
Volume 3 - Capítulo 260
A Virtude do Demônio
Eiro tentou conseguir a vantagem, mas Edward conseguiu ver de imediato o que o Demônio estava tentando fazer, como se previsse suas ações. O Demi-Lich desviou enquanto fazia a menor quantidade de movimentos possíveis, como se zombasse de Eiro enquanto fazia isso.
Ele balançou sua adaga para frente na direção de Edward, enquanto seu corpo emitia vapor devido ao calor da infusão com fogo. Ao mesmo tempo, Eiro invocou seu Três de Espadas e o ativou, tentando conseguir o máximo de lâminas possíveis contra esse inimigo.
Corte, erro, corte, erro, corte, erro.
Eiro estava se cansando disso, mas Edward parecia estar se divertindo.
— Oh, qual é o problema aqui, meu caro amigo? Você está se movendo de uma forma um pouco… previsível.
— Cale a boca. — O Diabrete gritou. Mais uma vez, avançando na direção do Demi-Lich, que desviou, mas, de repente, Eiro escutou um som do outro lado da mansão. Algo estava mudando no porão, a porta do cofre estava sendo aberta.
Assustado com essa percepção, o corpo de Eiro estremeceu sem que ele pudesse fazer algo sobre isso e devido a esse movimento repentino e apresado, conseguiu cortar as roupas de Edward.
Eiro compreendeu o que estava acontecendo… Edward estava usando as habilidades investigativas que tinha mostrado na forma de Bahlsen para descobrir o que ele faria a seguir, devido à forma como seus músculos se contraíam em antecipação, ou como olhava para certos locais ou tentava preparar certos ataques.
Mas o que acabou de ocorrer não foi nada além de um reflexo. Não era algo que Eiro fez de propósito, então parecia que o Demi-Lich não conseguia ler através disso. Portanto, Eiro olhou para a figura na sua frente e parou por um instante. Ele respirou fundo, muito fundo e encarou o Morto-Vivo enquanto mergulhava em uma de suas memórias.
Uma memória de quando Eiro ainda era muito mais selvagem, de quando ele ainda não conhecia nada sobre habilidades. Devagar, o Demônio tentou se adaptar a essa mentalidade que tinha naquela época, aquela maneira rudimentar e vil.
Eiro misturou esses movimentos instintivos com seu conjunto de movimentos baseados em suas habilidades e balançou seus braços, como se os debatesse.
Felizmente Edward parecia ter sido pego de guarda baixa. Pelo menos, não conseguiu desviar com tanta facilidade como antes e Eiro conseguiu cortar através das roupas dele mais uma vez. Isso significava que a tática do Diabrete funcionou, pelo menos um pouco.
Mas talvez porque a qualidade do estilo de combate de Eiro tinha diminuído em troca de um pouco desse ‘instinto’, mas, em algum ponto, Edward conseguiu desviar de novo.
Pelo menos, uma coisa era clara. Edward tinha que se concentrar em desviar e não parecia capaz de contra-atacar direito, assim, os dois pareciam igualados na situação atual. Em certa extensão, pelo menos.
Assim, Eiro teve que fazer algo para mudar a balança ao seu favor e, sem hesitação, escolheu fazer isso ao retirar uma pequena bolsa de tecido branco da sua Tesouraria, enquanto fazia um movimento de arremesso.
A bolsa atingiu o chão com velocidade imensa e tudo o que pode ser ouvido foi algo estilhaçando. alguns segundos depois, uma explosão branca apareceu entre Edward e Eiro.
— Bem, isso foi bastante inesperado… Essas são Chamas Sagradas, não são? Sabe que você é mais vulnerável a elas do que eu sou, não sabe? — Edward questionou, mas Eiro sorriu em resposta à declaração óbvia.
Enquanto uma das chamas ainda estava na sua frente, Eiro se aproveitou de um pouco da neve que estava reunida do lado de fora e derreteu com magia, infundindo seu corpo com isso.
Imediatamente ele tentou fazer seu truque de ‘bala de mana’ e dispará-la nas chamas sagradas. A mana de Eiro pegou fogo e uma bala de chamas sagradas foi disparada em Edward com velocidades imensas.
Isso era algo que o Demi-Lich nunca poderia prever e mesmo que pudesse ter percebido o que estava ocorrendo no último segundo, foi incapaz de reagir, e, em seguida, as chamas brancas estavam consumindo o terno preto, prateado e vermelho.
Eiro cortou a notificação na sua frente dizendo que havia danificado o Demi-Lich e então sorriu.
— Parece que as mesas viraram.
O Diabrete retirou cada vez mais mana do seu corpo, que usou para tentar controlar as Chamas Sagradas.
Ele balançou o perigoso fogo branco na direção de Edward como se fosse um chicote, tentando preencher todo o cômodo ao redor dele com essa fraqueza do Demi-Lich.
Neste ponto, Eiro tinha total controle da situação. Claro, esse plano era mais do que óbvio, mas Edward não tinha escolha a não ser jogar junto se não quisesse ser ferido demais. O Demi-Lich se moveu através das chamas, tentando minimizar sua exposição a elas enquanto o Demônio apertava cada vez mais as chamas ao redor de Edward, como se tentasse prendê-lo em uma gaiola da qual não podia escapar.
Então, Eiro fez algo. Edward não conseguiu mais se mover sem encostar nas chamas e com o mesmo tom de voz que tinha antes, ele falou.
— Parece que esse é o fim para um de nós, não é?
— Parece que sim, mas não faça parecer como se fosse para mim, pois nós dois sabemos que não é o fim para mim. — Eiro comentou enquanto apertava cada vez mais a ‘caixa’ de chamas sagradas, danificando lenta o Demi-Lich.
— Sim, sobre isso… — Edward murmurou e, de repente, Eiro pôde escutar passos atrás dele, que, por algum motivo, só surgiram naquele momento. Normalmente ele teria percebido mais cedo, mas Edward pode ter feito algo que mudou a percepção de Eiro das coisas ao seu redor. Da mesma maneira que o Demi-Lich conseguia se esconder tão bem, ocultando sua natureza.
— Eiro! — Uma voz familiar gritou de trás do Demônio e Eiro virou o pescoço para olhar para sua origem. Era Clementine, parada ali no batente, ofegando por ter corrido até aqui.
Mas não era só Clementine. Eram todos.
Clementine, Sammy, Arc, Rudy, Felix, até mesmo Avalin e Leon. Atrás deles, James, Jess, Krog e Gobo. E, bem ao fundo, Eiro conseguia ver Bavet em sua forma humanoide com uma expressão vazia. Igual à que o Diabrete viu mais cedo. Era a mesma expressão do homem controlado por Edward.
Enquanto o Demônio os encarava em choque e confusão, e, mais importante, medo do que poderia acontecer, Edward parecia ter aproveitado essa oportunidade.
Ele pulou para fora da gaiola de Chamas Sagradas, suas roupas ainda queimando, enquanto empurrava sua mão ao redor da parte de trás do pescoço de Eiro.
As chamas sagradas mudaram do Morto-Vivo para o Demônio e sua carne gerou uma faísca imensa de chamas brancas, fazendo todo o corpo de Eiro pegar fogo enquanto permanecia ali.
Sua natureza profana estava alimentando o fogo sagrado que foi criado para matá-lo.
Lenta mais seguramente as chamas estavam percorrendo o corpo de Eiro, que só conseguiu ficar parado.
Ele caiu no chão enquanto suas pernas eram destruídas pela energia sagrada, enquanto sua família e amigos observavam isso acontecer. Eles estavam encarando Eiro morrer uma morte dolorosa.
Ele não conseguiu nem mesmo gritar, desde que sua garganta foi uma das primeiras coisas que foi destruída pelas chamas. Então, tudo o que poderia fazer era ficar deitado ali enquanto as Chamas Sagradas o devoravam.
— Chega disso, meu caro amigo. Agora, vamos acabar com isso. Gostaria que você testemunhasse a criação da minha obra de arte mais perfeita… usando as peças mais perfeitas. — Edward caminhou em direção ao grupo na frente dele, depois de apagar o resto das chamas em seu corpo.
O Demi-Lich aproximou-se da pessoa parada bem na frente, Clementine. Comparado com todos, a Força Vital dela era a mais forte. Era ainda mais potente que a de Eiro, apesar de ele ter tentado refiná-la e fortalecê-la ao longo dos anos. A dela era poderosa e pura.
Edward se inclinou para frente e olhou fundo nos olhos delas.
— Que lindos eles são. Tão repugnantemente cheios de vida. Oh, como eu quero tirá-los de você e vê-los definhar.
O Demi-Lich estacou a mão na direção de Clementine, enquanto todos no cômodo ficavam atordoados com a pressão emitida pelo Morto-Vivo, apesar de que Avalin e Leon já haviam desmaiado. Na verdade, Eiro ficou um pouco feliz com isso, já que significava que não precisavam observar nada.
Nesse instante, antes de em um único momento Edward encostar em Clementine, tudo ao redor de Eiro congelou. As chamas ainda queimavam e se moviam, mas causavam dor a ele, em vez de se alimentar da sua carne. Elas não estavam mais se espalhando.
— Ah… que decepção. — Uma voz murmurou. Ela soava velha, mas ainda jovem. Cheia de energia e força, força que o próprio Eiro carecia.
No instante seguinte, conseguia sentir o seu queixo, ou pelo menos o que restava dele, ser levantado para permitir que olhasse o que estava na sua frente.
Era uma figura brilhante, preta e branca, vestindo uma armadura gloriosa com uma única espada ao seu lado. Ele parecia ser um humano. Parecia que ele falou, porém Eiro não tinha certeza. Ele carecia de quaisquer tipos e detalhes, como um nariz, olhos ou boca, para ser exato. Todo o seu rosto era uma lousa em branco, mas era uma voz diferente, isso era certeza. Uma voz mais áspera, mais… experiente, como se essa pessoa tivesse vivenciado muita coisa.
— Bem, com o que lhe foi dado, ele certamente fez muito. Não acha?
A pessoa que levantou seu queixo era quem estava falando. Eiro sabia, embora não soubesse como.
Então, outro apareceu. Dessa vez, era um homem magro, baixo, segurando um cajado cerca de sessenta centímetros mais alto que ele, enquanto sua capa deslizava pelo chão. Foi este quem falou primeiro. Tinha orelhas pontudas, então parecia ser um elfo, ou pelo menos um meio-elfo ou algo do tipo, mas, de novo, seu rosto era uma lousa branca de pele.
Então um terceiro apareceu. Dessa vez, parecia ser um Rhida, uma raça muito rara de pessoas que descendia dos Homens-Lagartos, mas com o mesmo tipo de rosto que os outros dois. Ele tinha algumas escamas na pele, apesar de ser lisa como a de um humano na maior parte. Ele vestia uma armadura de couro e tinha um arco preso às costas, com uma adaga em seu quadril.
Sua voz soava um tanto cruel e desagradável de ouvir, apesar de que Eiro não tinha certeza se isso era um aspecto dos Rhida.
— Muito? Ele desperdiçou muitas chances de ascender ao topo, trocando poder por algo inútil como ‘Família’.
De repente, Eiro escutou uma risada atrás dele.
— Ei, família não é inútil, sabia? É bom ter um lugar para onde voltar. — Ele disse, se juntando aos outros depois de caminhar por trás dele, inclinando-se contra o ombro do mago baixo. Este… estava vestido de forma muito estranha. Era um estilo que ele nunca tinha visto antes.
O material de suas roupas parecia ser tecido, ou pelo menos as calças… A camisa tinha um padrão estranho, embora fosse feita com algo misturado que Eiro não reconheceu. O mesmo acontecia com os botões, alguns deles eram algo que o Diabrete nunca tinha visto.
Ele vestia uma camisa de couro com um capuz de tecido costurado, o qual o humano havia colocado sobre a cabeça. Também tinha uma mochila pendurada ao lado do corpo, embora parecesse ter sido feita com métodos que Eiro também não reconhecia. E, mais uma vez, o rosto dele era vazio.
O homem permaneceu ali.
— Quero dizer, o inimigo dessa vez também tinha uma vantagem bem injusta, certo?
— Acho que você está certo. — O Rhida disse e o homem sugeriu outra coisa.
— Então, o que acham que devemos fazer? Dar a ele outra chance?