A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 256

A Virtude do Demônio

Eiro abriu os olhos devagar.

Ele teve que rasgá-los porque estavam fechados, entregues a uma pele semelhante à casca de árvore, mas ao se livrar da magia em seu rosto ele conseguiu abri-los sem nenhuma preocupação.

De qualquer forma, o que era mais importante era o fato de que Eiro estava vendo novas notificações na sua frente.

[Aptidão com o Elemento Natureza aumentada]

[Habilidade Magia da Natureza (Iniciante) Aprendida]

As notificações eram mais do que bem-vindas. Esse era um elemento que ele queria adquirir há um bom tempo. Com isso, Eiro esperava seguir os passos de Jura de forma ainda melhor do que já estava tentando. Muitos feitiços de magia de natureza serviam para restringir as pessoas, então isso era algo que seria útil em qualquer tipo de luta.

O Demônio parou de inserir sua mana na pedra mágica da natureza e ‘neutralizou’ a magia que já havia preenchido a sala. Eiro se levantou e se alongou. Ele ainda se sentia bastante rígido, mas isso era muito normal pela experiência que tinha com o Elemento Natureza.

 — Okay, então só preciso ter com esse também… Vamos esperar que isso funcione e não destrua esse quarto… — Eiro murmurou, mas, para se certificar, ainda se recordou de cada detalhe desse cômodo para que conseguisse replicá-lo caso fosse quebrado. Ele era incrível, afinal.

Eiro retirou a pedra mágica que havia encontrado na mina situada na Vila Goblin: a Pedra Mágica de Gravidade, pressionou a pedra no chão e inseriu um pouco de magia dentro dela. Queria começar devagar, mas assim que Eiro fez isso, já conseguia sentir a pressão se acumulando ao redor dele.

Era meio desconfortável, na verdade. Eiro se recordou da primeira vez que se infundiu com esse tipo de magia. Ele conseguiu manipular a forma como ela agia e podia se tornar mais pesado, mas também poderia ficar mais leve.

Então, para se livrar dessa pressão, Eiro tentou ‘se livrar’ da gravidade. Quando fez isso, seu corpo parecia quase sem peso. Seu corpo até mesmo se levantou do chão porque estava se movendo muito rapidamente.

Era uma sensação ainda mais estranha que antes, mas não era tão desagradável. Na realidade, parecia muito divertido não ter peso dessa forma.

Mas, de qualquer modo, Eiro tinha que se manter no solo, então fez com que a gravidade não sumisse totalmente, mas que ainda tivesse um pouco de peso nele.

Se tornou um pouco mais difícil de controlar quanto mais magia preenchia a sala, desde que ela reagia com muito mais força ao menor dos estímulos quanto mais concentrada se tornava. Eiro tinha que ter cuidado para que não destruísse essa sala… ou ele próprio.

Assim que conseguiu se estabilizar, Eiro começou a se infundir com a magia de novo. Era um pouco mais desconfortável fazer isso, mas não era tão ruim, contanto que se concentrasse… apesar de que não tinha certeza de que teria conseguido fazer isso se seu atributo de inteligência não fosse tão alto.

Agora que a magia de gravidade estava percorrendo seu corpo e ele estava fazendo percorrê-lo em círculos, sentia-se o oposto de como se sentiu quando infundiu com magia de natureza. Em vez de uma sensação calma, a magia de gravidade o fazia se sentir tenso, porque parecia que iria matá-lo se ele errasse.

As poucas horas que tentou reservar para isso pareceram muito maiores do que Eiro esperou. Assim que terminou, não parecia que conseguiria a magia de gravidade em breve, embora a pedra mágica de gravidade não contivesse muita magia dentro dela. Com sorte, encontrariam mais delas na mina.

— Agora que penso nisso, devemos voltar lá de novo… Vamos esperar que não tenham se rebelado ou algo do tipo. — Eiro murmurou para si. — Todos os ingredientes para se livrar da monstruosidade de mais alguns goblins devem chegar em breve também, também temos alguns para as aranhas… Na verdade, vamos esperar que isso funcione.

O Diabrete resmungou enquanto se livrava da magia de gravidade na sala, sentindo como se tivesse desperdiçado muito tempo por nada. Ele saiu do cômodo e vestiu suas roupas de novo, enquanto Nelli e Gondos retornavam para o seu lado.

— Então? Como foi? — Nelli perguntou curiosa e Eiro olhou para ela.

— Consegui a Magia de Natureza, mas não a de Gravidade.

— Ei, pelo menos é alguma coisa, certo? — Gondos comentou e Eiro deu de ombros.

— Acho que sim. Poderiam informar aos outros que sairei em breve? Primeiro quero testar minha nova magia.

— Certo, farei isso. — Gondos disse com um aceno lento, flutuando para longe da torre e avisando aos outros. Enquanto isso Eiro abriu a janela mais próxima e pulou por ela. Ele se segurou com magia de vento e foi até o jardim. Parecia que antes havia diferentes flores crescendo aqui, mas agora estava tudo murcho e morto, o que se podia ver eram vestígios.

Eiro estendeu a mão para frente e  liberou um pouco de magia da natureza na área à sua frente. Já havia algumas plantas crescendo aqui, algumas eram novas flores tentando brotar das mortas e antigas e outras eram ervas daninhas aleatórias.

Imediata, Eiro tentou praticar qual específico ele poderia ser com essa magia e tentou fazer com que as flores brotassem de novo, deixando as ervas daninhas de lado.

Foi um pouco difícil a princípio, porque era um novo tipo de magia para ele, mas, pelo menos, conseguiu usar experiências que não esperava. Em alguma extensão, era muito parecido com Magia de Terra e de Água, a origem desse elemento em primeiro lugar, desde que ele estava lidando com algo físico e tangível.

Mas, de novo, era muito diferente na forma como agia, desde que não dependia de controlar diretamente árvores e plantas ou fazê-las se mover como outros elementos base. Claro, isso fazia parte e era possível fazer isso em algum nível, mas esse elemento dependia de fazer as plantas crescerem em direções específicas.

Dessa forma, era muito parecido com Magia de Fogo, na qual era necessário usar sua magia para aumentar o volume das chamas para conjurar feitiços de fato.

A base do que Eiro estava fazendo não era nada novo, mas essa combinação específica de coisas era bastante incomum. Ele se agachou perto de uma das plantas específicas que queria ajudar a crescer e concentrou toda sua atenção nela.

Permitiu que sua magia fluísse por cada parte da planta, das raízes à ponta do caule, na esperança de fazê-la crescer. Pelo que Eiro conseguiu ver, parecia estar funcionando. Sua magia de natureza estava subindo de nível muito rápido, assim como a maioria das habilidades de nível 1 do grau iniciante.

Logo, a pequena planta, a flor que ele escolheu, conseguiu crescer um pouco. Não era muito rápido e uma pessoa normal nem seria capaz de vê-la crescendo, mas com a visão de Eiro, o Demônio conseguia ver isso e notar que funcionava sem sombra de dúvidas.

Eiro estava se perguntando por que ela crescia tão lentamente, afinal, magias avançadas como magia de natureza deveriam ter muito mais poder. Pensando que talvez estivesse fazendo algo errado, o Diabrete focou sua atenção em outra planta. Uma das ervas daninhas que estava crescendo ao lado da flor. Quando fez isso, a erva daninha começou a crescer com um ritmo bastante rápido, tão rápido que qualquer um conseguiria perceber.

Ela ficou maior e mais grossa, afetando até mesmo algumas plantas ao redor, mas, por algum motivo, aquela pequena flor mal cresceu.

Com um suspiro profundo, Eiro se agachou e olhou para o céu.

— Por favor, não me diga que isso é outra coisa ridícula daquele Choromante? — Eiro murmurou para ninguém. Na verdade, ele não tinha certeza se queria que esse fosse o caso ou não. Primeiro, seria bastante interessante ver que tipo de flor ela poderia ser, considerando que aparentava possuir propriedades muito especiais, mas, por outro lado, seria bastante difícil esconder o fato de que algo estranho ocorria aqui se Eiro tivesse algumas plantas mágicas malucas em seu jardim.

Depois de explicar seus pensamentos para Eiro, Nelli comentou algo mais.

— Eiro, devo te recordar da sua plantação de árvores especiais na qual você atual está plantando árvores com o sangue de diferentes monstros aracnídeos e onde está tentando fazer crescer árvores com a mana de um dos membros do seu grupo, assim como o Príncipe Herdeiro desse país, para que possa fazer próteses para eles?

Com um leve olhar direcionado à Náiade, Eiro comentou.

— Sim, mas pelo menos eu estava preparado para isso e não é algo que tenho que esconder. Quero dizer, sou um Protesista, que tipo de madeira eles esperam que eu use? Carvalho? Bétula? Abeto?

— Provavelmente sim. — Nelli respondeu. — Sabe, Jura não é o tipo de Protesista ‘normal’. Nem todos os protesistas são como você, que cria próteses que conseguem se mover e substituir membros perdidos com perfeição.

— … Eles não podem?

— Não, claro que não podem! — Nelli gritou, surpresa por ter que mencionar isso e Eiro coçou  sua bochecha.

— Bem, então acho que tenho que pensar em uma desculpa melhor do que: ‘estou tentando aumentar minha variedade’… talvez tenha que avisar Solomon sobre as madeiras embaixo da cabana?

— Isso parece uma boa ideia, sim, mas ainda não entendo como você pode confiar em alguém para pegar tudo isso para você…

— Oh, na verdade, não confio nem um pouco. Darei a eles a localização errada. Voarei na frente quando tiver tempo para que possa usar magia para mover todas as madeiras para essa localização ‘errada’ e farei com que esses caras tragam todas as madeiras para cá em segurança… Não entregarei a localização de nossa casa para eles, é claro.

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