
Volume 3 - Capítulo 266
A Virtude do Demônio
Eiro olhou para Solomon com uma expressão séria, depois deixou seus olhos vagarem pelo chão. Com uma expressão amarga, começou a falar.
— Primeiro, devo pedir que me escute com o máximo de atenção que puder e se lembre de tudo o que escutar, porque posso esquecer depois que falar sobre isso e posso precisar que me recorde algumas coisas que eu te contar. — O Demônio explicou e Solomon assentiu, pronto para escutar o que Eiro tinha a dizer.
Eiro deixou que isso fluísse da sua boca sem nenhum filtro.
— Primeiro, preciso que você saiba que atual <A Morte> está aprisionada dentro da prisão da capital e eu possuo a chave que me permite chegar até lá. Atualmente, a forma que <A Morte> assumiu é o corpo do filho do diretor. O Filactério está guardado em um lugar seguro na mansão que você me presenteou. Está na biblioteca, atrás da terceira prateleira de trás, no andar de baixo. Pegue o livro ‘Enciclopédia da Vida Vegetal Mutante III’, mantenha sua mana dentro dele o tempo todo e, em seguida, empurre-o entre os livros ‘Histórias de um gênio Louco’ e ‘A vil história do assassinato’ na primeira prateleira, no andar de cima. Então, você precisa empurrar o-
— Escute, onde isso vai dar? — Solomon perguntou com uma expressão confusa, mas Eiro continuou a falar, porque não queria que esquecesse de dar as instruções corretas para o Rei.
— … empurre o expositor de vidro no centro da sala. Você notará uma porta escondida aberta, e, atrás dela, está uma área de armazenamento segura. Tente não tocar em nada ali. Além do cilindro de vidro contendo um relógio coração flutuando dentro dele, não me recordo de todas as coisas que têm lá, mas sei que a maioria delas é bastante perigosa.
Eiro instruiu. Quando terminou sua explicação, tentou se recordar da mesma informação que acabara de dar a Solomon, mas era nebulosa demais e sentia um tanto desconfortável tentando acessá-la. Toda a informação tinha sido perdida e Eiro esqueceu até mesmo que sabia sobre isso.
— Agora… do que eu estava falando? — O Diabrete murmurou, seus olhos vagando ao redor do escritório, vendo a notificação sobre seu estado atual, a <Memória do Demônio Esquecido> e recordou o que queria contar ao homem na sua frente.
— Ah, certo… Eu costumava ter uma habilidade chamada <Memória de um Estudioso>, a qual me dava uma memória impecável e conseguia me recordar de todos os detalhes sobre tudo o que acontece na minha vida, sem um único erro. Agora, enquanto eu lutava contra um inimigo bastante forte… Erm… Ele era um morto-vivo, eu acho? Ele era muito, muito forte e quase conseguiu me matar ao usar as Chamas Sagradas que utilizei contra ele, mas então o tempo parou e eu vi quatro caras estranhos. Um deles me deu uma moeda preta, a qual segurei; ela era uma ‘Ficha de Habilidade’. Uma habilidade extra que eu tinha depois da minha última evolução se fundiu com ela e recebi a Habilidade Lendária <Demônio Supremo>, a qual aprimorou essa… erm, habilidade de memória que mencionei… Consegui matar esse inimigo, mas ele usou algum tipo de feitiço estranho que não funcionou em mim, então minha habilidade de memória se tornou a <Memória do Demônio Esquecido>. Irei esquecer permanente cada memória que tentar me recordar, então preciso que me recorde de tudo o que acabei de te dizer… Porque já estou tendo problemas para recordar disso.
Solomon encarou Eiro e se deixou cair em sua cadeira. Ele olhou para sua bebida e franziu as sobrancelhas.
— Uma Habilidade Lendária… mas como…? — Ele murmurou, levantando sua cabeça alguns instantes depois. — Irei fazer mais algumas perguntas e preciso que me responda rápido. Só me recordo de algumas poucas frases que, de alguma forma, conectei àquelas crianças, mas não me recordo de fato de como estão conectadas ou como eu acabei presenteando a mansão para elas. Primeiro… O Mundo foi morto, certo? Você sabe quem fez isso?
— Fui eu. Ele foi liberado do seu selo acidentalmente e eu o matei enquanto ele estava fraco. Agora sou um candidato à Nobre — Eiro disse. Agora, estava determinado a contar tudo para Solomon em detalhes. Ele sabia que confiava neste homem e sabia que ele tinha uma forma de comprovar a veracidade de suas palavras. O Demônio estava confiante de que Solomon o escutaria e isso também o ajudaria. Desse modo, conseguiria… ‘Salvar’ as informações que havia em sua mente, para que não as perdesse por acidente ao pensar nelas. Eiro preferia perder o controle sobre essas informações do que as perder para sempre, sem poder fazer nada a respeito.
Solomon assentiu enquanto olhava para o Diabrete na sua frente.
— Durante o Solstício, por que a Dama do Inverno apareceu e quem se livrou do agressor?
— Fui abençoado pela Dama do Inverno, assim como a antiga Rainha Náiade. A Dama do Inverno veio me encontrar. Também me livrei do agressor e explorei ele para meus próprios propósitos. Ele está vivo, pelo menos por ora. — O Demônio explicou sem pestanejar e Solomon colocou seu copo na mesa à sua frente.
— … Certo, então a última questão que tenho por enquanto. Quem salvou meu filho? — O Rei questionou com um olhar penetrante, enquanto ele e Eiro se encaravam sem parar. Na verdade, foi meio desconfortável, mas Eiro sabia que isso era necessário para que Solomon tivesse certeza de que ele estava contando a verdade ou, pelo menos, isso ajudava.
O Demônio olhou para o chão enquanto encarava seu braço.
— Eu fiz as próteses do seu filho, se esta for sua pergunta. Eu aprendi com… aprendi com Jura… — O Diabrete murmurou com uma expressão amarga. Agora que o assunto ia até Jura, Eiro começaria a esquecer coisas sobre ele. Isso não era algo que Eiro queria. Ele não queria esquecer nada, claro, mas não poderia deixar de se sentir amargo sobre certos tópicos.
Solomon esfregou a ponta do seu nariz enquanto olhava para Eiro e se levantava. Caminhou até ele e colocou as mãos atrás das costas.
— Então, você está tentando dizer que é um dos seres mais incríveis que já conheci? É meio arriscado revelar tudo isso para mim, sabia? Por que iria revelar essa informação para mim em particular?
— Porque… Porque eu sei sobre o Dragão da Verdade e suas habilidades subsequentes… — Eiro comentou. Solomon franziu o cenho enquanto o encarava.
— Você mencionou algo sobre ‘domínio da verdade’ antes… o Cavaleiro de Ouros? Você quer que eu te ensine sobre o que essa carta faz? Desculpa, mas eu nunca ouvi-
— Eu vim até você porquê… porque você é meu amigo, eu acho… eu confio em você, e você é um dos poucos que eu sei que acreditará no que digo… — Eiro explicou, olhando dentro de si para encontrar a Carta que havia esquecido até agora. A tirou da sua tesouraria e a levantou na direção de Solomon. — Não sei mais o que ela faz, mas confio em você… não sei se isso é suficiente para me fazer com que confie em mim, mas acho que você merece isso… Nem sei mais como utilizá-la. — Eiro explicou e Solomon olhou confuso para Eiro.
‘Ele está entregando tal carta sem nenhum tipo de condição?’
Para Solomon, que possuía a habilidade de ver a verdade das coisas, palavras e pessoas, isso seria algo de grande valor, claro, mas, mesmo assim…
— Entendo… Então, obrigado, Eiro. Aceitarei com gratidão. Para me entregar isso, primeiro você precisa inserir sua mana dentro da carta. — O Rei explicou e Eiro acenou com a cabeça. Por sorte, não parecia ter esquecido de como controlava sua mana, pelo menos por ora. Ele permitiu que fluísse por sua mão até a carta. Ela se iluminou com uma luz dourada e desapareceu, enquanto a luz penetrava na pele de Eiro.
[Você ativou e se conectou com o Cavaleiro de Ouros. Agora é seu portador]
[2/14 Cartas do Naipe de Ouros adquiridas]
[4/56 Cartas do Arcano Menor Adquiridas]
[Aptidão com o Elemento Terra aprimorada]
— Huh…? Espera, mas… Não acabei de tentar dar ela para você…? — Eiro questionou e Solomon assentiu de imediato.
— Sim, você tentou, mas tal carta está melhor em suas mãos, eu acho… se você é tão capaz como disse, então deve tê-la. Agora que eu… bem, lembro é a palavra errada, mas pelo menos sei sobre você de novo, consigo preencher de alguma forma as lacunas. Sei que tinha um candidato para o torneio deste verão; este é você, certo? Sei que tive conversas profundas com alguém, mas não consigo me lembrar quem. Senti uma mudança no ar há pouco tempo e talvez, por causa da minha conexão com o Dragão da Verdade, não fui afetado com tanta força e ainda consigo me recordar de tais detalhes, mas isso parece certo. Parece certo que eu esteja falando com você desta forma, que estou confiando em você assim. Ouvi você me chamar de seu amigo e sei que falava a verdade. Espero que esta carta possa te ajudar a descobrir o que aconteceu ao nosso redor. — Solomon explicou e Eiro encarou o chão.
Seus olhos vagaram ao redor e continuaram se concentrando em coisas aleatórias. Ele notava detalhes que não percebia antes, ou não havia reconhecido, pelo menos. A mente do Demônio estava a mil. Na verdade, isso estava causando uma dor de cabeça bem forte. Era uma estranha sensação de novos estímulos. Ele não percebia coisas novas, nunca havia pensado sobre muitas delas. Pelo que Eiro se recordava, pelo menos…
O Diabrete começou a raciocinar enquanto tentava entender o que estava acontecendo com exatidão. Ele chegou a uma conclusão… Que essa era uma bênção com uma maldição conectada a ela. Ele poderia ser capaz de descobrir o que estava ocorrendo, mas esqueceria imediata.
Assim, Eiro olhou para o homem na sua frente.
— Desculpa… esqueci o seu nome, mas escute com atenção… Preciso que me ajude a descobrir isso. Repita informações, lembre-me do motivo pelo qual estou aqui, se eu esquecer e o mais importante… lembre-me das crianças, caso eu as esqueça também.