
Volume 3 - Capítulo 254
A Virtude do Demônio
Jess encarou Eiro com uma expressão confusa, afinal, ter algo desse tipo jogado em você de repente não era algo pelo qual ela poderia estar preparada.
Ela deu meio passo para trás e encarou os olhos de Eiro, sua visão vagando de volta para o pequeno pedaço de madeira negra que Eiro segurava.
— Isso… Isso é uma piada, certo? Não pode estar falando sério… Você estar perto de Avalin é tão perigoso? Madeira que cresceu do cadáver de um Anjo Caído? Toda essa situação é tão… tão…
— Ridícula? Sim, eu sei o que você quer dizer. Já faz um bom tempo que penso da mesma maneira. É assim que as coisas são e não posso mudar nada sobre isso. Bem, exceto se a Energia Sagrada parar de ser minha perdição, eu acho. Neste ponto, ficarei bem, mas antes disso não há nada que possa fazer sobre isso. — Eiro disse para Jess. — E eu disse ‘antes disso’, mas nós dois sabemos que isso é algo que nunca ocorrerá.
— Mas… — Jess começou, mas Eiro olhou de volta para ela com um sorriso no rosto. Ele se empurrou da parede e começou a caminhar pelo corredor, colocando a mão na cabeça de Jess por um instante enquanto fazia isso.
— Tudo bem. Sei disso há muitos anos, não há como eu não estar preparado para isso.
Eiro passou por Jess e a conversa entre eles se encerrou, porque ele não queria discutir mais sobre isso. Não era como se já não tivesse tido todos os pensamentos que Jess estava tendo neste instante.
Não era como se não tentasse pensar em uma solução para reverter isso, ou anular a fraqueza fatal à Energia Sagrada.
Mas também era um fato que sua habilidade de Resistência à Energia Sagrada não estava mais subindo de nível. Talvez uma vez por mês ou algo do tipo e a única forma que Eiro conseguia continuar fazendo com que ela alcançasse níveis mais altos era destruindo seu corpo. Essa era a fraqueza fatal de tais habilidades e deveria se livrar de tais fraquezas. Você não poderia subi-las de nível a menos que se expusesse a elas.
E habilidades de resistência contra a perdição de alguém eram tão raras que muitos pensavam que eram impossíveis de adquirir em primeiro lugar, afinal, um ser não sobreviveria tempo suficiente para ser capaz de desbloquear uma habilidade de resistência contra sua perdição. Eiro era um caso de sorte.
Ou melhor, ele era uma aberração em todos os sentidos da palavra. Eiro caminhou pelo corredor e olhou para as costas da sua mão, que ainda estava sendo curada. Sua vida ainda não se recuperou, mas, pelo menos, essa rápida cura em massa era bastante conveniente.
De qualquer forma, Eiro tinha de completar a última parte do seu plano, que deveria ser seu trunfo contra o Colecionador, e, se possível, contra <A Morte>.
Eiro foi até a biblioteca escondida e abriu uma das caixas que havia colocado em uma das mesas em preparação para isso. Eiro abriu a caixa e retirou uma pequena bolsa de couro, derramando seu conteúdo na mesa.
Pequenos ossos branco-amarelados caíram da bolsa e Eiro respirou fundo enquanto diferentes figuras se aproximaram dele. Primeiro, Nelli e Gondos, que estavam sempre de olho no que Eiro estava fazendo, mas Bavet e Gobo também queriam ver o que o Diabrete estava fazendo.
— Espera, para que são esses ossos? — Bavet questionou, reconhecendo os pequenos pedaços pelo que eram e Gobo inclinou a cabeça para o lado.
— Um lanche para pensar?
Eiro suspirou e balançou a cabeça.
— Não, eles são meus próprios ossos. Quando Jura removeu minha mão, guardou os ossos para que eu pudesse fazer o que quisesse com eles. E o que farei agora é… — O Demônio pegou outro conjunto de itens que havia colocado sobre a mesa. Colocou alguns dos ossos numa tigela que era parte desse pequeno conjunto, esmagando-os em pó fino. — … isso.
Parecia que ambos os Espíritos compreenderam o que Eiro queria fazer com isso, considerando que haviam demonstrado o efeito que o sangue de Avalin tinha em Eiro.
Quando a Energia Sagrada entrava em contato com a pele, carne, sangue ou qualquer parte do corpo de um Demônio, ela tentaria acender as Chamas Brancas Sagradas e, no processo, queimaria tudo em que essas chamas pudessem aparecer, mas no caso de uma alta concentração de Energia Sagrada acertar um Demônio, ela se incendiava com uma potência muito mais selvagem e concentrada do que quando a Energia Sagrada a incendiava. As Chamas Sagradas acabariam queimando a massa profana que era o corpo do Demônio e o usariam como combustível para criar Energia Sagrada do nada.
Bem, pelo menos era assim no começo. Depois que as Chamas Sagradas eram acesas, apesar de sua natureza certa conter algo Sagrado… Elas ainda eram chamas.
Eiro colocou um pouco do pó de ossos na sua frente e o colocou em uma superfície plana longe de todos os outros pedaços de ossos, para que não ocorresse nenhum acidente.
Então, Eiro segurou o frasco cheio com o sangue de Avalin e o abriu com cuidado. Retirou outra gota de sangue e a colocou direta nos ossos de Demônio triturado.
Quase instantaneamente, eles se acenderam, criando Chamas Sagradas. Ele criou um fio de mana e o soltou do seu próprio corpo para ver o que aconteceria. Eiro o jogou na direção das chamas e, imediatamente, a mana de Eiro pegou fogo e começou a queimar, como Eiro pensava.
Não apenas as partes físicas do corpo de um demônio eram suscetíveis a esse tipo de efeito, mas sua mana também. Agora que as Chamas Sagradas estavam usando a mana de Eiro como seu combustível, praticamente não havia diferença entre um Fogo Mágico comum.
Lenta e muito mais cuidadosamente que o normal, Eiro começou a alimentar mais chamas nas chamas brancas na sua frente, enquanto usava a madeira negra para extinguir a criada com o pó de ossos.
Assim, Eiro começou a praticar magia de fogo básica e comum usando chamas que poderiam matá-lo quase na hora.
— Espera, como isso funciona? Se a sua mana é tão vulnerável à Energia Sagrada, como é capaz de controlar o sangue de Avalin com magia? — Gondos questionou. Parecia que ele estava bastante curioso sobre isso e ter esse tipo de conhecimento era importante para espíritos jovens, então Nelli assumiu e explicou.
— Bem, é simples. A mana de Eiro não possui traços da sua natureza demoníaca suficientes para causar sua ignição por conta própria. Talvez, se Avalin estiver em seu pico de poder e lutar ativamente contra Eiro, então isso seja possível, mas não assim. No entanto, quando a chama já está acesa, é como uma mistura de Energia Sagrada e magia de fogo, então ela usa a mana de Eiro como combustível, já que ainda contém traços minúsculos da sua natureza demoníaca. Simples assim.
— Ah… Entendo. Isso é algo que devo recordar, então. Obrigado, Nelli. — Gondos respondeu, enquanto se virava e olhava de volta para as Chamas Sagradas que Eiro estava controlando, um tanto nervoso.
— Isso é meio estranho, não é? Transformar sua própria perdição em uma arma é o sentido indireto que pensei que planejou antes, usando luvas especiais e assim por diante, mas fazê-la dessa forma? Você não pode… conjurar feitiços usando isso, se for o caso?
— Esse é o plano, pelo menos. Se eu tivesse mais tempo, teria tentado mais algumas coisas, mas não sei se tenho esse tempo agora, então terei que usar isso dessa maneira. — Eiro explicou. — Sério, por que esse tipo de inimigo tem que aparecer AGORA, logo agora? Acho que é um bom treino para ele…
— Hm? — Gobo perguntou, confuso desde que ainda tinha dificuldade em compreender a permanência dos objetos ao máximo. Parecia que ele pensou que Eiro estava falando de uma das pessoas aqui neste cômodo ou na mansão. Eiro olhou para ele e assentiu a cabeça.
— <O Diabo>. Quem mais? Sabe, não tive esse plano para <A Morte> o Colecionador, mas para ele, mas como não tenho acesso a mais nada para usar contra o Colecionador em particular, tive que adiantar esse plano. Espero que <O Diabo> não perceba, mas bem, quando eu puder enfrentá-lo, a coisa que quero fazer deve estar pronta.
O Diabrete comentou e empacotou o pó de ossos em pequenos pacotes que fez com pano para que conseguisse ‘explodi-los’ em Chamas Sagradas sempre que precisasse, mas não disse muito mais sobre a coisa que queria fazer para matar <O Diabo> e isso era algo que mais ninguém tinha ouvido falar ainda. Nem mesmo Nelli e Gondos sabiam sobre isso. Então, ambos permaneceram atrás do Demônio, encarando-o.
Eiro suspirou e se virou.
— O quê?
— Bem, não irá nos contar?
— Contar o quê, Nelli?
— O que você quer fazer para matar <O Diabo>?
Com um leve suspiro, Eiro se levantou e caminhou até o outro lado do quarto, ainda tentando manter as Chamas Sagradas acesas passiva a um pouco de distância para praticar seu controle sobre elas, já que ainda era um pouco diferente do que magia de fogo comum. Desse modo, o Demônio abriu um closet cheio de objetos aleatórios e retirou um orbe específico.
Era uma visão surpreendente, mas o que havia dentro do orbe de vidro hermético era uma esfera flutuando e Eiro anunciou esta parte do seu plano.
— Queria entrar na área de Artificação para que conseguisse criar uma chama que queima continuamente… só que neste caso seria uma Chama Sagrada, para que eu sempre tenha acesso a ela quando precisasse.