
Volume 3 - Capítulo 265
A Virtude do Demônio
— Ah… essa foi uma boa refeição… — Eiro murmurou enquanto se sentava na frente da metade comida do cadáver do lobo, pronto para retornar ao seu estado meditativo. Entretanto, parecia que havia alguém que pensava que essa não era uma boa ideia.
Lugo tentou forçar Eiro a permanecer em pé, agarrando-o com sua galhada, tentando fazer com que ele andasse para frente, mas, mais uma vez, Eiro deixou que ele fizesse o que quisesse, seguindo as instruções do cervo, como se fosse a única coisa que pudesse fazer, como se então tivesse outra escolha.
Em algum ponto, o Demônio caiu no chão e atingiu uma pedra com sua cabeça. O que o fez acordar depois disso foi o fato de que não conseguia respirar com seu rosto enterrado na neve.
— O que estamos fazendo…? — O Diabrete perguntou enquanto olhava para Lugo ao seu lado e o Cervo apontou com seu rosto na direção do centro da cidade. — Por quê? Não seria ruim se fôssemos lá? Posso esquecer muitas coisas, certo?
Lugo balançou a cabeça e empurrou seus cascos pelo chão. Na neve, desenhou uma coroa muito rudimentar, embora tivesse sido coberta pela neve logo depois.
— Hm? Rei…? Deseja que eu veja… Solomon? — Eiro questionou e Lugo assentiu, pegando Eiro e jogando-o em suas costas. O demônio seguiu as costas dele e se segurou. Assim, Lugo pressionou seu rosto em uma pequena pilha de neve, cobrindo-se completa.
— Ah… minha máscara, certo. Obrigado. — Eiro disse com um sorriso. Por sorte, ele havia usado tanto essa habilidade que ela era como respirar, portanto, Eiro moveu sua mão para seu rosto e vestiu sua máscara sem problemas, ao mesmo tempo que jogava uma capa sobre seu corpo.
Mas, como suas asas e chifres não estavam escondidos, Lugo continuou tentando atrair a atenção dele para isso e, por sorte, depois de um tempo, ele percebeu o que o Cervo estava pedindo. Depois de pensar um pouco, Eiro conseguiu compreender que deveria se esconder ao se infundir com Magia de Sombra, já que as sombras eram fornecidas pela capa que acabou de vestir.
Desse modo, Lugo começou a correr na direção da cidade. Ele correu e atravessou a neve espessa até que alcançaram o portão da cidade não muito depois e um dos guardas parou Eiro enquanto ele tentava entrar na cidade.
As pessoas só eram revistadas quando entravam nos portões externos da cidade, então esse portão só revistava as pessoas quando elas pareciam suspeitas ou quando eram momentos sensíveis. Eiro passou sem problemas.
Assim, Lugo levou Eiro todo o caminho até os portões do castelo e tentou entrar como sempre fazia, mas, claro, foi impedido pelos guardas.
— Por favor, afaste-se do portão, Sr.! Você deve se abrigar da neve! Ouvi falar que a tempestade continuará por mais alguns dias! — Um deles exclamou, mas Eiro desceu das costas de Lugo, se aproximou do guarda que falou com ele, olhando em seus olhos, embora o próprio guarda não conseguisse ver os do Demônio devido à máscara.
— Sr., por favor, se afaste do portão. — Mas Eiro não se importava.
— Tenho que entrar e falar com Solomon. Saia.
Claro que ao ver como Eiro falou sobre o Rei com tanta casualidade e com um tom ameaçador, o guarda se preparou para qualquer coisa que pudesse acontecer, colocando a mão no cabo da espada que estava embainhada na sua lateral.
— Esta será a última vez que direi, Sr., mas, por favor, se afaste do portão. — O guarda disse com um tom ameaçador, algo que Eiro não apreciou. O bom de estar nevando forte era que, mesmo que houvesse pessoas ao redor, elas não saberiam o que Eiro estava fazendo. Dessa forma, antes que o guarda pudesse reagir, ele segurou o rosto do homem e o golpeou no chão.
Ele não morreu, mas desmaiou. Eiro tentou se segurar um pouco, afinal. Não queria lidar com nada que necessitasse que ele pensasse muito, então tentou ir pela rota bruta.
Assim que a cabeça do homem acertou o chão, o outro guarda também reagiu, mas foi nocauteado de forma parecida. Eiro abriu o porão com um empurrão rápido e se aproximou do castelo, com Lugo seguindo atrás dele, nervoso.
Claro, quando entrou no castelo, vários outros guardas o impediram. Ele não tentou se esconder também, então isso era esperado.
Mais uma vez, Eiro nocauteou os guardas um após o outro de qualquer forma para que conseguisse encontrar Solomon, mas, antes que conseguisse localizar a posição do Rei, Eiro foi encontrado.
— Não é cortesia comum pelo menos retirar a neve de suas botas quando entra na casa de outra pessoa? — Solomon questionou com um tom direto e frio e Eiro olhou na direção da voz. O Rei saiu do cômodo em que estava, olhando para o carpete com manchas úmidas devido à neve grudada em Eiro e Lugo. — Sem mencionar que você trouxe um animal de estimação tão grande… Você não é um assassino, não há como alguém tão idiota ter sido contratado para-
— Ah… esqueci de chegar às salas por onde estava passando… — Eiro interrompeu. Isso foi de fato o único pensamento que passou pela sua mente e ele levantou a cabeça. — Você é… Erm, Solomon, certo?
— Sou, mas é bastante rude se dirigir ao Rei pelo seu primeiro nome.
— Oh, você é o Rei? Parabéns, eu acho. — Eiro disse com um sorriso enquanto permanecia ali, em um estado em que mal conseguia pensar. Com um berro irritado, Lugo pressionou seu focinho no meio do pescoço de Eiro e inseriu sua mana no demônio. Ter uma mana pura interagindo com sua própria mana dentro do seu corpo não era uma experiência agradável, se não dolorosa, então isso foi suficiente para despertar Eiro, pelo menos em alguma extensão.
O Diabrete arregalou os olhos e olhou na direção de Lugo.
— Oi, o que diabos foi isso, seu idiota? — Eiro gritou para o Cervo, apesar de logo ter percebido com quem estava falando. — Ah… eu não queria gritar com você… esqueci o seu nome… Desculpa. — O Demônio disse com uma expressão apologética, enquanto esfregava sua mão no focinho de Lugo.
Então, Eiro se virou. Ele não tinha acesso adequado às suas memórias, mas tinha até certo ponto e com sua velocidade de processamento mental, conseguiu compreender e chegou a uma solução aproximada da situação com base nas informações que podia se relembrar neste momento de Solomon. Para isso, o Demônio retirou sua máscara.
— Meu nome é Eiro e você é um amigo próximo. Eu ajudei o seu filho, ao fazer para ele… ao curá-lo, eu acho. Você me conhecia até ontem, mas um inimigo forte usou um feitiço e fez com que todos esquecessem sobre mim. Eu… estou com amnésia… Ou esquecendo tudo…preciso da sua ajuda, porque você possui… Em… algo sobre uma carta, algum… cavaleiro e domínio da verdade… Por favor… Preciso que me ajude de alguma forma… — Eiro disse enquanto se ajoelhava, pressionando sua testa no chão, tentando implorar pela ajuda de Solomon.
O Rei encarou Eiro com uma carranca profunda e uma expressão confusa. Ele permitiu que seus olhos vagassem pela mão azul-claro de madeira do Demônio, soltando um suspiro profundo.
— Odeio o fato de que consigo dizer que você não está mentindo… Não há como eu ignorar isso. — Solomon rugiu enquanto se virava e entrava no cômodo em que estava antes. — Venha. Lidarei com o que quer que tenha feito para chegar aqui. Primeiro, me diga tudo o que conseguir se lembrar dessa situação.
Eiro levantou a cabeça e seguiu Solomon até o cômodo, o escritório dele, ajudando Lugo a se espremer pela porta.
— Você tinha que trazer seu veado com você? Ele é seu familiar?
Eiro encarou Solomon por um tempo, depois voltou sua atenção para Lugo. Olhou para os olhos dele por um instante, depois desviou.
— Acho que sim? Também não me lembro, mas sei que ele é o único que se recorda de mim, até mesmo minhas crianças não. Nem meus… Espíritos contratados também não, eu acho.
Logo, Eiro recebeu um aceno de Lugo, que lhe disse que suas suposições estavam corretas e Solomon encarou o Demônio com uma carranca.
— Uma família de Demônios? Se eu sou amigo de você, como não me recordo deles? Eles também foram esquecidos por todos? — Solomon questionou, mas Eiro balançou a cabeça.
— Não… pelo menos eu acho que não. Elas são pessoas, a maioria humana. Uma delas é um Golias, mas um deles é uma criança Homem-besta. — Eiro explicou sem pensar sobre isso, embora conseguisse sentir que essas informações já estivessem sumindo do seu cérebro depois de mencioná-las.
— Golias…um Homem-besta? Eu sabia. O nome deste cervo é Lugo, não é? Está tentando me dizer que você é o pai adotivo daquelas crianças? Você, um demônio? — Solomon questionou e, sem hesitação, Eiro assentiu enquanto Lugo fazia o mesmo.
O Rei esfregou a ponta do seu nariz e se levantou do seu assento, caminhando até um closet próximo. Ele o abriu e pegou uma garrafa e um copo, enchendo-o com o álcool dentro da garrafa e tomando um gole.
— Havia planejado parar de beber, mas acho que hoje não é o melhor dia para isso… Agora, Demônio… Continue.