A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 255

A Virtude do Demônio

— Uma Chama Sagrada que está sempre queimando? — Nelli perguntou com uma expressão curiosa enquanto olhava para o orbe de vidro que Eiro segurava e o Demônio assentiu.

— Sim. Bem, o homem que costumava morar nesta mansão não era apenas um Choromante habilidoso, mas também um Artífice incrível. É quase impossível criar tais cômodos e passagens escondidos sem isso. Pelo que eu saiba, eles funcionam de forma muito semelhante a esta ‘Chama Eterna’.

Nelli olhou para o orbe de vidro em contemplação, cruzando os braços.

— Então é como se… estivesse criando combustível infinito para magia?

— Bem, em teoria, isso poderia funcionar também, eu acho. É impossível criar combustível infinito sem utilizar as almas das pessoas mortas. Almas são a única coisa que podem produzir mana. Apesar de que escutei que alguns ‘Artífices Vils’ já fizeram isso, mas não, o que isso faz é muito mais impressionante. Isso torna o combustível desnecessário. — Eiro explicou. — É um pouco complicado e requer muitas runas diferentes e coisas… Honestamente, ainda não descobri, então nem posso começar a explicar como funciona. Caso contrário, eu já poderia ser capaz de criar um desses cheio com as Chamas Sagradas. Quero dizer, ainda nem conseguiu a habilidade ‘Artificação’. Isso pode ser muito mais difícil do que acho que é, não sei. De qualquer forma, começarei a trabalhar nisso quando terminar.

O Demônio explicou e a Náiade parecia de acordo com essa sugestão.

— Parece justo. Quero dizer, você deve conseguir entender esse tipo de coisa com muita facilidade, certo? Não há como você não conseguir, na verdade.

— Vamos esperar que sim, para ser honesto. — Eiro disse enquanto respirava fundo. Ele guardou de volta o orbe de vidro no closet e o fechou, se concentrando nas Chamas Sagradas que flutuavam a uma pequena distância dele.

Eiro fechou os olhos e apertou sua mão, extinguindo imediata as chamas brancas. O Diabrete se certificou de que não havia faíscas perto dele para que não acabasse se inflamando, tudo o que precisava fazer era jogar a bolsa no chão e controlar o sangue dentro do frasco para quebrar o vidro fino.

Até lá Eiro manteria essas bolsas em um lugar onde não poderia rasgar e matá-lo enquanto dormia ou algo do tipo.

Assim que usou cerca de três quartos dos seus ossos, decidiu que tinha suficiente por ora. Eiro manteria o resto dos ossos como reserva, ou para algum outro projeto, enquanto tentaria usar o sangue de Avalin como uma arma direta, ao congelá-lo e dispará-lo no Colecionador no formato de agulhas.

Agora, tudo o que Eiro tinha que fazer depois disso era… aprimorar suas habilidades.

Isso significava a área da magia, óbvio. Ele passaria todo o dia de hoje se preparando para isso e, com sorte, conseguiria adquirir os dois novos tipos de magias que queria possuir.

Assim, Eiro voltou para dentro do quarto no topo da torre, aquele capaz de se infundir com um elemento particular. Ele estava nu de novo e retirou uma das duas pedras mágicas que queria utilizar.

Claro, essa sala estava um tanto ‘quebrada’ ou ‘incompleta’, mas isso não mudava o fato de que conseguia aprimorar e aumentar a quantidade da magia elemental que circulava pela área. Se Eiro conseguisse puxar tudo isso em sua direção e se infundir, então isso não seria um problema.

Primeiro de tudo, o Eiro começou com a Pedra Mágica do Elemento Natureza. Ele a retirou da sua tesouraria, pressionando-a no centro do chão da sala circular. Eiro inseriu sua mana, sentindo a magia penetrar nas runas. Elas começaram a brilhar com uma luz verde-claro, o espaço ao redor de Eiro mudando.

Bem, na verdade, não.

Ela não mudou fisicamente, nem um pouco. Se houvesse coisas como pequenas sementes ali, elas teriam crescido rápido, mas devido à ‘sessão de relaxamento’ de Eiro de antes, onde esfriou a sala aquecê-la, ambos em nível que teriam matado a maioria dos outros seres vivos, qualquer coisa que tivesse a possibilidade de brotar aqui já estaria morta. O que era bom, desde que Eiro não queria lidar com isso.

Não, a forma como essa sala mudara era na sensação que emitia, a ‘aura’, como Eiro gostava de chamar esse tipo de sensação. Coisas que não podiam ser explicadas com palavras. Essas auras assumiam a forma de emoções e ideias brutas na maioria das vezes, em vez de algo apropriado e tangível.

E a ‘ideia bruta’ que estava surgindo na cabeça de Eiro agora era bastante simples… se ele tivesse que escolher a palavra mais próxima para se adequar a isso, seria ‘Floresta’, apesar de haver muito mais do que só isso.

Era como se Eiro fosse capaz de sentir o cheiro do ar, sentir a brisa gelada na sua pele e escutar o farfalhar das folhas acima dele, mas, no fim, tudo isso era a imaginação do Demônio e nada disso era real.

Desse modo, Eiro começou. Ele conseguiu sentir toda essa magia preencher a sala ao máximo e ficar ainda mais concentrado. Como a fonte dessa magia era a mana de Eiro, ele conseguia controlá-la, mesmo que fosse um pouco mais difícil do que o normal. Estava tudo bem, ela não precisava ser tão fácil de controlar, afinal, não queria usar isso para algum tipo de feitiço. Só precisava infundir seu corpo com ela.

O Diabrete sugou a magia para o seu corpo de todas as formas possíveis. Absorvendo-a através da sua pele, inspirando-a ou qualquer método que viesse à sua .

Eiro então infundia seu corpo com essa magia, enquanto inseria sua mana na pedra mágica que pressionava no chão. Ele sentiu sua pele ficar mais grossa de novo, como sentiu quando fez esse tipo de coisa em cima da laje de pedra na vila goblin.

Sua pele se tornou rígida e escureceu um pouco, como se estivesse se transformando na casca de uma árvore. Seus chifres e dedos esticaram um pouco e se moviam um pouco mais selvagens, como se fossem raízes ou galhos se esticando.

No fim, era isso que Eiro queria, então tudo bem, mas ao combinar tudo isso com toda a Aura de ‘Floresta’ que estava sentindo desse espaço cheio de Magia de Natureza, um sentimento ainda mais forte do que ele conseguia sentir de florestas reais, parecia como se Eiro tivesse se transformado em uma árvore que estava parada no centro de uma floresta ancestral.

Ele sentiu o solo abaixo dele, enquanto suas raízes se enterravam cada vez mais, seus galhos balançando no vento. Conseguia sentir musgos crescendo no seu corpo, mas nada disso estava acontecendo de verdade. Eiro não era uma árvore de verdade, nem estava em uma floresta.

Levou muito tempo para Eiro compreender tudo isso de fato e não se esquecer no meio do processo de infusão. Como se, no fundo, quisesse acreditar que era tão simples assim, que não tinha que se preocupar com mais nada. Que ele não tinha que temer por sua vida constante, que não tinha que se esconder para se proteger e proteger seus entes queridos.

Que ele estava entre outros que gostavam dele de verdade. Uma árvore em uma floresta nunca ficava sozinha, e embora Eiro não estivesse sozinho, estar cercado por tantas outras pessoas com quem se importava e que, por sua vez, cuidavam dele, ainda não era a mesma coisa. Elas não eram as mesmas. Eiro era um ser que parecia… sem precedentes.

Um monstro poderia ser capaz de entender alguns dos problemas de Eiro, mas não o suficiente.

Um monstro no controle da sua monstruosidade poderia entender ainda mais, apesar de ainda haver mais por trás disso.

Um demônio no controle de sua monstruosidade, por outro lado, já estava muito próximo do que Eiro era, mas ainda não estava lá.

Havia muitas coisas que poderiam ser adicionadas a isso sem nem entrar em questões como personalidades ou circunstâncias, olhando qual era a base de Eiro.

Eiro era um demônio criado artificialmente no controle da sua própria monstruosidade, capaz de crescer seus atributos de forma que nenhum outro ser vivo que ele conhecia era capaz. Essa era a base do que Eiro era. Então, poderia adicionar o fato de que Eiro estava criando o único ser capaz de matá-lo – se quisesse – como sua filha, vivendo entre pessoas que desejariam matá-lo, ao mesmo tempo que é Abençoado pela antiga Rainha das Náiades e uma Deusa da Natureza, tudo isso enquanto conspira para assumir os títulos de Rei dos Monstros e do Herói.

Honestamente, considerando tudo isso, quem poderia simpatizar com ele? Quem conseguiria compreendê-lo?

Comparado a isso, ser uma simples e entediante árvore em uma floresta com outras árvores iguais a ele não parecia tão mal.

Eiro se sentou ali por um tempo, sonhando em como seria uma vida assim, uma vida sem problemas talvez fosse assim. Como seria poder relaxar de verdade o tempo todo, como seria não ter que se concentrar em uma área de um quilômetro ao seu redor a todo momento no caso de alguém tentar matar você ou suas crianças.

Eiro ficaria satisfeito com isso? Ele preferiria uma vida como essa à vida que vivia atual?

Obviamente, a resposta para isso era ‘não’.

Ele amava suas crianças e amava seus amigos e aliados. Ele não queria mudar nada sobre a situação atual.

Ainda assim, até mesmo um ser sem precedentes como Eiro tem que se entregar ao escapismo de vez em quando.

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