
Volume 3 - Capítulo 267
A Virtude do Demônio
— O inimigo conjurou um feitiço morrer e se transformou em pó, em vez de deixar um cadáver. — Solomon repetiu para Eiro mais uma vez e o Demônio assentiu enquanto continuava sentado no escritório.
— Certo… Erm… O que aconteceu com o pó de novo? Ele se misturou com a tempestade lá fora? — Eiro questionou ao homem, que assentiu com os olhos arregalados.
— Sim, exato! Foi isso que você disse que aconteceu! Tem alguma ideia do que isso significa? — O Rei perguntou, animado por parecerem estar tendo algum progresso.
Mas, no fim, Eiro ainda não tinha certeza.
— Acho que… o inimigo pode ter conjurado um feitiço que se misturou na tempestade? Consegue verificar se outros fora do alcance da tempestade também se esqueceram sobre mim? — O Demônio perguntou para Solomon, enquanto já esquecia da conclusão a que havia chegado.
O Rei, já esperando que isso aconteceria, escreveu a resposta de Eiro em uma folha de papel para que não fosse perdida. Assim, Solomon pegou uma caixinha da sua prateleira e a abriu.
Ele segurou uma pena vermelha que estava ali dentro e a mergulhou em uma tina azul-royal, escrevendo o destinatário, o remetente e a mensagem no pergaminho que também estava dentro da caixa. Solomon se aproximou da janela e a abriu, rasgando o pergaminho ao meio. Isso criou uma grande chama que disparou para a tempestade lá fora, assumindo a forma de uma águia.
— Esse é um dos poucos que me restam, mas se é tão importante saber disso quanto presumo, então não posso ter medo de utilizar tais itens. — O Rei explicou, olhando de volta para Eiro, sentado no sofá, olhando todas as anotações que Solomon havia colocado na sua frente.
— Vamos continuar com… essa ideia mais um pouco… se ele afetou a tempestade em si, então… Quanto tempo a tempestade deveria durar, de novo? — O Diabrete perguntou, embora tenha ficado assustado com o fato de que Solomon falou, como se tivesse esquecido que não estava sozinho.
— Ouvi falar que duraria mais seis dias. A princípio, os meteorologistas com quem tenho contato me disseram que deveria acabar dentro de um dia ou dois, mas, repentinamente informaram que ela duraria muito mais tempo do que o previsto essa semana. — Solomon explicou para Eiro, que fechou os olhos para que conseguisse se concentrar.
Era difícil usar sua nova habilidade enquanto esquecia todas as informações que descobria, porque muito disso era difícil colocar em palavras. Enquanto Eiro tentava colocar isso em palavras para que Solomon pudesse se recordar, para ele, ele já teria começado a esquecer a informação e precisaria descobrir desde o começo de novo.
— A tempestade talvez tenha sido… aprimorada pelo feitiço? Talvez o inimigo… esteja utilizando-a para causar o efeito? — O Demônio começou, mas Solomon pensou que havia algo de estranho nisso.
— Mas já fez efeito, não é? Por que seria necessário que a tempestade se prolongasse dessa forma? — O Rei questionou, então chegou a uma realização própria. — A menos que o efeito não sej-…
— A menos que não seja permanente…? — Eiro perguntou e olhou para as folhas de papel na mesa à sua frente. Por sorte, elas continham todas as informações que ele precisava para chegar à sua próxima conclusão. — Mas, ao mesmo tempo, a tempestade não está aqui para certificar-se de que o feitiço continue ativo durante a tempestade… Caso contrário, você teria esquecido sobre mim de novo, já que ela ainda está forte lá fora. — Eiro disse, olhando para Solomon, tentando conectar o nome que viu escrito na folha de papel com a pessoa.
— Então, em vez disso, a tempestade está aqui para tornar o efeito permanente no fim? — Com essa conclusão que Solomon sugeriu, Eiro se levantou do sofá e assentiu. — Acho que sim. Essa é a única coisa que faz sentido… certo? Ou eu… já esqueci outra solução para isso? — Eiro questionou, mas Solomon negou.
— Não, essa é a primeira conclusão real à qual você chegou. Ela parece certa para você? Parece ser a ‘verdade’ da situação? — O Rei perguntou e Eiro olhou para as folhas de papel na sua frente, enquanto Solomon entregava outra com a conclusão à qual ele havia chegado agora escrita e o Diabrete assentiu sem hesitação.
— Parece. Parece certo. Essa é a verdadeira forma desta tempestade… Está aqui para tornar esse efeito permanente. Isso significa que, até lá, preciso impedir a tempestade de alguma forma, para que eu não seja esquecido para sempre?
— Sim, é o que parece, mas como algo desse tipo pode ser desconjurado?
Eiro fechou os olhos por um instante, tentando descobrir o mais rápido possível e soltou um suspiro profundo no final.
— Existem três formas possíveis, eu acho. Primeiro, fundir um contrafeitiço na tempestade. Segundo, fazer com que a tempestade deixe de existir. Terceiro… mover todas que importam para fora do alcance da tempestade até que ela acabe. Certo?
— Mas isso não parece um pouco fácil demais? Um feitiço com uma força imensa como este seria parado com tanta facilidade? Só retirar as pessoas do alcance do feitiço parece possível, mas-
— Estava pensando a mesma coisa… preciso de livros de feitiços relacionados a todos os feitiços sobre manipulação de memória que você pode me fornecer. Isso não parece certo, é muito fácil… — Eiro respondeu para Solomon, que assentiu.
— Foi o que imaginei. A maioria das bibliotecas deste país se localiza dentro da academia e é fortemente protegida, mas, é claro, como o Rei, tenho acesso a tudo que possamos precisar. Venha, vamos nos apressar.
Solomon segurou as folhas de papel que estavam sobre a mesa na frente de Eiro, enquanto se recordava de pegar qualquer tipo de material de escrita que pudesse para que conseguisse se certificar de escrever qualquer tipo de informações que pudessem descobrir.
Claro, Solomon teve que recordar Eiro do que deveriam fazer agora com rapidez e que ele deveria vestir sua máscara e capa, enquanto escondia suas asas e chifres com magia, mas assim que saíram, Eiro pôde se sentar nas costas de Lugo e permitir que o Cervo assumisse a liderança.
— Mas sua Majestade, não posso permitir que acompanhe este estranho depois que ele invadiu o castelo! — Um dos capitães da guarda exclamou enquanto Solomon subia nas costas de Lugo, logo atrás de Eiro, mas o Rei encarou o guarda com uma carranca .
— Pouco me importo com o que você me permite ou não fazer. Mande guardas atrás, se quiser, mas é de importância extrema que cheguemos à biblioteca o mais cedo possível. Este cervo é ainda mais rápido do que um Aria, pelo que parece, e muito mais inteligente que um. — O Rei explicou e Lugo virou a cabeça com uma expressão presunçosa, embora logo tenha percebido que não era bom se sentir feliz ao ser chamado de ‘muito mais inteligente’ do que algumas bestas mágicas aleatórias.
Enquanto isso, Eiro olhava ao redor. Ele tinha retornado a um estado em que não estava pensando, mas, antes disso, conseguiu instruir Solomon sobre como despertá-lo com um pulso de mana bem no centro do seu pescoço. Dessa forma, Eiro esperava perder o mínimo de memórias possíveis enquanto ainda possibilitava usar ao máximo sua inteligência e sua nova habilidade.
Depois de discutir mais um pouco, Solomon tomou a decisão final e disse para Lugo começar a correr. Os guardas não podiam fazer nada. Eles não poderiam restringir ou machucar seu Rei, então tiveram que aceitar essa decisão.
Seguindo as instruções de Solomon, Lugo correu na direção da Academia, que ocupava pouco mais da metade da parte central da capital de Skyhart, enquanto o resto da parte central era ocupado pelo castelo real.
Cavalgaram pelos portões e embora os guardas quisessem os impedir, assim que Solomon mostrou sua autoridade real, eles saíram do caminho e escoltaram Solomon para dentro da academia.
Lugo parou na frente do grande prédio que levava à biblioteca e Solomon assumiu a liderança enquanto levava Eiro e o Cervo para dentro.
— S-Sua Majestade, que surpresa agradável! — O bibliotecário-chefe disse com uma reverência, embora estivesse confuso com o Cervo e o homem encapuzado atrás dele, em vez de guardas, como se esperaria.
— Leve-nos até a parte da biblioteca que contém os livros de feitiço sobre manipulação de memória. — O Rei ordenou de imediato e o bibliotecário o encarou confuso.
— M-Manipulação de Memória? Imediata, sua Majestade! — O homem exclamou um tanto nervoso e liderou o caminho. Ele levou Solomon, Eiro e Lugo, assim como alguns guardas que conseguiram alcançá-los, até o fundo da biblioteca, onde mais guardas estavam posicionados para proteger esta área.
No resto deste lugar as partes eram abertas e ninguém seria obstruído por guardas ou portas especiais. Muitos estudantes pareciam estar sentados e lendo, fosse por seus estudos ou por prazer.
Claro, agora que o Rei estava passando por estes corredores, todos levantaram e se ajoelharam na direção em que Solomon caminhava. Eiro ficou um pouco confuso com o que acontecia, até que olhou para as folhas de papel em suas mãos, as quais explicavam que Solomon era o Rei.
Com essa informação, essa situação fez um pouco de sentido.
Eiro seguiu atrás de Solomon, encarando algumas partes da biblioteca por pura curiosidade. O homem, caminhando na frente dele, olhou para os guardas.
— Não entrem neste espaço sob nenhuma circunstância, a menos que eu comande o contrário. Qualquer um que ousar desafiar será punido de acordo… Isso é tudo.