
Volume 3 - Capítulo 252
A Virtude do Demônio
Eiro e Clementine logo chegaram ao quarto de Rudy, onde o jovem costurava os fios do cabelo de Avalin em diferentes peças de roupa e cordas para que pudesse criar algo que talvez ajudasse Eiro com o Morto-Vivo que lutaria.
— Está tudo dando certo? — Eiro perguntou. Rudy virou e assentiu a cabeça.
— Sim, tudo está indo muito bem, eu diria. É um pouco estranho, mas o cabelo de Avalin é superforte apesar do quão fino ele é e não está ressecado nem nada. É perfeito para esse tipo de coisa.
O jovem olhou para seu pai com um sorriso e Eiro caminhou até ele, colocando a mão em seu ombro. Na mesa, o Diabrete conseguiu ver algumas peças de roupa comuns nas quais Rudy estava costurando os cabelos.
E enquanto Rudy fazia isso, também havia alguns pequenos ‘Cidadãos’ criados por meio da sua habilidade ‘Castelo’ na mesa, entrelaçando alguns fios de cabelo com um fio forte e comum. Isso tinha o objetivo de criar uma corda mais grossa que poderia ser usada para algumas outras coisas, como integrá-las em itens e armas com mais facilidade.
— Esses caras são bastante habilidosos por conta própria, hein? — Eiro perguntou e Rudy olhou ao redor com uma expressão presunçosa.
— Heh, é claro que são! Tenho praticado um pouco para que eles possam fazer diferentes coisas que me ajudem. Na verdade, posso canalizar minhas habilidades de ‘aprimoramento’ através deles para tornar as melhorias ainda mais fortes, mas, na maioria das vezes, esses caras fazem coisas menores como isso, ou posso pedir para eles amarrarem as pontas soltas enquanto estou costurando. Ah, espera, tem mais um tipo desses caras, na verdade… — Rudy comentou com um pequeno sorriso.
Ele pegou seu próprio gerador de faíscas que estava em um canto da mesa e criou uma pequena chama com sua própria magia de fogo. Diferente das de Arc, as chamas de Rudy não eram úteis em combate, mas, em vez disso, eram incríveis em outras coisas utilitárias.
Rudy prendeu essa pequena chama na ponta do seu dedo indicador direito e segurou seu indicador esquerdo contra a superfície da mesa. Desse dedo saiu outra pequena figura, embora essa fosse diferente dos ‘Cidadãos’.
— Esse é o tipo específico que consegui criar por conta própria! Eu os chamei de ‘Mago da Corte’! — Rudy explicou e Eiro deu uma olhada rápida. Havia duas diferenças principais entre esse e os cidadãos. Enquanto os civis eram figuras humanoides brancas, esse ‘Mago da Corte’ específico tinha um leve tom avermelhado.
Ele caminhou até as chamas que Rudy estava controlando com seu dedo e pegou um pequeno pedaço delas. Rudy então fez sua própria chama desaparecer, enquanto o ‘Mago da Corte’ manteve o pedaço que havia segurado e o usou para caminhar em direção à corda que os ‘Cidadãos’ estavam criando, a fim de chamuscar a ponta dela e fundi-la para que não houvesse pontas soltas.
— Muito legal, hein? E sim, sei que é um pouco inútil, já que poderia fazer isso sozinho, mas ainda é meio legal de brincar com isso.
— Na verdade… — Eiro respondeu. — Não é tão inútil. Claro, agora você pode não ver usos para isso ainda, mas assim que ficar mais forte pode facilitar muito a sua vida se você conseguir fortalecer esses caras ou se for capaz de aumentar o número de Cidadãos e Magos da Corte. Então, continue tentando. Ótimo trabalho com quão longe você levou esses caras. — O Demônio sorriu para Rudy, que, um pouco envergonhado, mas ainda feliz, olhou de volta para o projeto à sua frente.
— Urgh… Amor paternal, você vai me deixar doente. — James resmungou enquanto parava no batente da porta depois de escutar algumas das coisas que todos estavam falando e Eiro riu baixinho.
— Não é minha culpa que você tem problemas com seu pai.
— Ah, eu tenho problemas com a pai? Vamos lá, Eiro, nos diga sobre o seu pai de novo, hein?
— Touché. — O Demônio respondeu enquanto se virava. — Precisa de algo?
James balançou a cabeça enquanto se aproximava.
— Na verdade, não. Terminei a manutenção dos meus equipamentos, então pensei em me juntar a vocês quando escutei vocês passarem pelo meu quarto, mas agora que você mencionou isso… Poderia vir comigo por alguns segundos?
Eiro assentiu e olhou para suas crianças com um sorriso.
— Já volto. — O Demônio foi até James e o seguiu para fora do quarto. Juntos, escolheram seguir o corredor para que pudessem falar sem que os outros escutassem.
— Então, vai nos dizer do que se trata tudo isso? — James perguntou e Eiro assentiu de imediato.
— Claro, claro, não se preocupe. É um pouco difícil de lidar no momento. Está relacionado à situação com a Organização e ainda não sei quanto eles sabem e controlam. Não quero colocar todos vocês em perigo, não quero pôr em risco minha infiltração na Organização. — Eiro explicou e James permaneceu em silêncio por alguns instantes, embora no fim, parecesse compreender os motivos de Eiro.
— Tudo bem, mas se precisar de nós, avise-nos. Estamos treinando um monte ultimamente, sabe disso. Não quero que nos trate como se fôssemos crianças fracas ou algo do tipo. — James disse para Eiro, que virou a cabeça e sorriu para o Elfo da Luz.
— Claro que não, não se preocupe. Se eu precisar de vocês, os informarei de alguma forma. Pedirei para que Rudy reserve um pouco das cordas e tecido para vocês também, no caso de precisarem. — O Demônio sugeriu e James olhou para ele com uma carranca.
— Com o que você está lutando? Outro demônio?
Com um suspiro profundo, Eiro balançou a cabeça.
— Infelizmente não, caso contrário seria muito mais fácil. Eu poderia atordoá-lo com um pouco de Energia Sagrada e finalizá-lo. Não, é um Morto-Vivo. Um muito forte.
— Urgh, Morto-Vivo… — James resmungou algo. — É, esses caras são horríveis de se lutar algumas vezes, mas esse é tão problemático que precisa se preparar tanto?
Eiro olhou para o chão e assentiu em resposta.
— Para ser honesto… Ele poderia ter me matado quando nos encontramos. Não sei por que ele não fez isso, mas uma coisa que tenho certeza é que não consegui causar um dano a ele.
— O quê? — James questionou, parando no meio do caminho enquanto encarava Eiro com uma carranca profunda. — O que você quer dizer com ‘não conseguir causar danos nele’? Você é doido? Ele não é muito mais forte que você?
Eiro suspirou em resposta e assentiu.
— Sim, ele é, mas não existem inimigos impossíveis de se matar. Se for preciso, usarei meu Ás de Copas para matá-lo e acabar com isso. — O Diabrete anunciou e James se aproximou dele.
— Não só pelo seu bem, espero que saiba o que está fazendo. Se você deixar essas crianças para trás, juro que colocarei minhas mãos em feitiços necromânticos de merda e te levantarei dos mortos por conta própria, se precisar, para chutar sua bunda por isso.
— Oh? Bem, na verdade eu gostaria de ver você conjurando feitiços… talvez e-
— Eiro. — James interrompeu o Demônio, que estava começando a brincar. — Estou falando sério.
Eiro olhou para James e afastou seu olhar.
— Eu também, não estou planejando morrer, mas, como mencionei, não existem inimigos invencíveis. Isso conta para mim também. Eu sei que você disse que chutaria minha bunda se isso acontecer, mas… se eu acabar morrendo, quero que vocês três protejam essas crianças para mim. Não quero que nada aconteça com elas. Elas são mais importantes para mim do que eu mesmo.
James olhou de volta para Eiro com uma expressão vazia, sem exibir nenhum tipo de emoção. Era óbvio que ele estava incerto do que responder nesta situação, mas, no fim, o Elfo da Luz fechou os olhos e se virou, continuando pelo corredor.
— Pode deixar. Vamos esperar que não chegue a isso. Por ora, volte para elas.
Com um pequeno sorriso no rosto, Eiro se virou e voltou para suas crianças. Apesar das diferenças entre ele e James, Eiro estava mais do que feliz em ter alguém em quem poderia confiar. Alguém a quem poderia contar seus segredos e alguém que poderia cuidar das coisas quando estivesse ausente.
— Estou meio que insultada por você nunca nos pedir algo do tipo. — Nelli ressaltou enquanto aparecia na frente de Eiro, deslizando ao redor do pescoço do Demônio, enquanto Gondos aparecia ao lado dela. O Diabrete suspirou e passou a mão pelo Espírito de Água, retirando-a do caminho e a forçando a se reformar em outra posição.
— Certo, certo, como se eu precisasse dizer isso para você. Não espero que Gondos faça, desde que ele não está conosco há tanto tempo, mas não há como você abandoná-las a este ponto, Nelli. Você teria que morrer se isso acontecesse.
Ao notar o suspiro de Nelli, Eiro sorriu enquanto voltava para o quarto de Rudy, onde o jovem tinha mais algumas coisas para mostrar para Eiro. Ele entrou no quarto e observou enquanto Rudy caminhava até ele.
— Preciso medir suas mãos. Quero fazer um par de luvas com esse material. — Rudy comentou e Eiro levantou as sobrancelhas.
— Um ‘par’? Sabe que não irei vesti-la na minha mão esquerda, certo?
— Hm? Oh, certo, esqueci de te contar… Esse tecido possui camadas, o interior das luvas não terá os cabelos de Avalin, então não entrará em contato com eles. Embora ainda possa haver algum resíduo da Energia Sagrada, então pensei…
Eiro pensou sobre isso por um tempo, mas, no fim, deu de ombros.
— Bem, parece razoável. Acho que pode ser útil se eu puder usar ambas as minhas mãos para causar mais danos.
— É, foi o que pensei.