
Volume 3 - Capítulo 253
A Virtude do Demônio
Eiro vestiu as duas novas luvas e as experimentou, movendo seus dedos em todas as direções possíveis. Ele ainda estava um pouco preocupado com sua mão esquerda. Apesar de ter dito a Clementine há pouco tempo que não se importava de ter perdido sua mão direita, ainda preferia não perder sua esquerda também.
Afinal, nem conseguia sentir o toque em sua mão direita de madeira, apesar do fato de que a conexão com a prótese aumentou e isso não era algo que queria perder.
Mas parecia que não havia problemas com essas luvas, pelo que o Demônio conseguiu perceber, pelo menos. Claro, ainda não as utilizaria quando não fosse necessário, mas conseguiria vesti-las instantaneamente ao colocá-las na sua Tesouraria, então isso não era um problema.
Além disso, havia as cordas que foram entrelaçadas com os cabelos de Avalin. Esses eram objetos que Eiro queria tentar um pouco mais, apesar de que de forma diferente.
Primeiro, as envolveria ao redor da base de suas adagas. Se conseguisse esfaquear o Colecionador, poderiam causar alguns danos dessa forma e Eiro queria aproveitar cada chance de causar danos.
Então, manteria alguns conjuntos diferentes dessas cordas em seu bolso. Era suficiente para que estrangulasse alguém as usando e se conseguisse chegar nessa posição com o Colecionador, então era algo que poderia ter de usar de alguma forma, além de ser bom ter essas cordas em reserva.
Eiro também tinha uma pequena bolsa cheia com um pouco de cabelo de Avalin cortado em pequenos pedaços para que conseguisse controlá-los usando magia de vento se necessário, como se envenenasse o ar ao redor do Colecionador.
Isso era um pouco arriscado, entretanto, desde que também restringiria Eiro, apesar de que era um risco que ele estava disposto a assumir.
Mas, agora, havia um último preparativo que queria fazer para isso. Ele não gostava dessa ideia, mas era algo que seria mais útil do que todo o resto, considerando que era a parte de Avalin que carregava a maior quantidade de Energia Sagrada em seu pequeno corpo.
Eiro foi até o quarto onde Sammy e Jess estavam brincando com Leon e Avalin e agachou-se ao lado da menininha enquanto todos o cumprimentavam. Claro, Avalin se jogou em Eiro como fazia sempre, mas o Diabrete não estava no clima para isso, considerando o que estava para fazer. Não era como se fosse cortar um dedo dela, mas ainda se sentia mal por explorar sua filha dessa forma.
— Sammy, poderia levar Leon para fora um pouquinho? — Eiro perguntou para ela e a garota olhou para ele com uma leve carranca.
— Tem algo errado? — Sammy questionou e Eiro balançou a cabeça.
—Não se preocupe, não é nada tão ruim. Explico mais tarde. — O Demônio disse de forma tranquilizadora e Sammy assentiu enquanto segurava a mão de Leon.
— Certo então… Leon, venha comigo, vamos brincar lá fora um pouquinho.
Assim que ambos saíram, Avalin olhou para Eiro com curiosidade.
— Papai, o que faremos agora?
Com um sorriso na face, Eiro olhou para o membro do seu grupo.
— Quase tal você se sentar no colo de Jess? Não é nada ruim, só quero que se sente ali, feche seus olhos e escute a minha voz o tempo todo. Okay?
Com uma expressão ainda mais curiosa, Avalin assentiu e se arrastou pelo chão para se sentar no colo de Jess, que se sentou no chão com as pernas cruzadas.
— Err… Obrigado por perguntar, eu acho?
— Hm? Mas eu não perguntei? — Eiro comentou enquanto colocava sua bolsa na frente dele e Jess se virava com um sorriso irônico.
— Esqueça…
Eiro fez isso e prosseguiu. Ele retirou um pequeno frasco de vidro da sua bolsa e abriu sua tampa. Com um movimento rápido do seu dedo, retirou o líquido com magia de água, enquanto segurava a mão da sua filha e esticava o braço dela. Ele espalhou o líquido de cheiro forte na parte interna do cotovelo dela, enquanto Jess ajudava Avalin a manter os olhos fechados, já que Eiro não queria que ela soubesse o que ele estava fazendo.
Parecia que o álcool frio e puro estava fazendo cócegas em Avalin, pois ela estava rindo um pouco, então Eiro decidiu que era uma boa hora para começar.
Ele usou o resto do álcool para desinfetar uma pequena agulha e, em seguida, com uma voz energética, falou com sua filha.
— Certo, agora, vamos brincar um joguinho que Jura me ensinou. Bem, em vez de um jogo, é algo como… mostrar quão esperta você é. Primeiro, quero que aperte a sua mão o mais forte que conseguir e, em seguida, tussa o mais forte que puder. Depois disso, precisa se lembrar de parar de fazer ambos ao mesmo tempo, certo?
— E fazer isso me faz esperta? — Avalin perguntou e Eiro riu baixinho em resposta.
— Claro que não, você já é a garotinha mais esperta que existe. Só quero ver o quão esperta você é para que eu possa me gabar para todos os meus amigos, certo?
Com um leve sorriso na face, Avalin assentiu, enquanto Jess mantinha suas mãos nos olhos da garota. Ele sabia o que estava ocorrendo e estava tentando segurar seu riso com o truque ruim.
— Okay! Então pode se gabar de mim o quanto quiser! — Avalin exclamou, presunçosa, e apertou sua mão ao respirar fundo.
Então, de modo um tanto violento, Avalin expeliu todo o ar do corpo com algumas tosses. Essas tosses foram a distração perfeita para Eiro inserir a ponta da agulha que segurava nas veias de Avalin.
O aperto tensionou suas mãos e realçou suas veias, facilitando vê-las e acertá-las, enquanto as tosses serviam para distrair Avalin de ser perfurada pela agulha.
Imediatamente depois disso, Eiro passou sua mão pelos cabelos de Avalin enquanto a elogiava por quão bem ela foi, enquanto retirava um pouco do sangue dela e o guardava no frasco vazio. Depois de terminar, Nelli conjurou magia de água para curar o pequeno furo.
Eiro guardou o frasco com sangue e pegou um pequeno doce enquanto sinalizava para Jess soltar Avalin. Ele colocou o doce na mão dela com um sorriso brilhante.
— Você foi perfeita! Aqui, um prêmio para você.
— Eeeebaaa! — A garota exclamou com um sorriso brilhante e animado, que Eiro retribuiu enquanto brincava com ela por mais alguns minutos, até que ela terminasse o doce e se certificasse de que estava bem depois de ter seu sangue tirado. Parecia que ela não havia percebido.
Alguns minutos depois, Eiro se levantou de novo e permitiu que Sammy e Leon voltassem para dentro do quarto, enquanto Jess ia até o Demônio com uma expressão confusa. Ela puxou Eiro para fora do cômodo sem hesitar.
— Por que você fez isso? Para que você precisa disso?
Eiro olhou para a mulher com seus braços cruzados, enquanto se inclinava contra a parede.
— Lutarei com um Morto-Vivo, então preciso de algo com muita Energia Sagrada.
— … Água Benta não teria sido ainda melhor?
— Não teria. Pelo menos não qualquer água benta. O único tipo que é mais forte que o sangue puro de Avalin é a água abençoada pelo papa. Mesmo assim, o sangue de Avalin talvez seja mais forte.
— Isso é meio difícil de acreditar, mas, se for o caso, por que não pediu para Avalin um pouco do sangue dela? Explicar teria sido melhor do que quer que tenha sido aquilo… — Jess comentou, mas Eiro balançou a cabeça enquanto pegava o pequeno frasco cheio de sangue.
— Só que não. Embora ela esteja bem com o sangue de qualquer outra pessoa, Avalin tem um medo mortal do próprio sangue. Bem, felizmente consegui convencê-la de que não é um problema enquanto está dentro do corpo dela, mas além disso, ela ainda tem muito medo. — Eiro explicou. Ele abriu a tampa do frasco e retirou uma única gota de sangue, usando magia, desde que viu que Jess ainda estava muito confusa sobre o porquê de Avalin ter medo do seu próprio sangue.
Assim, Eiro permitiu que a gota caísse nas costas da sua mão. Assim que a pequena gota de sangue encostou nela, a pele do Demônio começou a chiar muito enquanto fumaça começava a subir do ferimento, que se espalhava ao mesmo tempo que a carne naquele local apodrecia.
Antes mesmo que Jess pudesse reagir, uma pequena faísca branca foi criada, que logo se inflamou em chamas brancas que se espalharam por toda a pele de Eiro sem parar.
Mas o Diabrete tinha um item preparado para isso. Era um pequeno pedaço de madeira liso e redondo que parecia como uma pedra negra que emitia uma aura sinistra. Eiro esfregou o pedaço de madeira pelo ferimento e imediata extinguiu as chamas brancas, fazendo o chiado parar.
— Há alguns anos, quando Avalin começou a correr o máximo que podia… ela tropeçou de repente e arranhou seu joelho. Bem, é algo que as crianças fazem, certo? Foi o que pensei também, desde que tinha que cuidar de Arc constantemente com esses arranhões, mas quando fui limpar o joelho de Avalin, um pouco do sangue encostou no meu dedo e aconteceu o mesmo que você acabou de ver. Para uma pequena garotinha como ela era e ainda é, isso é aterrorizante. O que você pensaria ao ver o seu pai literal pegar fogo por tentar te ajudar?
Jess olhou de volta para Eiro com uma expressão preocupada, embora o ferimento já tivesse se curado muito bem, assim como todos os ferimentos de Eiro. Ele nunca precisou muito de cura.
De qualquer forma, Eiro segurou o pedaço de madeira do tamanho de uma mão na direção de Jess, que deu um passo para trás por instinto.
— Essa é uma madeira vinda de uma árvore que cresceu a partir do cadáver de um Anjo Caído. Está produzindo energia profana. Enquanto Energia Sagrada é minha perdição, Energia Profana é o que Energia Sagrada é para você, algo que pode me curar. Sempre tenho isso comigo como um tesouro no caso de algo acontecer com Avalin. Temos isso porque Jura estava trabalhando em algo que pudesse evitar que a Energia Sagrada cada vez maior de Avalin vazasse para o mundo. Você só não percebe porque ambos estão anulando um ao outro… receio que, sem isso, eu possa nem ser capaz de abraçar Avalin sem pegar fogo.