A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 250

A Virtude do Demônio

Eiro voltou para casa, porque neste ponto tinha mais uma razão para terminar seus preparativos anti-mortos-vivos o mais rápido possível. O demônio voou para uma das janelas abertas e dobrou suas asas enquanto fazia isso, pulando dentro.

Mas Arc, que estava sentado lendo alguma coisa e desfrutava de um pouco de ar fresco, se assustou com isso.

— Caralho! O que você está fazendo? — Arc questionou com um sorriso sarcástico enquanto fechava seu livro e Eiro olhava para ele ao mesmo tempo que retirava sua máscara.

— Desculpa, só achei que seria mais rápido do que pousar na porta da frente. De qualquer forma, pensei que você estaria aqui.

— Sim, mas ainda assim… Bavet fez a mesma coisa antes, é meio irritante. Até mesmo para mim. — O jovem comentou enquanto Eiro retirava sua capa e olhava para seu filho.

— Tentarei não fazer de novo então. Sabe o que Rudy está fazendo agora?

Arc inclinou suas costas contra a poltrona em que estava sentado e pensou por um tempo.

— Erm… acho que ele queria trabalhar um pouco com as mãos? Ao mesmo tempo que praticava sua habilidade ‘Castelo’? Embora não tenha certeza, por quê?

— Preciso da ajuda dele para costurar algo. Obrigado.

— Uh, sim, é claro, eu acho? — Arc respondeu com um sorriso. Eiro estava saindo pela porta, apesar de que logo tenha parado e se virado.

— Quer vir junto?

— Porra, sim, este livro é entediante pra cacete! — O jovem pulou e colocou o livro de volta na estante ao seu lado. Eiro olhou para o nome na capa e depois voltou seu olhar para Arc com uma leve carranca.

— O que você quer dizer com: ‘é entediante’? Ele é bastante interessante, traz algumas questões sérias que são bem interessantes de teorizar. Sempre quis ter alguém com quem discutir sobre isso, então, se acabar terminando de ler-

— Claro, irei até você. — Arc suspirou. — Mas por que você precisa ler sobre ‘As relações Pessoa-Monstro e profundo enraizamento social de onde seu estado atual se origina’? Você sabe que isso não é algum tipo de racismo, é literal relacionado à como a maioria dos monstros têm uma força dentro deles que os transforma no que são.

— Oh, sim, eu sei. Essa parte do livro é uma besteira completa. Se você irá viver em uma sociedade como esta, ainda precisamos saber coisas assim, mas o que eu quero dizer são os subpontos que o autor propõe, nos quais as pessoas também possuem um tipo de monstruosidade nelas. Existem muitas pessoas que são muito mais brutais, assassinas e aterrorizantes do que a maioria dos monstros, mas, no fim, as pessoas ainda salvariam alguém assim em vez de um monstro. É meio que interessante pensar no que seria necessário para mudar isso.

— Bem… Mudar a espécie dos monstros, eu acho? — Arc sugeriu e Eiro assentiu de imediato.

— Sim, essa é a única forma de mudar tudo isso. Embora seja algo impossível, então não há razão real para esperar que algo do tipo aconteça tão cedo. — O Diabrete comentou.

Arc deu de ombros.

— Mas é isso. Só é meio… fodido, eu acho. Honestamente as pessoas subestimam o problema com muita frequência. Você não pode mudar esse tipo de coisa de um segundo para outro.

— Isso é verdade, mas esqueça isso, não quero me ater nesse tópico agora.

— Justo, mas bem, o que você está tentando fazer agora? — Arc perguntou curioso e Eiro abriu a porta do seu quarto, enquanto caminhavam até a localização de Rudy.

— Só uma coisa que preciso resolver. Não consigo fazer sozinho.

— E o que é essa ‘coisa’?

Com um leve suspiro, Eiro se agachou e pegou uma pequena caixa de madeira especial que tinha escondido embaixo da sua cama. Ele a retirou e a colocou em cima da mesa colocada em seu quarto, abrindo-a.

Assim que Arc viu isso, o garoto olhou para Eiro com uma expressão de nojo.

— Merda, por que você guardaria essa coisa? Isso é nojento! Espera, você não guardou os nossos, certo? Por favor, não me diga que você tem uma caixa como essa embaixo da sua cama para mim… Quer saber, na verdade, estou meio curioso agora… — Arc comentou e o processo de uma de suas habilidades únicas tendo efeito podia ser visto com muita facilidade.

Eiro fechou os olhos e balançou a cabeça.

— Não, porque mais nenhum de vocês emite uma quantidade constante de Energia Sagrada. Conseguimos suprimir que a Energia Sagrada vazasse de Avalin, mas isso não significa que não afete outras coisas, como seus cabelos e unhas. Sei que não é algo que você gostaria de ver, mas não podemos deixá-las jogadas no chão. Até queimá-las resultaria em cinzas com quantidades extremas de Energia Sagrada.

Eiro tentou se justificar o máximo possível enquanto olhava para o conteúdo na caixa à sua frente.

Era algo que qualquer um chamaria de sinistro e repugnante, mas era uma coleção de cabelos, assim como unhas cortadas que Eiro havia coletado para que não deixassem nenhum tipo de evidência da localização de Avalin. Havia um segundo motivo para, pelo menos: manter todo o cabelo preso. As unhas estavam guardadas em outra camada, selada em outra caixa que drenava a energia sagrada delas na velocidade com que o sacerdote normal liberaria, para que Eiro pudesse se livrar delas mais cedo ou mais tarde, mas o cabelo era outra coisa.

O cabelo de Avalin continha muita Energia Sagrada e poderia ser usado como ingrediente para inúmeras poções ou feitiços e não era nem de longe tão sinistro. Se alguns fios do cabelo de Avalin fossem costurados em uma roupa, isso aprimoraria as habilidades de qualquer sacerdote, ao mesmo tempo que repeliria qualquer tipo de criatura ‘Impura’, como Demônios e Mortos-Vivos. Isso também causaria um dano incrível a esses dois grupos.

Felizmente, devido à prótese de Eiro, era capaz de evitar se machucar contanto que enrolasse algum tipo de tecido ao redor da sua mão ou em lugares onde não entrasse em contato direto com sua pele.

— … Com que tipo de inimigo você precisa lutar? — Arc perguntou com uma expressão vazia, apesar de que havia uma pitada de preocupação, tristeza e fúria brilhando por trás dela. Ou assim Eiro pensou… Talvez estivesse imaginando.

— É um Morto-Vivo bastante evasivo. Não se preocupe, posso lidar com ele. Mortos-vivos só são irritantes porque são imunes a muitos tipos diferentes de danos. Não são tão afetados por danos perfurantes, cortantes ou contundentes, a menos que isso cause algum tipo de dano físico notável, como remover uma perna. Eles não se importam com frio ou calor extremos, exceto em alguns poucos casos. Fogo deve funcionar bem, mas não sentem dor e devem ser capazes de se extinguir por conta própria com certa facilidade. Especialmente esse tipo, desde que consegue usar magia em si próprio… não posso envenená-lo, nem vencer em uma luta de resistência. Então, no fim, tenho que usar a fraqueza dos Mortos-Vivos contra ele. Para ser honesto, Zoemancia talvez seja ainda melhor, mas você sabe… São ainda mais difíceis de encontrar do que necromantes. — Eiro explicou enquanto pegava com cuidado uma mesa espessa de cabelos da caixa.

Embora não devesse machucá-lo muito, considerando que contato direto com Avalin enquanto a abraçava não o incomodava nem um pouco, Eiro ainda queria ter certeza de não causar algum problema. Ele já havia perdido um membro através do contato prolongado com uma Energia Sagrada mais fraca.

— Zoemancia… Isso é Magia de Vida, certo? Então, o exato oposto de Necromancia, que é Magia de Morte? — Arc perguntou, formulando a frase de uma forma estranha.

Eiro olhou para ele com as sobrancelhas levantadas.

— Sim, o que tem sobre isso? Pensei que você comentaria mais sobre a parte do Morto-Vivo.

— Oh, não se preocupe, estou chegando lá… só estava refletindo… ‘Morte’ é um elemento avançado de escuridão, então ‘Vida’ deve ser um elemento avançado de luz, certo?

— Uhum, isso mesmo. Embora Zoemantes não necessitem ter uma afinidade incrível com o elemento Luz. É mais como… entrar no domínio bruto da ‘Vida’, como cura, por exemplo, ter afinidade com o elemento Luz é uma consequência disso, mas… — Eiro comentou e, de repente, percebeu em que ponto Arc queria chegar. — Primeiro de tudo, mesmo que ela tenha a possível afinidade com o elemento Vida, ela ainda não o possui e essa luta acontecerá em breve. Mesmo que tenha Magia de Vida agora, não a levaria comigo em uma luta com a qual tenho tantos problemas a ponto de recorrer à minha própria maldição.

— Então a luta é difícil, afinal?

— Sim, não estou falando de algum tipo de zumbi ou esqueleto. É bastante forte, mas nada que irá me matar, mas… Você pode estar no caminho certo. Ainda não pensei sobre tudo isso, desde que nenhum de vocês mostrou sinais de despertar seus elementos avançados, mas, mesmo assim, esse não é o nosso foco agora.

— Embora… — Nelli escolheu interromper, já que ela deveria adicionar algo nesse assunto. — Considerando que ela é uma curandeira, ter Magia de Vida é uma ferramenta poderosa. Quanto aos outros, seus elementos avançados devem ser uma versão mais forte dos seus atuais, eu presumo, mas Zoemancia é mais do que isso. É muito similar à Necromancia no sentido de que desbloqueia uma gama inteira de habilidades diferentes. Você deveria tentar ajudá-la para que ela possa ser ensinada na academia depois de despertar.

Eiro olhou para o Espírito com uma expressão vazia e resmungou alto.

 — Por favor, você não pode deixar que pelo menos UMA das minhas crianças seja tão parecida com como era naquela época? Se ela subitamente começar a criar vida artificial através de Zoemancia, como vou tratá-la como se fosse minha garotinha?

Eiro reclamou alto em um tom irritado, embora soubesse que isso era algo que precisava ser ensinado para ela.

‘Me dê um pouco mais de tempo com minha fofa e antiga Clementine antes disso, tudo bem?’

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