
Volume 3 - Capítulo 269
A Virtude do Demônio
Solomon olhou para Eiro com uma expressão preocupada.
— Tem certeza de que é uma boa ideia não voltar e explicar a situação para eles? Eles podem acre-
— Não irei voltar neste estado, como eu disse. É muito arriscado para mim… E… mesmo que eu quisesse voltar, não sei o que acontece quando me fundo com um espírito agora. Não só meu corpo, mas minha se funde com eles… Essa habilidade pode afetar o espírito. Pode ser cruel o que direi… não me importo com espíritos aleatórios que posso encontrar por aqui, mas me importo… com aqueles dois. — Eiro disse, tentando pensar o mínimo possível em Nelli e Gondos.
Ao ouvir a explicação, Solomon assentiu.
— Entendo… Então, você quer encontrar um espírito com quem não se importa e fazer um contrato, sem se importar com as consequências? Para que possa encantar o condutor?
Sem hesitação Eiro acenou com a cabeça enquanto continuava a encarar as anotações no chão e escrevia ainda mais para que pudesse se recordar da situação. Até agora, havia escrito o máximo de informações possível, transcrevendo os eventos que se desenrolavam ao seu redor para que pudesse ter acesso ao que estava acontecendo desta vez de alguma maneira, forma ou formato.
— Como eu disse, pode ser cruel, mas é assim que é. — O Demônio respondeu sem pestanejar. — Onde podemos encontrar Espíritos por aqui?
Solomon cruzou os braços, reflexivo.
— Isso depende… Quais elementos você possui mais afinidade para que possamos encontrar um espírito desse elemento?
— Fogo, Vento, Sombra e Natureza. Bem, tecnicamente também Gelo, mas essa situação é mais complicada… — O Demônio explicou. O Rei olhou para ele com um sorriso irônico, embora tenha recuperado sua compostura enquanto começava a refletir.
— Espíritos da Natureza e das Sombras estão fora de questão, eles são ainda mais raros do que Espíritos dos Elementos base. Espíritos do Vento podem ser encontrados em algumas ravinas com correntes de ar fortes devido à geografia extraordinária da região… Estão há um dia de viagem com Arias, mas não sei quão arriscado seria para você sair da tempestade por conta própria… Não conheço nenhum lugar que possa ter Espíritos de Fogo perto daqui. Desculpa. — Solomon disse com um tom genuíno, mas Eiro balançou a cabeça.
— Não é sua culpa, mas que tal o mercado negro? Quando estive nas favelas mais cedo, me fundi com um dos Espíritos para procurar o Colecionador, percebi algo que tinha um cheiro particularmente estranho… era semelhante ao cheiro mágico que um Espírito tem. Presumo que possa ter sido aquela droga estranha que está circulando nas favelas… — Eiro explicou e Solomon levantou as sobrancelhas em resposta a escutar isso.
— Sim, recordo-me do fato de que partes do corpo de Gondos foram vendidas em Argberg… Isso é algo similar, certo? Como se tivesse algum tipo de efeito positivo nas pessoas que o portam ou o consomem. Acha que pode ser viciante?
— Quem sabe? A magia é misteriosa… Com a mesma substância, alguns seres podem conjugar pedras do ar e outros podem reviver pessoas. Seus efeitos podem ser bastante imprevisíveis…
— Entendo… Então, devemos ir até o mercado negro. — Solomon disse, mas Eiro virou a cabeça para ele e balançou sua cabeça de imediato.
— Não, você não irá comigo. Um Rei no submundo do crime do próprio país? Essa não é uma boa ideia. Irei sozinho com o Cervo… Com Lugo… este é o nome dele, certo? — Eiro perguntou depois de olhar para a folha de papel com o nome dele escrito e Solomon olhou para o chão.
— Não. Não irei seguir o que você diz sem dar minha opinião sobre isso. Primeiro, eu sei algo sobre Lugo que você pode ter esquecido, que ele é uma existência bastante especial por si próprio. Até mesmo fisicamente ele se destaca em comparação a outros cervos. Seria arriscado demais para ele ir àquele lugar. Designarei uma escolta de quem confio para você. Tudo bem com isso? — Solomon perguntou e Eiro olhou de volta para ele, assentindo.
— Entendido, mas deixe-me inspecionar essa ‘escolta’ primeiro… Quero ver se é capaz de ficar de boca fechada. — Depois de escutar a demanda do Demônio, Solomon tinha que concordar. Era razoável nesta situação, afinal.
Primeiro, o que precisavam fazer era sair deste lugar. Tinham todas as informações que precisavam, Eiro e Lugo só tinham que seguir Solomon de volta até o castelo. A tempestade de neve tinha ganhado força enquanto estavam dentro da biblioteca, mas talvez fosse sua imaginação, porque estava de noite e, portanto, mais frio.
Eiro e Lugo aguardavam no saguão de entrada do castelo, sendo observados por inúmeros guardas, soldados e batedores, até que Solomon chamou o Demônio escadas acima. Ele correu até lá, ignorando os olhares de raiva e ódio das pessoas ao redor. Eiro olhou para o livro que segurava, o qual estava cheio de informações sobre os eventos atuais, mas ainda estava tão confuso quanto antes, depois de ler tudo o que havia ali.
Assim que o Diabrete entrou no escritório de Solomon, a primeira coisa que fez foi olhar para o Rei no outro lado do cômodo, enquanto inclinava a cabeça para o lado.
— Ei, erm… Solomon, certo? Algo aconteceu com aqueles seus guardas? Tenho a sensação de que eles me desprezam… — Ele comentou.
— Provavelmente sim. Mais cedo, você nocauteou a maioria deles enquanto forçava sua entrada no castelo, afinal. — O Rei respondeu com um sorriso e Eiro olhou para o livro em sua mão, escrevendo essa informação dentro dele.
— Sério…? Esqueci, desculpa… — Ele murmurou.
— Tudo bem. — Solomon disse de forma tranquilizadora. Na realidade, toda aquela situação estava longe de ser boa, mas Solomon não sabia o que mais deveria dizer, afinal, Eiro não se recordava de nada disso. Mesmo se o repreendesse, Eiro esqueceria daqui a alguns instantes de qualquer forma.
— Ah… bem, quem é ele? Aquela… Escolta que você mencionou?
Surpreso por ter sido visto com tanta facilidade, um homem saiu das sombras enquanto olhava para Solomon.
— Ele é tão impressionante quanto você mencionou… Pensar que ele conseguiu ver através da minha Habilidade Furtividade Avançada assim.
— Essa foi uma habilidade no grau Avançado? Parecia estar no aprendiz para mim. — O Demônio respondeu sem rodeios enquanto escrevia a informação que tinha até então em seu caderno, apesar de que o homem em questão parecia insultado com esse comentário.
— Ei, quem você é?
— Acho que sou alguém com habilidades perceptivas com quatro dígitos em percepção, se não melhor, assim como alguém que treinou essas habilidades perceptivas enquanto tentava perceber através de alguém com Furtividade no Grau Mestre. Porque fui capaz de ver através do seu truque que você tentou executar usando magia de sombra, que também possuo, não significa que você não é habilidoso. Você é muito mais habilidoso em furtividade do que eu, mas minha habilidade de percepção é muito superior à sua furtividade. Isso é tudo. — Eiro disse. Através da reação do homem, conseguiu descobrir que tipo de pessoa ele era e que possuía um ego bastante grande. Para esclarecer tudo, Eiro lhe contou a situação em vez de ter que lidar com essa escolta irritadiça o tempo todo enquanto andavam pelo mercado negro.
— Certo, estou pronto. — O Diabrete disse, enquanto a escolta que Solomon escolheu olhava para o Rei, confuso.
— Ele estava falando a verdade agora, não estava? Onde você encontrou este cara…? — A escolta perguntou com um sorriso irônico e Solomon deu de ombros.
— Ele me encontrou, na verdade, mas isso não importa agora. Eiro, você pode confiar neste homem. Pelo menos, confio nele. — Solomon comentou, então Eiro assentiu.
— Bom saber. Ainda verei se posso confiar nele, se estiver bem para você. — O Demônio sugeriu e Solomon assentiu e permitiu que Eiro fizesse suas coisas.
Eiro caminhou até o homem e pressionou sua palma no peito dele, enviando um pulso de mana rápido no peito dele. Ele não sabia por que fez isso, mas fez. Logo depois disso, percebeu o motivo. Ao enviar mana no corpo deste homem, Eiro conseguiu descobrir cada mínimo detalhe do corpo dele, dentro e fora.
Conseguiu entender como ele reagia a choques repentinos de dor, quão bem constituído seu corpo era e até mesmo quão fortes eram suas capacidades mágicas por ver quão bem a mana viajava por ele e se ela o percorria de forma ininterrupta ou se movia repentina ao redor depois do ‘impacto’ com a forte mana dentro dele.
— Hm… — O Demônio murmurou enquanto a escolta segurava a mão dele em seu peito, encarando Eiro com um olhar penetrante.
— Qual é o problema com você, cara? O que foi isso agora?
— Erm… — Eiro olhou de volta para a escolta e pensou na resposta, mas teve que voltar para o livro que segurava. Ele folheou algumas páginas e viu a informação que precisava. — Certo, desculpa. Só estava inspecionando você. Isso me ajuda a compreender muitas coisas sobre você através das minhas habilidades. Agora, responda algumas perguntas, certo? — Eiro perguntou e a escolta olhou para Solomon, que deu de ombros em resposta.
A escolta suspirou e acenou com a cabeça.
— Claro, eu acho.
Assim, tendo recebido permissão, Eiro começou a fazer perguntas aleatórias que pareciam não ter relação com toda a situação atual, mas eram questões que, em um padrão estranho, permitiriam que o Diabrete descobrisse a forma que essa escolta pensava, sem revelar nada sobre Eiro ou o porquê a escolta era necessária.
Mesmo com as habilidades de Eiro, devido ao seu estado mental atual, era impossível usar de fato essas habilidades como planejava, mas era bom o suficiente pelo menos, ainda mais porque Solomon também garantiu esta escolta.
Desse modo, Eiro ganhou um companheiro temporário, por meio do qual Solomon podia garantir que o Demônio não se esquecesse do motivo pelo qual estava vagando no mercado negro.