A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 259

A Virtude do Demônio

— Espera… não, espera.., mas… — Eiro murmurou, repassando tudo o que aconteceu na sua mente. — Bahlsen é o Colecionador…? Ou está sendo… — O Demônio pensou sobre o que estava ocorrendo. Não fazia sentido. Bahlsen não mentiu, ele não proferiu nem uma mentira minúscula. Ou ele só era muito bom em esconder a verdade, de alguma forma.

— Mas tudo sobre Bahlsen e o Colecionador são tão… diferentes… — Por algum motivo, Eiro não tinha certeza do que fazer a seguir e ficou atordoado com tudo isso. Ele achava que seus sentidos não poderiam ser enganados, mas parecia que esse não era o caso…

Assim, as palavras que a pessoa manipulada proferiu atraíram a atenção de Eiro.

— Mas isso significa que… — Eiro arrancou a capa do seu corpo e esticou suas asas, sem se importar com o fato de que acidentalmente puxou sua máscara junto ao fazer isso.

Havia um grupo aleatório de pessoas caminhando pelo beco em que Eiro estava e encararam a figura desse demônio furioso esticando as asas. Devido à enorme pressão que ele emitia por estar ali, duas delas caíram no chão e o resto ficou atordoado com essa visão na neve espessa.

Mas Eiro não se importou, ele olhou na direção de Bavet e o slime soube o que fazer. Ele mudou seu formato e pulou no corpo do Demônio. O núcleo de slime de Bavet se fundiu com o corpo de Eiro assim que encostou e viajou até o centro do peito dele, enquanto o corpo do slime cobria as asas de Eiro. Os dois nunca se fundiram dessa forma e o tamanho das asas do Diabrete aumentou muito.

Com um único balançar de suas asas, a neve foi afastada e as pessoas conseguiram ter a primeira visão apropriada desse ser, enquanto irradiava uma luz tênue que uma delas reconheceu.

Ele era um monge, um praticante de artes baseadas em Ki. Ele reconheceu que o que cercava Eiro era uma aura de puro poder que ele havia construído ao seu redor e ela emitia puras emoções de raiva.

Eiro conseguiu ver algumas notificações aparecerem e desaparecerem na sua frente, mas não se importava o suficiente para prestar atenção nelas, portanto foram levadas pelos ventos fortes que cercavam Eiro.

O Demônio infundiu seu corpo com magia de vento e se levantou do solo com a velocidade mais rápida que conseguia. Ele estava praticamente se cortando através da neve que preenchia o ar e a cada bater de suas enormes asas provocava tempestades.

Mas Eiro não se importava. Ele não se importava que estava arrancando as telhas dos telhados das construções ao redor, ou que estilhaçou algumas janelas desses mesmos prédios. Só um pensamento passava por sua neste instante.

Que ele tinha que chegar em casa. Mais rápido do que nunca, Eiro voltou para casa. Por sorte, James estava parado em uma das janelas, bebendo em contemplação profunda sobre sua situação atual.

Eiro o empurrou do caminho e o vidro se estilhaçou no chão, manchando o solo de álcool.

— Qual a porra do problema? — James gritou com raiva, mas se engasgou no instante em que sentiu a aura de Eiro.

O Diabrete virou a cabeça e encarou o Elfo da Luz profunda com seus olhos.

— Pegue as crianças e as leve até o cofre na tesouraria no porão. Agora! — O tom da voz de Eiro ecoou pelo quarto e James foi incapaz de reclamar ou reagir de outra forma, além de cerrar os dentes e fazer como dito, tentando não entrar em pânico com a magia e aura emitida por Eiro. Especialmente James, devido às suas características raciais, era muito afetado por isso.

Enquanto Eiro continuava ali, as notificações, que ele não permitiu que existissem até agora, apareceram na sua frente.

[Você está sob o efeito da ira]

[Outros ao seu redor sentiram suas emoções na forma mais pura.]

[Suas habilidades serão aprimoradas em 10%]

[Como um presente de <O Diabo> por conseguir isso, você não sofrerá nenhuma repercussão.]

Eiro encarou as notificações e cerrou os dentes em fúria, tanto que estava com medo de quebrá-los de repente.

— Ah, você está assistindo a isso, hein? Está se divertindo, seu filho da puta? Espero que aproveite este show, porque você é o próximo.

Eiro passou pela porta e seguiu pelo corredor, ignorando o fato de que a neve pesada que caía no quarto de James através da janela aberta agora estava um pouco mais forte.

Ele conseguia ouvir todos correndo em direção ao cofre no porão, enquanto James abria a sala secreta ali e entravam. Quando essas portas se fecharam, Eiro se sentiu estranha aliviado, mas ao mesmo tempo não conseguiu negar o nervosismo que sentia por não ser capaz de perceber as crianças.

Eiro foi até o hall de entrada e, assim que pisou no carpete, a grande porta de madeira na sua frente se abriu.

— Oh, que surpresa. Você conseguiu chegar aqui muito mais rápido do que eu pensei que iria, mas não importa, isso só tempera as coisas um pouco mais. — O Colecionador, o Demo-Lich, disse com um sorriso brilhante na face e Eiro olhou para ele com um olhar profundo.

— Vire-se e saia, Bahlsen.

Com uma leve risada, o Colecionador balançou a cabeça enquanto dava um passo para frente. Parecia que, dessa vez, ele não estava tentando confundir os sentidos de Eiro e sua voz poderia ser escutada com clareza, mas por algum motivo ainda era diferente da de Bahlsen. Tudo era. Ao ver o Colecionador, Eiro ficou mais uma vez incerto se ele era ou não Bahlsen.

— Acho que você está entendendo algo errado. Meu nome não é Bahlsen, sou Edward Henricus.

— Por que você mentiria para mim? Foi divertido brincar assim?

— Mais uma vez, acho que você está entendendo algo errado. Nunca menti para você. Nem Bahlsen. Do começo ao fim, nós somos dois seres honestos. — Edward explicou com tom sombrio, mas ao mesmo tempo alegre. — Nós somos pessoas separadas. Só que não podemos existir ao mesmo tempo.

— O que você quer dizer? — Eiro perguntou sem pestanejar. Ele ficou confuso, mas não é como se estivesse de fato interessado. Só estava esperando por uma chance para atacar e matar o Colecionador. Com uma risada, Edward se aproximou um pouco enquanto olhava para os olhos vermelhos de Eiro.

— Acho que devo explicar um pouco.., afinal, adoro boas histórias, mesmo que seja eu as contando. Veja, muitas pessoas têm a concepção errônea de que o Cavaleiro de Ouros aprimora suas habilidades investigativas, mesmo aquelas que o portaram no passado. Na verdade, ela abre um domínio da ‘Verdade’ em si mesmo, seja qual for sua manifestação. Na maioria das pessoas, é a capacidade de ‘Encontrar a Verdade’, então não é muito diferente de uma habilidade investigativa, mas, no nosso caso, é um pouco mais único do que isso. — O Colecionador explicou. — Veja, Bahlsen era um homem feliz, com uma vida aparentemente perfeita, embora ainda tivesse sob o domínio de seu trabalho um tanto vil, como parte do governo de uma nação militarista. Quando ele tentou desistir do seu trabalho, foi dispensado em vez de ser permitido sair. Em resposta, meu senhor o encontrou, o único ser que transcende e manipula o reino da vida e d-

— Morte! — Eiro respondeu e Edward sorriu em resposta, seu rosto repugnante, pálido e enrugado se contorcendo em uma visão horrível.

— Exato. De qualquer forma, meu Senhor deu dois presentes para ele. A bênção de um Morto-vivo, transformando-o no Demi-Lich que vê na sua frente e o presente da Verdade, ao entregar o ser que agora sou eu, o Cavaleiro de Ouros. Normalmente o primeiro presente corrompe a de quem está sendo ressuscitado, mas no nosso caso, algo mais aconteceu. Nossa ascensão à Morto-Vivo ainda não foi concluída. Com o ‘Domínio da Verdade’ adicionado à mistura, duas coisas aconteceram. Primeiro, recuperei todas as memórias da minha vida. Segundo, fui dividido em meus ‘verdadeiros’ eus. E isso significa o verdadeiro eu de quando eu estava vivo e o verdadeiro eu de quando eu não estava. Nas personas de Bahlsen e Edward. Por algum motivo, Bahlsen é incapaz de saber o que eu sei, mas eu sou capaz de saber o que ele faz. Talvez isso seja ele rejeitando a própria morte, embora eu aceite meu tempo em vida e em morte.

— … então, você matou sua própria esposa e filha? — Eiro perguntou com um tom claro e Edward riu.

— Claro que não, não seja ridículo! — Ele exclamou. Por um instante Eiro ficou confuso, desde que Edward disse que ele ou Bahlsen jamais mentiram para o Demônio, mas então, compreendeu que essa ‘Verdade’ estava nos olhos de quem a vê, quando o Demi-Lich falou de novo. — Eu renasci em um Morto-Vivo, sou uma pessoa nova. Tenho minhas memórias, mas nenhuma conexão com o meu tempo vivo. Aquelas não eram minha esposa e filha, mas as de Bahlsen. Como eu adorei vê-las gritar enquanto as desmontava para o meu primeiro projeto!

Com uma expressão doentia de prazer no rosto, Edward se aproximou de Eiro e o Diabete o encarou com pura ira nos olhos.

— Você é repugnante.

— Haha diz aquele que pararia para beber álcool um momento tão importante. Como se você quisesse que eu assassine toda a sua família!

Com um suspiro profundo, Eiro olhou para o chão.

— Nós dois sabemos que essa não é a verdade por trás dessa situação.

— É claro, mas sem algumas brincadeiras de vez em quando, a vida seria chata. Felizmente piadas não são mentiras, são?

— Claro que são. — Eiro disse e encarou Edward, apertando o punho com força. Um pouco de fumaça subiu por entre os dentes de Eiro de repente, enquanto todo o corpo do Demônio pegava fogo. Claro, Bavet e Eiro já haviam se separado antes disso, ou o Slime teria sido ferido.

Mas Eiro manteve os vapores alcoólicos em seu corpo e criou chamas dentro de si próprio, as quais infundiu no seu corpo depois de criá-las.

Desse modo, o Demônio e o Demi-Lich lutaram.

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