para chegar ao fim da escada com uma velocidade extrema.

Enquanto isso, a escolta, Clark, seguia atrás de Eiro, incomodado. Logo, Eiro chegou ao fundo da escadaria e se encontrou dentro de uma sala pequena. Viu um olhar do viciado enquanto a porta do outro lado do cômodo era fechada, então não deveria desperdiçar muito aqui e deveria se apressar.

Mas, assim que tentou atravessar a sala, um cara bem grande o parou. Ele era bastante grande tanto em altura como em largura e até mesmo segurava a perna assada de um animal em sua mão, rasgando-a com os dentes.

— Qual é o seu propósito aqui? — Ele questionou enquanto bloqueava o caminho para a porta, mas Eiro não o escutou de fato. Na verdade, sua mente, influenciada pelo Cavaleiro de Ouros recém-adquirido, estava focada nos aspectos físicos desse homem.

Uma testa bastante proeminente, pele pálida e doentia com uma tonalidade incomum… Uma mandíbula bem grande com caninos proeminentes, assim como pequenas protuberâncias semelhantes a presas saindo do maxilar inferior. Combinando com sua altura incrível e o apetite evidente, Eiro chegou a uma conclusão rápida, enquanto sua curiosidade natural transparecia. Por algum motivo, depois de todos os estados que passou durante todo esse fiasco, sua curiosidade, que lhe dera as sub-raças ‘Diabrete Acadêmico’ e, posteriormente, ‘Diabrete Colecionador’, estava aumentando bastante, depois de ter diminuído um pouco nos últimos anos. Era como se fosse uma criança naquele momento, aprendendo coisas novas e emocionantes.

Assim, combinado com sua curiosidade… Os modos de Eiro sofreram um pouco.

— Oh, você é um meio-orc, não é? Como é isso? — O demônio questionou. Deveria ser uma pergunta genuína, nascida da sua curiosidade, mas, por algum motivo, ela saiu… de forma bastante ofensiva.

— Muito merda quando tem uns babacas como você por aí. — O Meio-Orc comentou com um rosnado baixo e Eiro olhou para ele com um sorriso sob sua máscara.

— Ei, você! Pare de correr na frente, seu idiota! — Clark gritou das escadas, ofegando enquanto entrava na sala, vendo o Meio-Orc grande se elevando sobre Eiro. — Urgh… O que você fez dessa vez?

— … Boa pergunta, acho que esqueci de anotar.

— Você é tão irritante — A escolta disse, embora tenha conseguido ficar quieto enquanto olhava para o Meio-Orc. — Desculpa por isso, ele é um pouco perturbado da cabeça. Me certificarei de que ele não cause problemas. Estamos aqui a negócios e temos muito dinheiro para gastar. — Clark explicou e o Meio-Orc assentiu.

— Não que eu me importe. — Ele resmungou e deu um passo para o lado. Clark empurrou Eiro pela porta.

— Agora, procure aquele viciado e vamos embora.

Eiro fez como pedido e logo conseguiu avistar o homem em questão. Portanto, Eiro correu na direção dele para que conseguisse alcançá-lo e Clark o seguiu o mais rápido que podia.

Enquanto isso acontecia, Eiro conseguiu dar uma boa olhada na área ao redor. Era como um mercado gigante em uma única caverna subterrânea. Alguns cômodos foram escavados nas paredes e havia plataformas de madeira levando até eles, enquanto outros estavam localizados no meio da caverna, como barracas de comida, mas algumas delas, em vez de vender lanchas, vendiam armas ilegais, comidas ou até mesmo pessoas.

Apesar disso… seus olhos ainda se fixaram em uma barraca que continha muitos livros. Ele ficou um pouco curioso sobre o que era, mas, neste ponto, Clark já havia o empurrado para frente, para que continuasse com a busca. De qualquer forma, Eiro escreveu uma nota sobre a barraca e continuou olhando em frente, encarando as costas do viciado de antes.

E ele estava parado ali, na frente de uma loja bem grande que parecia ser a principal fornecedora dessa droga especial que todos nas favelas tomavam há algum tempo. 

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