A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 268

A Virtude do Demônio

Eiro folheou os livros que estavam na sua frente o mais rápido possível, tentando registrar as informações para utilizar o Cavaleiro de Ouros, enquanto não esquecia. Era um pouco difícil, mas, contanto que Eiro compreendesse quais páginas eram as mais importantes por ora, deveria conseguir descobrir algo.

Em primeiro lugar, não havia muitos livros sobre manipulação de memória aqui, então Eiro tinha que extrair deles o máximo de informações que conseguia.

Ele copiava algumas páginas sempre que encontrava partes que eram, sem dúvidas, necessárias, então, depois de cerca de duas horas de leituras repetidas dos mesmos livros, páginas e parágrafos, Eiro se levantou e colocou a última página que copiou no chão.

Com sua percepção e inteligência, Eiro tinha a sorte de ver e perceber tudo que estava observando ao mesmo tempo, se assim quisesse. Desse modo, poderia utilizar todas essas informações de uma vez e combiná-las.

O Demônio permaneceu parado no centro desta sala e Lugo estava deitado no canto da sala para que não atrapalhasse ninguém, enquanto Solomon tentava auxiliá-lo da melhor forma possível.

Eiro continuou olhando para as páginas. Olhou para as letras, para os esboços, para tudo. O Diabete repetiu toda a informação em sua cabeça, até que algo começou a mudar.

Da perspectiva de Eiro, pelo menos. Para Solomon e Lugo, tudo permanecia igual. O Demônio viu os esboços, as runas e as palavras que eram mais importantes começarem a brilhar. Quanto mais se concentrava nelas, mais brilhantes elas se tornavam, até que quase saltaram das próprias páginas.

Essas linhas brilhantes flutuavam ao redor da cabeça de Eiro, enquanto eram repetidas em sua cabeça. Ele conectou certas coisas de maneira que nunca havia feito antes, algo que Eiro tinha certeza, mesmo com sua incapacidade de se lembrar da sua vida.

O Diabrete olhou para as letras brilhantes e começou a compreender o que havia de errado. Todos esses feitiços e todas essas teorias ajudaram Eiro a chegar a uma conclusão.

— Todos os feitiços que manipulam a memória permanente necessitam ser aplicados por um longo período. Quanto mais cedo o efeito é interrompido, mais provável é que a memória seja recuperada, mas… a remoção forçada do efeito sem que o feitiço em si seja interrompido pode, ou não, causar consequências catastróficas nos afetados. Amnésia completa, dano cerebral ou a simples falha do feitiço estão dentro da gama de possibilidades ao lidar com feitiços de memória. — O demônio explicou. Como se estivesse recitando algo escrito em um livro, embora nenhum dos textos que ele tivesse lido dissesse nada sobre isso diretamente, Eiro sabia que isso era verdade depois de conectar tudo.

Claro, Solomon anotou o que Eiro disse sem um momento de hesitação.

— Então… isso significa que não podemos deixar a tempestade, afinal. Na verdade, devemos garantir que ninguém o faça…

— Está tudo bem… Só precisamos nos preocupar com aqueles com quem eu falei. Aqueles que me viram ou ouviram falar de mim já terão esquecido. Vou te contar sobre qualquer um que eu ache que possa ser afetado por deixar a tempestade neste momento. — O Demônio disse. Era arriscado, mas precisava ser feito. Caso contrário, pessoas aleatórias, não afetadas e inocentes poderiam sofrer consequências imensas por saber de Eiro.

O Diabrete percorreu suas memórias desta cidade e explicou o nome, localização aproximada e aparência de todos que pensou serem possíveis afetados. Pessoas da Guilda dos Aventureiros. Mercadores com quem interagiu, diferentes guardas ou soldados que começaram a reconhecê-lo quando entrava ou saía da cidade, conversas fiadas ou acenavam para ele. No fim, Eiro mencionou todos, exceto aqueles que Solomon poderia descobrir por conta própria, como as crianças, o grupo de Eiro, seus Espíritos contratados, os monstros que ele ‘domou’ e, claro, Charles, o filho de Solomon.

Mas, assim que Eiro terminou de descrever uma pessoa em particular, já havia começado a esquecer sobre ela. Esta cidade, que estava se tornando seu novo lar, se tornou fria e desconhecida. A única parte desta cidade que ele poderia reconhecer como sua casa era a mansão e isso era algo que Eiro não queria pensar agora. Ele queria manter essas memórias o máximo que pudesse.

Assim que Solomon escreveu todas as informações sobre as pessoas que poderiam ser muito afetadas por este feitiço, saiu do cômodo e deu aos guardas a tarefa de procurar todas essas pessoas e colocá-las sob prisão domiciliar para a própria segurança delas, até segunda ordem.

Então, voltou para Eiro, para que investigasse as outras duas soluções possíveis. Pelo menos, já haviam estabelecido que seria impossível para um feitiço como este afetar o mundo todo, assegurando que ele foi fundido com a tempestade de neve. Solomon ainda aguardava pela resposta da sua carta mágica, entretanto, para ter certeza.

— E se você tentar impedir a tempestade? Como se dispersasse ela em vez do feitiço em si? — Solomon perguntou. Eiro havia mencionado que foi abençoado pela Dama do Inverno, então tinha uma magia de gelo potente que poderia ser capaz de controlar tal clima. No mínimo, poderia tentar, talvez enfraquecesse a tempestade ou diminuísse para que o feitiço não tivesse efeito total.

Enquanto Eiro pensava sobre a resposta para essa pergunta, começou a folhear certas páginas de um dos livros. Ele havia colocado as páginas que havia copiado na marca de forma que indicassem de que livros poderia encontrar quais tipos de informações e, por sorte, Eiro conseguiu descobrir isso com a ajuda do Cavaleiro de Ouros.

Folheou o livro aberto e logo encontrou um pouco da informação que precisava, copiando em uma folha de papel que adicionou às outras.

Eiro fez isso mais algumas vezes, até que terminasse e todo o processo se repetiu como antes. Ele acessou todas essas informações importantes o mais rápido que podia e tentava chegar a uma conclusão.

— Esse feitiço e a tempestade parecem fundidos. Isso significa que é muito provável que seja impossível separá-los… Talvez eu precise dissipar ambos ao mesmo tempo. Impedir a tempestade e impedir o feitiço juntos. Se eu parar a tempestade, pode ser similar a retirar alguém do alcance do feitiço e pode causar danos imensos. Devido à natureza da tempestade, é impossível parar o feitiço sem parar a tempestade. Então, preciso dissipar ambos ao mesmo tempo, só assim funcionará. — Eiro explicou para Solomon, para que o Rei pudesse anotar e conseguissem se recordar.

— Mas como você pode fazer isso? Seria como conjurar dois feitiços de poder imenso de uma vez, não é? — Solomon questionou e Eiro assentiu enquanto caminhava em direção a uma mesa próxima. Ele escreveu algo em um pedaço de papel, enrolou-o e inseriu entre as rachaduras da sua prótese em um lugar específico, esfregando seus olhos por um instante.

— É… é, acho que sim. Na verdade, isso em si não é o problema. — Eiro disse enquanto voltava para as folhas de papel para ver a conclusão que chegara, agora que havia esquecido, de novo, todas as informações.

— Entendo… Um feitiço como esse requer imensa concentração do conjurador. Não é algo que pode ser conjurado e ter um efeito como este que se perpetua, mas, independentemente disso, o conjurador certamente morreu. Eu vi a notificação e recebi os níveis por matá-lo. Então, só há uma explicação para o que aconteceu: o inimigo não conjurou o feitiço, mas criou algo que atuou como um condutor… algo que manteria o feitiço ativo para ele. Similar ao conceito de um filactério. — Eiro falou, utilizando essa comparação específica porque viu a anotação mencionando o filactério escondido na mansão.

— Presumo que tenha assumido uma forma física… Você me mostrou um esboço de como a tempestade funciona, certo? Está circulando esta cidade e seus arredores, sem se mover, certo? — Eiro questionou e Solomon assentiu.

— Sim, isso mesmo. — Ele respondeu. Por um instante ele pensou que Eiro havia se recordado de algo, mas percebeu que isso estava escrito em outro papel espalhado pelo chão.

— Então é simples. — O Diabrete disse. — O Condutor deve estar escondido em algum lugar dentro desta cidade. Ele pode ter assumido qualquer forma, entretanto, apesar de haver uma grande quantidade de mana conectada a ele. Talvez eu possa usar essa quantidade de mana para criar um feitiço que derrube esta tempestade. Ao mesmo tempo, como o condutor não terá a mana necessária, o feitiço não continuará e parará de ser colocado na tempestade. Eu… — Eiro disse, suspirando fundo com o fato de que estava para desistir de parte das suas memórias com Nelli e Gondos. — Posso me fundir com meus Espíritos e fiz isso muitas vezes antes. Quando faço isso, recebo a habilidade de sentir magia da mesma forma que eles conseguem. Serei capaz de encontrar o condutor dessa forma.

Depois dessa explicação, Solomon levantou as sobrancelhas com um sorriso.

— Isso é perfeito! Então, vamos nos apressar e ir até a mansão para encontrar Nelli e Gondos, então.

— Não. — Eiro interrompeu. — Não irei voltar para a mansão. Não neste estado. Minha mente está a mil e não sei como fazer isso parar no estado em que estou. Se eu voltar para a mansão, minhas memórias sobre ela viriam à tona e as esqueceria. Esquecerei a mansão, esquecerei meus amigos e minha família. Não quero isso. Já esqueci você e…o Cervo… Não quero esquecer o resto dos meus entes queridos.

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