A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 258

A Virtude do Demônio

Eiro permaneceu ao lado da estrada e observou com atenção as pessoas ao redor enquanto voltavam para suas casas pela neve forte. Entre essas pessoas que sofriam no clima frio, tendo um decréscimo em suas Forças Vitais, havia uma figura que estava transbordando depois de ‘pegar emprestado’ um pouco de Eiro.

Bavet, disfarçado de uma pessoa aleatória, fingindo para se encaixar na multidão. Eiro havia aumentado a quantidade de Força Vital colocada nos olhos de Bavet, que pareciam estar bem neste clima com sua forma humana. Parecia ser um efeito adicional depois de sua evolução, ele não ser mais tão vulnerável a frios extremos, contanto que estivesse em uma forma que pudesse aguentar o clima já que mudou sua forma para carne.

Bavet havia se tornado capaz de copiar seres vivos ao nível que era quase impossível distingui-lo de uma pessoa normal. Já que parte das suas habilidades copiava o comportamento dos outros, nem mesmo Bahlsen conseguia distinguir Bavet na multidão, disfarçado perfeita.

Em algum momento, Bavet saiu da visão do Demônio, mas ele ainda era capaz de senti-lo em alguma extensão porque possuía parte da sua Força Vital dentro dele.

Assim, o Diabrete entrou em um pub aleatório e agiu como um cliente comum, junto de Bahlsen, enquanto Bavet fingia ser um morador de rua que teve que ficar no frio da noite, enquanto todas as outras pessoas limpavam as ruas devido à forte neve que caía.

Essa era uma das melhores noites para o Colecionador agir. Não havia pessoas por perto, nem muitos guardas estavam do lado de fora. Nesta parte era quase um deserto congelante e desprovido de vida, seria fácil para ele caçar pessoas com quantidades boas de vida nelas. Mesmo que estivessem dentro de prédios, era muito mais fácil matar alguém que estava sozinho em casa do que em um lugar público.

E enquanto Bahlsen e Eiro continuavam sentados em um pub aleatório, um funcionário caminhou até eles.

— Então, vocês dois irão pedir algo ou não? Estão sentadas aqui já faz vinte minutos.

— Esperando a neve passar um pouquinho. — Eiro respondeu e o funcionário olhou para ele com um suspiro.

— Escute, cara, entendo que o clima está uma merda e tudo mais, mas temos um negócio para administrar. O chefe é um pouco peculiar com isso, mas contanto que peça alguma coisa, qualquer coisa, posso convencê-lo a deixá-los ficar até a neve passar. Então, irão querer algo?

Eiro olhou para Bahlsen, que sorriu para o funcionário.

— Claro, então quero uma xícara de jasmim, por favor.

O funcionário olhou confuso para ele e Eiro suspirou.

— Desculpa, meu amigo não é daqui. Queremos dois metheglin quentes. — O Demônio disse, levantando a mão esquerda e mostrando dois dedos para o funcionário, já que estava um pouco barulhento dentro do pub.

— Já trago. — O funcionário disse, virando-se ir até o bar para pegar os pedidos. Bahlsen olhou para Eiro e antes que pudesse falar, o Diabrete já havia o interrompido.

— Sabe, chá não é muito popular por aqui. Pelo menos não entre os plebeus, alguns nobres pretensiosos talvez, mas a maioria das pessoas nem sabe qual o gosto de chá. Por isso, os pubs não servem merda, como chá. — Eiro explicou sem rodeios e Bahlsen levantou as sobrancelhas, assentindo.

— Entendo, isso explica a reação, mas o que são metheglin? — Bahlsen perguntou curioso e Eiro inclinou suas costas contra seu assento.

— Hidromel com ervas e temperos. Hidromel é uma das poucas coisas toleráveis de se beber quente por aqui, então todos bebem. Metheglin também é uma variedade muito bem-vinda para a maioria das pessoas. Imaginei que seria mais do seu gosto do que hidromel normal.

— Oh, certo, certo, era isso! Parece um pouco familiar… Desculpa, sou um pouco esquecido, recebo um influxo tão grande de informações que é um pouco avassalador às vezes. Irônico, não é? Considerando que costumava trabalhar com memórias… — Ele riu. — Tenho certeza de que você sabe como é, com seus sentidos aprimorados e tudo mais.

— Na verdade, não. — Eiro respondeu de imediato. — Tenho uma memória perfeita. Não consigo acessá-las de uma vez, mas é muito fácil me recordar de memórias específicas se eu tentar.

O Demônio virou a cabeça e olhou para o funcionário que retornava com duas grandes canecas de metheglin fumegante. Eiro pagou e o funcionário saiu.

— Então… — Bahlsen disse. — Como faremos isso? Não seria muito estranho se não bebermos?

— Hm? Por que não beberíamos? — Eiro questionou com uma carranca. Embora Bahlsen não conseguisse ver por causa da máscara do Demônio, mas parecia que ele entendeu pelo tom da voz de Eiro de qualquer forma.

— Bem, primeiro, estamos no meio de uma investigação, então ficar bêbado não é uma boa ideia… e você meio que precisa retirar sua máscara para beber, certo?

Eiro levou a mão à sua máscara, pressionando os locais onde suas mandíbulas se encontravam. Com um estalo, uma pequena fenda se formou entre a parte superior da máscara, incluindo seu nariz e a metade inferior que cobria sua boca.

Ainda conectadas ao redor dos locais em que Eiro pressionou, o Diabrete podia puxar a máscara um pouco para baixo e deslizá-la sob seu queixo. Essa máscara era algo que Eiro fez especifica para lidar com coisas relacionadas à Organização, então adicionou alguns truques que queria tentar. Esse era um deles.

E outro dos truques legais era uma pequena bolsa de dementes construída bem no fundo da máscara, na qual Eiro poderia usar magia de natureza e infundir com sua pele por um motivo muito simples. Através da magia da natureza, sua pele assumia uma textura parecida com uma casca de árvore e ficava muito mais escura que o normal. Desse modo, sua pele rígida, áspera e vermelha parecia uma queimadura feia que cobria todo seu rosto.

As pessoas por aqui sabiam que não deveriam bisbilhotar essas coisas e máscaras não eram incomuns devido a ferimentos feios, como os de Eiro. Ataques de monstros aleatórios não eram tão raros, então muitas pessoas tinham partes dos seus corpos queimadas por slimes, por exemplo. Alguns poderiam encarar, ainda mais os bêbados, mas, contanto que parecesse convincente, poucas pessoas perguntariam sobre.

E mesmo que perguntassem, depois que Eiro dissesse que não queria falar sobre, as pessoas parariam.

Eiro tentou isso algumas vezes com pedras mágicas de natureza para ter algo como um disfarce provisório, no caso de precisar, como agora.

Ele segurou a caneca na sua frente e a levou aos lábios, tomando um pouco.

— Posso beber o seu se quiser. Tenho a habilidade Resistência à Toxinas no grau iniciante, mas é suficiente para algumas rodadas de hidromel.

— … certo, faz sentido. — Bahlsen disse, aceitando a explicação de Eiro. Ele não ficava mais surpreso com a ampla gama de habilidades que Eiro tinha.

Bem, não era só isso. Na verdade, Eiro estava praticando algo neste instante. Estava fazendo partes específicas do hidromel em seu corpo evaporar o álcool, contudo, nele, circulava os vapores em seu estômago usando magia de vento.

O que tentava testar era a cópia de um processo dos dragões. Uma versão simulada do sopro de fogo.

O Demônio estava tentando descobrir formas de criar chamas do ‘nada’, em vez de ter que usar um gerador de faíscas. Durante uma luta, isso era muito inconveniente, afinal.

Assim, Eiro queria tentar usar algo inflamável. Claro que não tentaria acendê-lo agora, guardaria para mais tarde. Por algum motivo, se tivesse que usar magia da natureza para fazer as coisas que comeu apodrecerem e criarem certos gases inflamáveis em grandes concentrações, então Eiro não se importava. Essa era uma das suas razões, uma pequena, para conseguir a magia de natureza: para que pudesse fazer isso. Ela não apenas o permitia fazer plantas crescerem, mas também fazia as coisas apodrecerem em alguma extensão, então Eiro queria poder fazer ambos com perfeição.

Desse modo, se precisasse, poderia engolir uma semente, cultivá-la em uma planta em seu estômago e apodrecê-la num instante, criando algo parecido com álcool, para que pudesse ter algo inflamável.

E claro… O Sopro das Chamas era algo que a maioria não esperaria que uma pessoa aleatória fizesse e seria muito útil em situações em que Eiro não pudesse usar suas mãos para pegar o gerador de faíscas.

No geral, estava tentando pegar o Colecionador desprevenido de qualquer forma possível.

Assim, Eiro bebeu o hidromel e manteve a maioria dos seus vapores alcoólicos dentro do seu corpo.

De repente, Eiro percebeu algo acontecendo lá fora, ao redor de Bavet. Felizmente Bahlsen conseguiu localizar os padrões de localização de onde o Colecionador procurava por suas vítimas e havia sugerido este lugar.

O Diabete correu na direção da porta e colocou cada parte da máscara no lugar certo. Saiu correndo pela porta e saiu na neve, empurrando duas pessoas no caminho enquanto fazia isso.

O Demônio correu pela névoa grossa na direção em que Bavet estava e lá havia um homem vestindo as mesmas roupas do Colecionador na frente de Bavet, falando com ele. Eiro retirou sua adaga e estava para esfaqueá-la na lateral da cabeça do Colecionador, quando de repente, percebeu algo.

— Não… Não é ele. — Eiro murmurou enquanto olhava para a figura na sua frente. Ela virou a cabeça na sua direção. No fim, esse homem não parecia em nada com o Colecionador, tinha um olhar vazio e idiota na face.

Essa pessoa não era um Morto-Vivo, nem um fantoche criado pelo Colecionador, mas… de alguma forma, ela ainda estava sob o controle do Colecionador. Cerrando os dentes de fúria, Eiro empurrou sua mão para frente e segurou o homem pela garganta.

— Onde diabos ele está? — Eiro questionou com um rugido. O homem o encarou de volta com a mesma expressão vazia, mas de repente começou a sorrir como doido.

— Oh, meu caro, olha quem temos aqui? E não confunda isso com controle direto, isso é algo ‘pré-gravado’, se preferir. Não estou perto daqui. Na verdade, já estou a caminho da próxima peça do meu quebra-cabeça. Por sorte, encontrei um lugar bom e remoto que é um baú do tesouro cheio de seres transbordando vida!

Um arrepio frio percorreu suas costas, enquanto o homem controlado continuava a falar.

— Na realidade, essas peças do quebra-cabeça foram criadas por você, meu caro amigo.

As palavras que esse homem usou soavam estranhas para Eiro, por algum motivo… não que houvesse magia infundida nelas, mas que sua escolha de palavras era incomum e familiar para ser uma coincidência. Então, Eiro percebeu.

Ele virou seu corpo e apertou sua mão, rasgando a garganta do homem que estava sendo controlado.

Em vez de tentar descobrir onde o Colecionador estava, Eiro estava tentando encontrar Bahlsen.

Porque ele não estava em nenhum lugar dentro da percepção de Eiro.

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