A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 263

A Virtude do Demônio

— Espera… Onde ela ficava mesmo? — Eiro murmurou enquanto sua mente começava a ficar nebulosa. Como se de repente não fosse capaz de pensar direito. — O que eu estava dizendo? Ela fica bem ali.

Devagar, o Demônio conseguiu se recordar do caminho de volta para sua casa, a mansão, e viajou pela neve forte nessa direção, ainda tão distraído quanto antes. Subiu os degraus enquanto a neve cobria todo seu corpo e começava a grudar nele, criando uma leve camada.

Ele subiu os degraus até a porta da frente e bateu na superfície de madeira algumas vezes.

‘Por que não a abre…?’ O Demônio pensou para si mesmo, mas antes de conseguir fazer isso por conta própria, alguém abriu a porta.

Era James, que segurou uma adaga no rosto de Eiro, quase a empurrando em seu nariz.

— Quem é você?! — Ele exclamou. — Está com o Demi-Lich?

Uma premonição terrível passou pela mente de Eiro. O Demônio aqueceu seu próprio corpo e derreteu a neve que o cobria.

— O q- o que você está dizendo, sou Eiro, James.

Ao ver a figura demoníaca, parada enquanto anunciava sua presença, James… fechou a porta sem hesitar. Eiro conseguiu escutar alguma movimentação no interior enquanto as crianças corriam pelo corredor em direção ao porão e cinco figuras permaneceram para trás, encarando a porta.

Confuso, Eiro abriu a grande porta e entrou. Foi recebido com um círculo mágico sendo construído na frente de Jess. Era um feitiço poderoso, como esperado dela, mas não era forte o suficiente para que Eiro não conseguisse criar um contrafeitiço rápido e imediato.

Ele levantou a mão e… e…

— Como eu…?

Enquanto o Diabrete tentava lembrar o que deveria fazer, Jess disparou seu feitiço no Demônio, uma forte bala que era uma mistura de ar e rocha. O primeiro foi fornecido pelo espaço em que estavam, mas o último foi… providenciado por Gondos.

A bala penetrou no ombro de Eiro, enquanto o Demônio permanecia ali em contemplação, a qual foi interrompida pelo ferimento aberto em seu corpo.

— Desgraça! Por que você fez isso?! — O Diabrete gritou, mas, antes de conseguir reagir, os outros quatro o atacaram.

James, Gobo e Krog pularam no Demônio com suas armas, enquanto Bavet transformava partes do seu corpo em lanças que disparou em Eiro. O Diabrete conseguiu desviar e até mesmo empurrar James e Gobo, já que eram bem leves, mas Krog era um caso diferente. Devido à velocidade e massa dele, era mais difícil se livrar dele e Eiro teve que desviar para evitar ser atingido. Neste momento, embora Bavet disparasse a próxima lança, Jess preparava seu feitiço.

— Por que vocês estão fazendo isso?! Parem com isso agora! — Eiro exclamou, mas nenhum deles reagiu e continuaram tentando atacá-lo.

Cerrando os dentes, Eiro começou a controlar a neve do lado de fora e congelar o chão em que todos estavam. Ele conseguiu se mover, mas os outros foram prejudicados. De imediato, o Demônio, que era muito mais forte do que qualquer um aqui, derrubou os outros e os amarrou no chão com gelo.

— Nos solte, seu monstro repugnante! — Krog gritou com raiva e o gelo começou a rachar sob o poder de sua força, mas Eiro manteve-o no chão por ora.

— Krog, o que está acontecendo? Por que vocês estão me atacando?

— Como você sabe meu nome?! Então você está trabalhando com aquele Demi-Lich! — Korg gritou e Eiro olhou para Jess, que tentava usar magia de fogo, aquecendo seus arredores para que pudesse derreter o gelo e escapar.

Com um suspiro profundo, Eiro esfregou a ponte do seu nariz.

— Então é isso que Edward disse com ‘irei-’… Espera, o que ele disse…? — Sua mente ficou nebulosa de novo, enquanto Diabrete segurava seu ombro dolorido e tentava retirar quaisquer fragmentos de rochas antes que sua carne se curasse ao redor deles e causasse danos permanentes.

— O que está acontecendo? — Ele murmurou, mas, por algum motivo, não importava o quanto tentasse se recordar das coisas sobre essa situação, não conseguiu. Até que escutou Bavet tentar mudar sua forma para escapar e atacá-lo de novo. O Demônio pegou uma das suas adagas e a apontou para o slime.

— E você! Por que diabos você disse para eles saírem?! O que diabos há de errado com você?! — Como se por instinto, Eiro amaldiçoou Bavet pelo que ele fez, por atrair as pessoas para fora da sala segura.

Jess encarou Eiro com uma carranca.

— Por que está bravo com isso? Você está trabalhando com o único ser que se beneficia disso!

— Não estou trabalhando com aquele pedaço de merda, acabei de matá-lo, certo? — Eiro gritou. Sua raiva, ou mais seu estado de ‘ira’, ainda estava presente, ainda o afetando de algum modo. Ou talvez tenha se transformado em algo mais que explicasse sua explosão repentina… o estado de ‘Ira’ estava calmo, afinal.

— Como você tem essa adaga…? — De repente, James interrompeu a fúria de Eiro e encarou a arma que ele segurava. Era a adaga da Avalin ‘original’ que Eiro guardou consigo todo esse tempo. Ele olhou de volta para James com uma carranca profunda.

— … Pensei que já falamos sobre isso… Peguei depois que Avalin morreu, para me proteger e me lembrar dela… É o que acho, pelo menos. — O Diabrete comentou, embora parecesse que as palavras e o tom de Eiro não fossem algo que James apreciasse.

— Seu bastardo fodido, você estava lá?! Você estava lá naquela época?!

— … Eu… Sim, eu estava….. — Eiro comentou.

‘O que está ocorrendo? Por que James esqueceu sobre isso? Por que todos esqueceram sobre isso? E… por que estou esquecendo as coisas?’

O Demônio pensou sobre o que acabou de acontecer e imaginou que pudesse explicar essa situação… pelo menos até certo ponto.

— Ele disse que… acabaria com a minha vida sem me matar. — Eiro conseguiu fazer a conexão muito rápido, na verdade, não era tão difícil de perceber ao saber que em vida Edward era um especialista em… em… — Ele era um especialista em… — O Diabrete murmurou para si enquanto seus pensamentos se arrastavam. Eiro não sabia por que isso estava acontecendo e que não era capaz de fazer nada sobre isso por algum motivo. Ele tentou, mas não conseguiu.

Por algum motivo, em vez disso, a atenção de Eiro se desviou para outra coisa e isto era a pequena figura azul-claro que Gondos segurava em seus braços.

— Nelli…? Nelli, o quê…? O que aconteceu, o quê…? — Eiro disse de forma incoerente, enquanto deslizava pelo chão de gelo e se aproximava dos Espíritos, mas Gondos flutuou para longe dele.

— Não ouse tocar nela, seu demônio repugnante! — O Golem exclamou e Eiro o encarou com uma expressão confusa.

— Gondos, o que você está dizendo…? Você é meu espírito contratado, assim como Nelli, só… Só deixe-me dar uma olhada nela, por favor.

— O que você está dizendo? Ambos, Nelli e eu, não temos contrato com ninguém, somos espíritos selvagens. Por que formaríamos um contrato com um demônio? — Ele respondeu com um olhar profundo e Eiro cerrou os dentes enquanto se aproximava.

— Vocês são espíritos, contanto que não tenham um contrato com alguém, não podem se afastar do lugar que nasceram como espíritos completos… certo?

— Normalmente sim, mas somos casos especiais. Me lembro de estar próximo do meu local de nascimento mais uma vez e foi quando encontramos Gobo depois que me juntei a James, Jess e Krog, e-

— Não! Isso está errado! — Eiro gritou. — Bem, não, não está errado, mas também está! Você é meu espírito contratado! Nós nos conhecemos em Argberg e você era propriedade de… você era… era contratado por… — O Demônio começou a tentar explicar a história de como se conheceram, mas assim que tentou fazer isso, sua memória se desviou nova.

Em completo desespero, Eiro caiu de joelhos, o que mais deveria fazer? Seus entes queridos o esqueceram e ele era incapaz de lembrar dos seus entes queridos por mais que tentasse.

— Por que isso está ocorrendo? O que está acontecendo?! Por que não consigo me lembrar ainda…? S-Só me deixe lembrar, porra! — Grito após grito, Eiro tentou entender o que estava acontecendo e o que deveria fazer.

Na maior parte de sua vida, Eiro nunca teve problemas com suas memórias. Ele conseguiu se lembrar de tudo o que já fizera em menos de um segundo. Ele conseguia se recordar de cada conversa, cada cheiro, cada sabor, cada toque agora. Eiro estava assustado de tentar e pensar nisso. Pois, e se descobrisse que não conseguiu se recordar? E se ele descobrisse que não conseguiu se recordar de nada específico do seu tempo com as crianças ou com Jura?

Eiro não conseguiria mais conviver consigo mesmo.

— Eu… tenho que ir… — O Diabrete murmurou enquanto se empurrava do chão. Ele deslizou pelo chão congelado. — Por favor… por favor, lembrem-se de mim… — Eiro sussurrou para si mesmo, enquanto corria pelos corredores da mansão. As crianças ainda não estavam na sala segura para onde mandaram elas irem, então ele deveria ser capaz de alcançá-las.

O demônio tentou correr o mais rápido que podia pelos corredores. Ele deslizou pelas escadas e até torceu o tornozelo enquanto fazia isso, porque, de alguma forma, escorregou no degrau, pois estava se movendo rápido demais e não tomou cuidado.

Ele estava deitado no chão e olhou para cima, vendo através da fenda da porta da sala segura que estava fechando. Eiro olhou direto para Avalin.

— E-Ei, querida, está tudo bem, é só o papai… só o papai, tudo b-

— Para trás! — Sammy gritou. — Silêncio! — Ela adicionou e Eiro permaneceu ali com sua boca forçada a ficar fechada. Ele não estava no estado mental para resistir a comandos agora. — Vá embora e não volte mais, Demônio!

Assim que ela terminou seu comando, Eiro viu a expressão de todos na sala, olhando para ele com medo e desgosto. O Diabrete não conseguiu impedir que se virasse e subisse as escadas, com a mente vazia e lágrimas se reunindo em seus olhos.

Eiro subiu as escadas e atravessou os corredores. Isso nem foi por causa do comando de Sammy. Ele se esqueceu como abria a porta da sala secreta.

— O que está acontecendo…?

O Demônio pensou e recordou da notificação de havia escapado até agora.

‘Essa habilidade é estranha e alterada.’

[Memória do Demônio Esquecido – Sempre que você tenta se lembrar de algo, conhecimento ou memória, você começará a esquecê-lo para sempre.]

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