
Volume 3 - Capítulo 264
A Virtude do Demônio
Eiro caminhou pelos corredores da mansão e saiu pela porta mais próxima que conseguiu se recordar. Tentou não pensar em nada. Absolutamente nada. Ele não queria usar seus conhecimentos, nem suas memórias, nada.
O Demônio caminhou pela nevasca, que ainda causava estragos por toda a cidade.
Ele caminhou e caminhou, até que parou. Eiro se sentou na neve e colocou seus joelhos próximos ao peito.
— Só tenho que esperar uma semana… Então, posso descobrir como fazer com que eles se lembrem de mim… — Eiro sussurrou enquanto fechava os olhos.
Ele se sentou na neve, dedicado a ficar sentado ali pela próxima semana sem se mover, falar ou até mesmo pensar.
O frio atingiu seu corpo de todas as direções, enquanto ficava sentado ali sem um único pensamento em. Estava tentando meditar, para limpar seus pensamentos e não deixar que nada acontecesse ao seu redor.
Mas, assim que estava para pensar nisso, assim que estava para ser atraído para algo próximo ao sono, Eiro escutou um berro familiar à distância. Claro, Eiro sabia quem era, mas não queria admitir. Não queria pensar no nome da criatura, ou até pensar o que ela era. Pois não queria perder ninguém que fosse parte dele tanto quanto Lugo era.
Talvez eles o tenham enviado para procurar pelo Demônio que fugiu, foi o que pensou, mas, no fim, Eiro não se importava muito, mesmo se esse fosse o caso. Ele permitiria que isso acontecesse.
Mesmo se Lugo quisesse matar Eiro, ele estava bem com isso. Melhor morrer nas mãos do seu melhor amigo do que nas do seu pior inimigo, pelo menos foi isso que Eiro pensou.
O Demônio abriu seus olhos e virou a cabeça para olhar para o Cervo e, no instante que fez isso, recebeu uma língua úmida por todo seu rosto e depois Lugo esfregou seu rosto contra o de Eiro. Sem hesitação, Lugo se enrolou em volta do Demônio, como se dissesse que queria esperar junto de seu amigo.
Eiro olhou para Lugo e segurou seus pelos, enterrando seu rosto nele, na neve que havia ficado presa neles.
— Obrigado, obrigado… Obrigado por se lembrar de mim… — O Diabrete murmurou, tremendo enquanto segurava os pelos de Lugo com ainda mais força.
Eiro estava à beira de quebrar há tanto tempo… como se alguém tivesse pagado uma esfera de vidro oca e começado a lixar uniforme a parte externa, removendo camada por camada, afinando o vidro no processo.
O orbe de vidro quase se estilhaçou ao longo dos anos, mas agora… parecia como se alguém tivesse pegado um martelo e o quebrado. Então, acertou os fragmentos de novo e de novo. Era doloroso e Eiro não tinha ideia de como deveria lidar com isso.
— Por que você se lembra de mim? Por favor, consegue me dizer? — Eiro questionou com uma expressão suplicante, mas os olhos negros e brilhantes Lugo o encararam de volta por alguns momentos. — Você também não sabe, hein? Bem, do que isso importa…? Contanto que você se lembre de mim, isso é tudo com que me importo… L…. Lu… — Eiro começou, mas, no meio da frase, começou a gaguejar de repente, como se esquecesse algo importante.
Era assustador, ainda mais depois de agradecer ao cervo por não se esquecer dele e, em retribuição, a primeira coisa que ele fez foi esquecer o nome de Lugo.
— Desculpa por não ser um amigo tão bom para você quanto você é para mim.
Com um berro baixo, Lugo começou a esfregar seu rosto contra o de Eiro de novo e o Diabete limpou uma lágrima no canto do seu olho.
— Obrigado… tentarei não me esquecer mais de você, meu amigo. — O Demônio disse. Ele não sabia se isso funcionaria bem, se sentar ali e tentar não pensar em nada o tempo todo.
No meio desta tempestade de neve, no meio deste campo.
Eiro se sentou ali, pensando em nada, enquanto Lugo envolvia seu corpo ao redor dele.
Mas, de repente, Eiro escutou Lugo berrar alto e o barulho percorreu as orelhas sensíveis do Demônio.
Eiro abriu os olhos e conseguiu compreender o que acontecia. Embora a tempestade ainda assolasse a área ao seu redor, ela havia enfraquecido um pouco desde antes. Através da neve espessa, ele conseguiu ver algumas pessoas se aproximando. Não eram James, Jess e Krog, ou até mesmo as crianças, eram… Um grupo de aventureiros, pelo menos julgando pelos cartões da guilda que tinham em suas mochilas.
Eles estavam cercando Eiro e todos tinham armas apontadas na direção dele. Parecia que tinham algum tipo de animal com eles ou talvez fosse uma besta mágica.
— Não se mova, demônio! — Um deles, provavelmente o líder, exclamou. — Pare de se alimentar desse cervo inocente e nos enfrente!
Com um resmungo alto, Eiro se empurrou do chão. Surpreso por ter sido encontrado… Lugo e ele haviam se transformado em um monte de neve. Na tempestade, deveria ser invisível.
— Ainda assim… que idiota da minha parte não me concentrar nos meus arredores… Ou isso foi esperto? Bem, não que eu me importe… — O Demônio murmurou. Olhou ao redor sem prestar atenção a nada em específico. Como se não estivesse prestando atenção em nada, mas ainda visse.
Isso porque Eiro não queria pensar em nada, ou poderia esquecer de coisas aleatórias que tinha que saber.
— O que ele está murmurando? — Um dos aventureiros perguntou aos seus companheiros e Eiro permitiu que seus instintos atuassem. Sua mente estava desligada em um estado semi-meditativo. Estava consciente, mas não estava de fato. Então, seus instintos estavam acessando sua consciência e fazendo todo o trabalho que tinha que ser feito na forma mais bruta que o Demônio poderia se expressar.
— Estou esquecendo as coisas… Esquecendo… Não quero esquecer mais anda. — Ele respondeu e isso não fez sentido para ninguém ali. Eiro continuou parado ali, sentindo algo empurrar o centro das suas costas, enquanto Lugo se levantava e pressionava seu focinho contra Eiro. Incerto do que ele queria, Eiro começou a caminhar para frente, sem pensar.
Um dos aventureiros pulou para o lado enquanto gritava algo.
— Beldron! — Ele exclamou e uma besta parecida com um lobo avançou e mordeu no ombro de Eiro, derrubando o Demônio no chão. Ele não estava preparado para isso, afinal, não estava de pé, na verdade, estava pronto para cair a qualquer momento.
— … Hum? É bastante fraco, não é? — Um dos aventureiros murmurou, desapontado, enquanto uma notificação vermelha flutuava acima de Eiro.
Ele não queria ler o que ela dizia, mas não parecia tão sério. Essa mordida nem o machucou muito. Eiro passou seus dedos pela notificação e um dos aventureiros riu.
— Heh, olha, ele está sendo melodramático. Como se fosse uma peça, ou algo do tipo. Bem, quem liga, matar um demônio enlouquecido avistado no meio da cidade vai nos dar uma boa recompensa na guilda, certo?
— Claro que sim, ainda mais no meio de uma nevasca como esta. — Outro respondeu. — Bem, vamos terminar.
Antes que o aventureiro pudesse terminar sua sentença, conseguiu escutar um grito alto que assustou, não ele, mas todos os outros. O grito foi seguido pelo som de algo sendo rasgado e esmagado.
Neste clima pesado, era difícil ver o que estava acontecendo, mas um deles se aproximou um passo. para ver uma inundação vermelha ao redor do Demônio. Claro, isso era esperado, exceto que… A maioria disse que não era sangue de demônio e sim de uma besta.
Eiro mudou a situação. Ele não comia há um tempo, então estava se sentindo bastante faminto. Imaginou que esta besta seria o lanche perfeito para se livrar da sua fome. Eiro mordeu a cabeça do lobo, abrindo um ferimento fatal em sua garganta antes mesmo de quebrar seu pescoço com os dentes.
Eiro começou a rasgar a besta morta e a mordiscar a carne. Não era saboroso, mas servia. Apesar de Eiro pensar que parecia, por algum motivo… estranho para ele fazer isso, ainda fez de qualquer maneira. Ele não queria pensar o porquê de isso ser estranho, ou o que deveria fazer em vez de se alimentar desta besta, afinal, Eiro não queria se esquecer.
O Demônio afastou a besta do seu corpo e enterrou seu rosto na carne dele. Porém, após de fazer isso, algo cortou o ar. Por reflexo, Eiro virou seu corpo e empurrou sua mão de madeira para frente, puxá-la para cima.
A neve que havia se acumulado no chão se reuniu em uma massa de gelo que perfurou um dos aventureiros. Não parecia ter o matado de imediato, mas ele morreria muito em breve. Pelo menos, estava com muita dor.
Logo depois que Eiro fez isso, outro aventureiro o atacou e Eiro tentou repetir sua ação. Ele cortou um pouco o aventureiro, mas ele conseguiu continuar avançando, empurrando sua lança na direção do Diabrete.
Assim que fez isso, Eiro moveu seu corpo para o lado e segurou a lança, puxando-a enquanto chutava o aventureiro na barriga. Ao puxar a lança para trás, sua ponta perfurou o nariz do aventureiro empalado pelo espinho de gelo.
Eiro a puxou de novo, golpeando-a para o lado e a girando. Ele cortou a garganta do aventureiro de quem tomou a lança, segurando no seu centro e arremessá-la no terceiro aventureiro que parecia querer atacá-lo. Ela perfurou o peito dessa pessoa e quebrou as costelas e espinha dela no caminho, e a lança cravou no chão atrás dela.
Eiro retornou casual à sua refeição enquanto os outros três aventureiros corriam por suas vidas.
Afinal, o que deveriam fazer, agora que Eiro ficou selvagem de novo?